Maura Helena Miranda nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, no bairro dos Ferroviários, onde o barulho dos trens se misturava ao cheirinho bom dos bolos e doces que a mãe, dona Gicelia, fazia para vender. O pai, Valentim, era ferroviário, homem de passos firmes e rotina disciplinada. A casa era simples, mas cheia de afeto, e foi nela que Maura aprendeu o valor da palavra, da curiosidade e da dedicação.
Irmã mais nova de quatro irmãos, desde menina chamava atenção pela fala solta e o olhar curioso. “Sempre foi muito comunicativa”, recorda a irmã Ana. Era ótima aluna no colégio Liceu Muniz Freire e passava horas lendo, encantada com o poder das histórias.
Ao terminar o ensino médio, deixou o interior rumo a Vitória. A capital parecia grande demais, mas ela nunca teve medo. Trabalhou como atendente de farmácia, começou a graduação em Serviço Social, mas logo sua veia comunicativa falou mais alto. Tinha algo em sua forma de observar o mundo que pedia uma câmera por perto, e ela entendeu cedo que contar histórias era seu destino. Mesmo sem concluir a primeira graduação, Maura entrou no curso de Jornalismo.
UM ROSTO NOVO NA TELEVISÃO
Em meados da década de 1970, Maura Miranda estreava na TV Gazeta. Era 1977 e, ao surgir no vídeo, algo novo acontecia: pela primeira vez, uma mulher negra ocupava a bancada de um telejornal no Espírito Santo. Ela foi a primeira mulher negra do Estado a ser âncora de um telejornal e uma das primeiras do Brasil.
A presença de Maura rompeu o que parecia impossível. Ela falava com naturalidade, com leveza. Lia as notícias como quem conversa com o público. “Ela apresentava de uma forma mais conversada, o que era raro na época”, lembra o diretor de Jornalismo da Rede Gazeta, Abdo Chequer.
Nos anos 70 e 80, ela se tornou um rosto conhecido em todo o estado. De acordo com Abdo, ela tinha elegância, serenidade e uma presença que inspirava confiança. “Era moderna e muito querida pelos colegas da redação”
PROFISSIONALISMO, AFINCO E AFETO
Trabalhou na TV Gazeta até 1983, onde fez história, e, logo depois, passou para a TV Vitória, então afiliada à Rede Manchete, onde permaneceu por uma década. Cada reportagem, cada entrada ao vivo, trazia o mesmo rigor e o mesmo brilho nos olhos de quem entendia o jornalismo como missão.
“Maura era alegria. Ela alegrava os espaços. Era muito bonita e andava sempre elegante”, relembra a jornalista Helena de Almeida, amiga e parceira de redação.
Em 2003, Maura chegou à Assembleia Legislativa, onde trabalhou na Secretaria de Comunicação. Lá, produziu reportagens e documentários que marcaram o jornalismo capixaba, entre eles Os Pomeranos, Lugar de Toda Pobreza e o premiado Amar Caparaó.
O olhar humano e sensível que sempre a guiou fez dessas obras muito mais que registros: eram retratos do Espírito Santo real, diverso e belo. Este foi o último emprego de Maura, no qual saiu em 2011 e depois se aposentou.
UMA VIDA QUE SE FEZ LEGADO
Nos últimos anos, Maura viveu um tempo de fé. Tornou-se evangélica, dedicou-se à espiritualidade e encontrou na calma da rotina de Jardim da Penha um novo sentido para a vida. Lia bastante, cuidava dos cachorros e mantinha perto os irmãos, especialmente Ana Maria, Nina e Cliveraldo, seu confidente.
A sobrinha, Gicelia Miranda, reforça: “Era centrada, compenetrada, vaidosa e apaixonada por Vitória. Amava cachorro, teve vários! Também adorava moda e tinha uma relação muito boa com a família”.
Maura Miranda morreu aos 72 anos, no Hospital Estadual Dr. Jayme Santos Neves, na Serra, após complicações de uma cirurgia para retirada da vesícula. O procedimento parecia simples, mas evoluiu com aderências e infecção. “Ela internou na sexta-feira e no dia seguinte teve complicações, voltando para o centro cirúrgico. Depois, foi direto para a UTI”, contou a sobrinha Gicelia Miranda.
O corpo foi levado para Cachoeiro de Itapemirim, sua cidade natal, e velado na Capela do Cemitério de Coronel Borges, onde foi sepultado no fim da tarde.
Mas sua voz permanece. Permanece no jeito natural de tantos apresentadores que hoje olham para a câmera como quem conversa com um amigo. Permanece no gesto de cada mulher negra que, ao ligar a TV, sabe que ali também é seu lugar.
Em uma entrevista de 2016 para a TV Gazeta, Maura resumiu a transformação que ajudou a construir:
O apresentador vai para a casa do telespectador e diz: eu sou igual a você
Décadas antes, ela já havia feito exatamente isso, com coragem, pioneirismo, competência e verdade.