Maturidade é a palavra que Paolla Oliveira usa para definir o novo momento de sua carreira. Após interpretar Heleninha Roitman no remake de "Vale Tudo", da TV Globo, a atriz deixa as novelas e se arrisca no cinema com o terror nacional "Herança de Narcisa", que está em cartaz em São Paulo.
"Tem lugares que a gente só consegue chegar se tiver tempo e experiências. A maturidade traz algo muito bom e libertador, o poder de escolha", diz.
Estreando no gênero do terror, ela interpreta Ana, mulher enlutada pela morte da mãe, uma ex-vedete de Carnaval. Ao receber a casa em que cresceu como herança, a relação das duas volta a assombrá-la. Narcisa era festeira, vaidosa e carismática, sempre com um laço de fita vermelha. Ana é reservada, misteriosa e modesta.
Na trama, Paolla está em um papel duplo: encarna Ana e Narcisa, dando rosto e corpo aos conflitos das duas. Consagrada na teledramaturgia com mais de dez novelas no currículo, ela sai da zona de conforto pela autonomia que a atual fase profissional lhe permite.
"Eu costumo dizer que vivi um tempo da minha carreira no modo sobrevivência, fazendo o que aparecia", afirma à reportagem. "As oportunidades não eram sobre escolhas, eram sobre tê-las e não deixar passar."
O roteiro de "Herança de Narcisa" surgiu de experiências pessoais da diretora Clarissa Appelt, que voltou a morar com a mãe durante a pandemia de Covid-19. Com a mudança e a perda da avó, transformou a experiência em elementos da ficção.
No filme, uma casa mal-assombrada, com objetos que caem sozinhos, transmite a angústia emocional da protagonista como algo palpável.
"Uma forma de exorcismo das questões que eu precisava superar para poder estar em paz", afirma a diretora. Appelt escreveu o primeiro esboço da história em 15 dias e adaptou o material junto ao diretor e roteirista Daniel Dias.
O resultado é um longa que mescla drama e horror, o que a cineasta chama de terror-terapia. "A gente quer investigar esse terror para ajudar pessoas a enfrentar medos, e não só para assustar", diz Appelt.
A produção foi escolhida como melhor longa-metragem pelo voto popular na mostra Novos Rumos do Festival do Rio em 2025.
Assim como os realizadores buscam romper com algumas convenções do cinema de terror para o público brasileiro, Paolla Oliveira também embarcou na ideia para expandir a visão que a audiência tem de seu trabalho.
"As pessoas tendem a colocar algumas travas na gente. A trava que está sempre me acompanhando em algum lugar é a da vaidade, no âmbito da beleza e da estética", afirma. "E eu venho ao longo do caminho dizendo que a vida não é sobre isso."
Escolheu dar vida à Ana justamente porque ela é uma mulher desprovida de vaidade e que se distancia da influência da mãe, uma figura cuidadosa, mas movida pela aparência.
"Isso foi algo que me chamou a atenção: como eu vou conseguir captar o meu público -ou o público que me percebe ou que me restringe- nesse filme?" O desafio a atraiu. "É uma história dramática, com a qual a gente quer se identificar, mas em um gênero diferente. Os desafios vêm e eu vou me descobrindo ao longo do caminho."
Entre os próximos projetos da artista está "A Estranha na Cama", thriller erótico adaptado do livro homônimo de Raphael Montes sobre um casal em crise que decide abrir o casamento para salvar a relação. Além de Oliveira, Bella Campos e Emílio Dantas também estão no elenco. A produção é da Netflix e ainda não tem data de estreia confirmada.
Herança de Narcisa
Brasil, 2026. Dir.: Clarice Appelt e Daniel Dias. Com: Paolla Oliveira, Rosamaria Murtinho e Pedro Henrique Müller. 85 min. 14 anos.