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Refugiados e o clima

Iconha e Venezuela: quando duas crises mundiais se encontram no ES

O clima está dando sinais de colapso há alguns anos. E piora com a irresponsabilidade na urbanização das cidades no interior do Estado. O custo pago pelo meio ambiente retorna brutalmente para o ser humano

Publicado em 22 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

22 jan 2020 às 04:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

brunelavincenzi@hotmail.com

Centro de Iconha destruído Crédito: Luciana Pessanha Tavares
A princípio, pode parecer que o Acordo do Clima assinado em Paris em 2015, ratificado atualmente por 195 países do planeta, não tenha muito a ver com os efeitos das chuvas que as cidades do Sul do Estado do Espírito Santo vivenciam desde sexta-feira passada. Menos ainda, parece ter importância, em meio ao caos no Sul do Estado, falar da atual crise de refugiados venezuelanos que fugiram em massa para o Brasil.
Jogando as lentes do nosso microscópio social para Iconha, vemos que as duas crises mundiais mais relevantes para a continuidade da existência da vida humana na Terra se encontraram no Espírito Santo. Iconha é assolada por uma catástrofe ambiental desde sexta-feira passada, dia 17 de janeiro de 2020 – isso sabemos, mas o que poucos sabem é que vários moradores de Iconha decidiram ser solidários e abrigar cidadão venezuelanos portadores de visto humanitário ou solicitantes de refúgio, a fim de dar-lhes mais dignidade de vida.
Sem que muitos capixabas tenham se dado conta, há algum tempo os cidadãos de Iconha vinham recebendo em seu município famílias venezuelanas que, fugindo da crise econômica, social e política pela qual passa o país latino-americano, buscaram refúgio no Espírito Santo. A hospitalidade de Iconha e a solidariedade de seus moradores são grandiosas e agora precisam do apoio de todos e principalmente da Secretaria de Direitos Humanos do governo do Estado.
São cerca de 30 famílias venezuelanas que estão no meio do caos causado pelas chuvas e que agora precisam de documentos, mantimentos, água potável e, mais do que tudo, de apoio para um segundo recomeço que terão de iniciar. A maioria trabalhava no comércio local e, provavelmente, não retornarão aos seus postos de trabalho tão cedo.
Usando a terminologia de Milton Santos, o grande geógrafo brasileiro, o global se encontra no local em Iconha. As duas grandes crises que assolam o planeta na atualidades estão representadas em Iconha nestes últimos dias: a crise do clima e a da migração humana.
O clima está dando sinais de colapso há alguns anos, mesmo assim a humanidade – com exceção de poucos – não quer alterar a sua rotina diária de conforto com o uso abusivo de formas de energia não-renováveis, alimentos desperdiçados em excesso e imprevidência no descarte do lixo.
Da mesma forma, a irresponsabilidade na urbanização das cidades no interior do Espírito Santo, com o boom empreendedorista, a exploração imobiliária sem planejamento urbano sustentável e a construção impensada de estradas de rodagem, autorizadas por licitações estatais sem a correta ponderação de efeitos ambientais, potencializaram os efeitos das mudanças climáticas por aqui.
Cursos de rios foram alterados, o meio ambiente dos locais por onde passam estradas e construções novas foi alterado sem tentativa de minimização dos danos ao meio ambiente, e hoje, as cidades, seus habitantes e seus hóspedes venezuelanos sofrem. No máximo, desde sexta-feira passada, dia 17 de janeiro, sabemos que o empreendedorismo não deve ser idolatrado e almejado a qualquer custo. O custo pago pelo meio ambiente retorna brutalmente para o ser humano, tornando a vida no planeta cada vez mais difícil.
A ganância de construtoras, empreiteiras e políticos que se preocupam somente em inaugurar obras já está mostrando seus efeitos perversos aqui no Espírito Santo; é hora de pôr a mão na consciência e mudar a estratégia de desenvolvimento das cidades. A fórmula das cidades sustentáveis pode ser uma meta a ser alcançada pelos gestores dos municípios no nosso estado.
Não é à toa que os países membros da ONU vêm há anos negociando um acordo para o estabelecimento de metas para os países reduzirem as emissões de gases de efeito estufa. E não nos esqueçamos, as mudanças climáticas e as catástrofes ambientais são, depois dos conflitos armados, a principal causa da migração em massa no planeta.
Temos como principal exemplo disso, aqui nas Américas, o Haiti, que desde o terremoto que assolou o país em 2010, não tem mais condições de abrigar dignamente toda a sua população em seu território.
Assim é que o objetivo primordial do Acordo de Paris é reduzir a emissão de gases de efeito estufa a níveis anteriores à Revolução Industrial e reduzir a temperatura do planeta em 2 graus celsius. Esse não é o acordo mais perfeito, mas se o Brasil cumprir o mínimo prometido: que é a redução da emissão de gases de efeito estufa em um nível de 37% dos níveis de 2005 até 2025; e aumentar a participação de biocombustíveis em 18% até 2030 na sua matriz energética; já teremos motivos para nos alegrar.
Certamente há questões políticas e financeiras envolvidas no Acordo do Clima, mas o que importa para o ponto aqui analisado é o compromisso assumido pelos países, inclusive o Brasil, para a redução de 2% da temperatura mundial por um lado; e por outro, a crise humanitária que já tem mais de 70 milhões de pessoas forçadas a sair de suas casas em razão da violência e, também, de catástrofes ambientais causadas pelas mudanças climáticas que o acordo pretende reduzir e minimizar.
Portanto, é necessário agir imediatamente, seja por uma questão de sobrevivência, seja por uma questão de humanidade: a crise do clima e a de refugiados atingirá de uma forma ou de outra todos nós em nossos microcosmos, como ocorreu na cidade de Iconha.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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