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Murilo Góes

"Desse lugar, eu não levo nem a poeira"

Não adianta sacudir os sapatos à Carlota Joaquina: a sabedoria dos decompositores já está empestada na lógica alimentar de quem torra o café fermentado no intestino de um jacu

Publicado em 27 de Março de 2024 às 06:00

Publicado em 

27 mar 2024 às 06:00
Murilo Góes

Colunista

Murilo Góes

m.goesmurilo@gmail.com

Isso porque os micro-organismos já foram reconhecidos como os primeiros moradores desse planeta inteiro - assim como serão também os últimos a acertar as contas de um vinho que já planejam avinagrar (para brindar nosso desaparecimento, provavelmente).
Há algum tempo venho analisando a importância que os fermentados ocupam na cultura alimentar - e também como diferentes povos historicamente deram um jeito de se embriagar com isso.
De vinhos diversos que já degustei em distintos países, fazendo escala no saquê, no soju, ou no mezcal, na tequila e no pisco - que alcoolizariam populações junto às cachaças das garrafadas com jurubeba ou das refrescantes caipirinhas - em algum lugar desse planeta a fermentação certamente já te fez feliz (talvez num tempo em que o queijo podia assumir sua lactose e o pão ainda não havia se divorciado do glúten).
A fermentação faz parte de todo o mundo e constitui os seres que nele viajam - além de borbulhar as ideias dos que curiosamente viajam, bebem, comem, debocham e escrevem.
Chucrutes, kimchis, kombuchas, kousos e maioneses cor neon estacionadas sem refrigeração na porta do estádio depois de um grande evento na cidade: é certo que cada povo transforma matérias orgânicas em apetite conforme desenvolve o seu paladar, numa espécie de darwinismo gastronômico, vamos dizer.
Kimchi | fermentação | alimento fermentado
Kimchi  Crédito: Shutterstock
Bactérias e fungos podem trazer resultados únicos e (verdadeiramente) alucinantes também ao sabor de alguns pratos. Dia desses, por exemplo, senti vontade de novamente degustar o Masato de Yuca, uma curiosa bebida peruana à base de mandioca fermentada, açúcar e água, muito popular, pela qual me apaixonei nas terras andinas nos idos de 2018.   
Em solos domésticos, vamos lembrar, há milênios fermentamos a mandioca em trocadilhos infames e em receitas à base de polvilhos, tucupi, puba ou carimã. Toda vez que rosno sobre isso, algumas caras azedam e outras apodrecem de preconceitos inconsistentes.
Mas não adianta sacudir os sapatos à Carlota Joaquina: a sabedoria dos decompositores já está empestada na lógica alimentar de quem torra o café fermentado no intestino de um jacu… o grão sai pela cloaca, o tiro vai pela culatra e acerta todos os olhos que essa Terra, literalmente, um dia ainda há de comer - com as poeiras e farelos microbiológicos deixados por você.

Murilo Góes

Gastrônomo e pesquisador das culinárias brasileiras que também cozinha umas palavras

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