Às vésperas de participar da 1ª Festa Literária Internacional Capixaba (FLINC), nesta sexta (10), em Vila Velha, o padre Júlio Lancellotti conversou com HZ sobre diversos assuntos. No bate-papo, o sacerdote falou da sua relação com a literatura, trabalhos voltados a pessoas em situação de rua e das vindas ao Espírito Santo.
Foram cerca de 30 minutos de entrevista por telefone (que você confere no final da matéria). E entre as quase vinte perguntas respondidas, o padre disse uma frase que me atravessou.
Quem tem fome de pão também tem fome de palavra
Sobre o direito das pessoas à literatura, o Lancellotti é direto ao afirmar que é preciso alcançar, sobretudo, quem vive nas ruas: “Nada é neutro. Ler o mundo, a própria vida, é parte do compromisso com um mundo mais fraterno”.
Por incrível que pareça, o livro mais pedido (nas ruas) é a Bíblia
A trajetória pastoral e humanitária de Lancellotti chama atenção por ser um dos nomes mais reconhecidos da defesa dos direitos humanos no Brasil. Sacerdote da Arquidiocese de São Paulo e coordenador da Pastoral do Povo de Rua, ele atua há décadas na linha de frente do cuidado com pessoas em situação de rua.
Desde o acolhimento cotidiano (refeições, documentação, acesso a saúde) à pressão pública por políticas que combatam a violência institucional, o padre é uma referência ética, principalmente, por unir presença concreta nas ruas, denúncia de violações e mobilização social.
O que motivou sua participação na 1ª Festa Literária Internacional Capixaba? O que espera dessa conversa com o público do Espírito Santo?
Eu vou com alegria, espero encontrar pessoas que gostam de livros e que possa ser um encontro que possa dialogar, falar de interesses e saberes.
O que deseja que as pessoas levem para casa depois do encontro: uma indignação, um gesto prático, uma leitura, uma mobilização?
A leitura nos ajuda a ter um compromisso. Eu acredito que as pessoas possam encontrar textos, autores, que se comprometem a tomar um mundo mais fraterno.
Como a literatura entrou na sua vida e no seu ministério?
A literatura entrou na minha vida desde a primeira infância. Eu vi minha mãe lendo, aprendi as letras através das capas dos livros dela. O Papa Francisco deixou muito claro o papel da literatura na formação. Você não pode ler o mundo dos seus pontos de vista. É preciso ler do ponto de vista do outro.
Em um país de tantas urgências, por que insistir que ler é um direito - inclusive (e sobretudo) para quem está em situação de rua?
Para ler o mundo, ler a própria vida, a própria situação. Nada é neutro, nem o que você lê. As palavras estão no marketing, nas narrativas. Quem tem fome de pão também tem fome de palavra. Nós não somos gavetas, somos uma pessoa. E esse trabalho é feito na convivência. Conviver é conflitivo. Não falamos que conviver é no paraíso, temos que conviver na tempestade também.
Se há resistência quando a pauta é cultura para quem vive nas ruas? Como o senhor contorna?
Essa invisibilidade da pessoa que está em situação de rua também nega que essa pessoa possa querer falar. Como é negado o pão e o agasalho, também é negado aos livros e ao afeto. E assim a pessoa fica cancelada.
O senhor coordena uma biblioteca em São Paulo voltada para pessoas em situação de rua. O que essa biblioteca representa na prática?
A biblioteca não é um privilégio de classe social. As pessoas, quando estão lendo um livro, se identificam com personagens, elas riem, choram. O mundo não é só o sofrimento e os livros levam a vários caminhos.
Que títulos mais circulam entre eles? O que surpreende nesses interesses de leitura?
É interesse que eles querem ler de tudo. Mas por incrível que pareça, o livro mais pedido por eles é a Bíblia. Até fizemos uma versão com capa própria para eles.
Como o senhor enxerga iniciativas de censura a livros em escolas e bibliotecas? O que isso causa na ponta, onde o senhor atua?
A censura deveria ser substituída pelo discernimento. É preciso discernir o que estão vendo. Nós não podemos censurar as pessoas, cortar os olhos para que elas enxerguem o que nós queremos. É preciso que elas enxerguem os desafios, as manipulações, e a partir disso saber fazer escolhas.
Qual foi a cena mais transformadora que viveu recentemente - e que ainda reverbera no seu modo de agir?
Para mim, o que fica sempre muito forte e reverbera é ler os evangelhos. Não só nas letras, mas nas pessoas. Hoje, pela manhã, encontrei uma senhora tão enrugada, enrolada em um cobertor, suja e mal cheirosa. Eu me coloquei pertinho dela e abracei. Depois do abraço, ela disse que queria encontrar a família para ver se acolhia ela novamente. E fiquei surpreso porque ela disse que gostaria que procurassem no Facebook. Pedi para uma assistente social ajudá-la.
O que a rua ensinou ao padre (e ao leitor) que nenhum seminário ensinaria?
O que um menino de rua me falou há muitos anos atrás é que a rua é um lugar cheio de portas. Mas todas estão fechadas. Eu pensei que deveria abrir essas portas, ou pelo menos algumas delas.
Qual sua relação com o Espírito Santo: já esteve no Estado? Quais lembranças guarda?
Eu passei rapidamente, nunca fiquei muito tempo. Conheci um padre capixaba que marcou muito minha vida. O nome dele é Martinho Krohling. Um dia ele me abraçou e disse que eu ia sofrer muito na vida porque eu era muito sensível. Isso me marcou.
Já visitou o Convento da Penha ou outros pontos religiosos (Anchieta, mosteiros, festas)? O que pretende conhecer desta vez?
Conheci o Convento rapidamente na visita que fiz ao Estado. Estive com as irmãs que fizeram o manto de Nossa Senhora da Penha daquele ano.
Que mensagem deixaria às comunidades de fé e aos agentes culturais capixabas que trabalham com população vulnerável?
Aguentem firmes porque a nossa luta é uma luta solitária.
Se pudesse indicar um livro para começar e um gesto para hoje, quais seriam?
O livro que eu indico é da editora Vozes. Se chama “Jesus: Aproximação histórica”, do autor José Antonio Pagola. Já o gesto para hoje, é: “leve um copo de água para um catador”.
SOBRE A FLINC
O Espírito Santo sediará pela primeira vez uma Festa Literária Internacional. Com mais de 60 convidados e 30 atividades programadas, a 1ª edição da Festa Literária Internacional Capixaba (Flinc) acontecerá entre os dias 10 e 12 de outubro, no Parque Cultural Casa do Governador, em Vila Velha.
O evento será totalmente gratuito e promete ser um ponto de encontro singular para amantes da literatura e da cultura. Além do Padre Júlio Lancellotti, nomes como Pepetela, Suely Bispo e Geni Nuñez também farão parte da programação do evento.
A Flinc nasce com o propósito de fortalecer a cena artística capixaba, atualmente em plena expansão. Idealizada e curada pela doutora em Literatura Isabella Baltazar, o festival tem o objetivo de criar um espaço de celebração, reflexão e diversidade.