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Joana Pellerano

Coentro: desejo e vingança

Impressionante como paulista odeia coentro e como as pessoas que amam coentro odeiam os paulistas por isso

Publicado em 27 de Novembro de 2023 às 14:16

Publicado em 

27 nov 2023 às 14:16
Joana Pellerano

Colunista

Joana Pellerano

joanapellerano@comidanacabeca.com

Coentro | Tempero verde
Coentro  Crédito: Bublikhaus/Freepik
Minha pesquisa do doutorado pediu várias conversas sobre comida com gente que se mudou de outros estados do Brasil para São Paulo, e o coentro, que era coadjuvante sem falas numa cena de multidão, roubou o papel do protagonista.
Impressionante como paulista odeia coentro e como as pessoas que amam coentro odeiam os paulistas por isso. É uma fronteira invisível da cidade, entre coentrófilos e coentrófobos. E a alfândega é impiedosa.
Na conversa com uma moça que vamos preservar chamando de Bárbara, ela compartilhou a indignação que sentia quando os turistas de São Paulo invadiram sua cidade litorânea, ouvindo música na areia e olhando feio para o coentro das receitas tradicionais.
Nos olhos, o ultraje de Hercule Poirot quando o chamam de francês e a sede de vingança de Liam Neeson quando sequestram sua filha filme atrás de filme.
Quando veio para São Paulo Bárbara trouxe na mala sonhos de uma vida mais justa e saudades dos quitutes acoentrados, que reproduzia apenas para os iniciados. Os locais sempre perguntavam, garfo em riste, se sua comida apetitosa continha a erva daninha. Não. Sem coentro. Como os paulistas gostam.
Um dia, uma amiga se apaixonou pelo patê de frango. O que tinha no patê tão gostoso? Bárbara não contou. Segredo de família. A amiga se esbaldou. O potinho voltou pra cozinha limpinho, com um pedacinho de miolo de pão que entregou a avidez daquela paixão.
O patê de frango era a melhor coisa que a amiga de Bárbara já tinha comido e ficou na sua lista de desejos nostálgicos. Quando o cardápio tinha peixe, ela queria o patê de frango. Se era macarrão, a única pena era a falta do patê de frango para acompanhar.
Bárbara não repetiu o preparo. "E aquele seu patê, Bárbara? Não vai fazer de novo? Me dá a receita!". Bárbara nega, diz que cansou do patê. Nunca revelou o segredo do coentro escondido. Tem medo de perder a amizade.
Mas, acima de tudo, sente-se vingada a cada elogio ao coentro secreto. A paulista se rendeu, se entregou, delirou no coentro e nem sabe. Nunca saberá. Liam Neeson ficaria tão orgulhoso!

Joana Pellerano

Joana Pellerano é professora e pesquisadora dos estudos da alimentação. Aqui, serve contos e crônicas para acompanhar bolo com café (ou a dupla favorita do seu estômago).

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