Danilo Muniz
Do lado de dentro dos muros da Unidade Feminina de Internação (UFI), do Instituto de Atendimento Socioeducativo do Espírito Santo (IASES), em Cariacica, a leitura tem sido mais que um hábito: tornou-se espaço de encontro, reflexão e transformação.
Criada em 2023, a roda literária nasceu como ponte entre as socioeducandas e o corpo docente. Os livros escolhidos são norteados por temas que provocam reflexão crítica e incentivam a construção de novos olhares sobre si e sobre o mundo. No início de setembro, o projeto ganhou um capítulo especial com a presença da filósofa e escritora Djamila Ribeiro, cujas obras já vinham sendo debatidas pelas meninas.
Representatividade e transformação
Durante a roda, as jovens compartilharam como os textos de Djamila — entre eles "Quem tem medo do feminismo negro?" e "Cartas para minha avó" — abriram portas para reflexões sobre feminismo, ativismo negro, empoderamento e representatividade.
Para uma das socioeducandas, foi um momento de inspiração.
Ela me inspirou a tomar o meu lugar de fala. Me ensinou a não ter medo do que as pessoas vão pensar e a ter vontade de me expressar
Para muitas, a experiência de ver a autora de perto foi como se as páginas ganhassem vida. “A oportunidade de olhar nos olhos de quem elas tanto liam e se viam refletidas foi um marco”, observa Frantieska Monteiro, diretora socioeducativa da unidade. Segundo ela, o projeto tem promovido uma mudança de mentalidade e ajudado as meninas a se enxergarem como protagonistas de suas próprias histórias.
O nascimento da roda literária
A iniciativa partiu de Mayra Barcelos, gerente da UFI. Ela percebeu que, apesar do acesso aos livros, as jovens liam de forma isolada, nos alojamentos. “Senti que faltava o momento coletivo, de partilha. Foi aí que escolhemos começar pela Djamila, por ser mulher, por ser negra, e por dialogar diretamente com a realidade delas”, lembra.
O espaço físico também precisou mudar: a biblioteca, antes escura e sem ventilação, passou por reforma. Mas, para Mayra, o verdadeiro salto foi a criação de um ambiente de diálogo.
O olhar da autora
A presença de Djamila foi fruto de insistência e de conexão pelas redes sociais. Ao perceber a repercussão de suas obras dentro da UFI, a escritora decidiu vir pessoalmente conhecer o projeto.
“Quando a gente escreve a partir do lugar social de onde viemos, o que esperamos é isso: não falar para as pessoas, mas com elas”, disse a filósofa. Para ela, conhecimento e coragem são pilares que, juntos, abrem caminhos para a transformação.
Projeto de leitura em unidade socioeducativa do ES
Ao final do encontro, ficou o legado de que os livros podem ser chaves para novos horizontes. Como destacou Frantieska Monteiro, o impacto vai além da roda de conversa:
“Entre tantas possibilidades, está a de que essas meninas se tornem escritoras — e, acima de tudo, autoras da própria história.”