Indústria de rochas ornamentais pode retroceder sem inovação
Economia
Indústria de rochas ornamentais pode retroceder sem inovação
Portugal foi um dos maiores produtores da indústria de rochas, mas não investiu em inovação e atualmente o setor passa por um desmonte. Esse declínio evidencia a urgência das transformações a serem feitas na indústria capixaba
Publicado em 07 de Fevereiro de 2020 às 04:00
Públicado em
07 fev 2020 às 04:00
Colunista
Aldren Vernersbach
aldren.vernersbach@gmail.com
Setor de rochas: necessidade de inovaçãoCrédito: Sindirochas/Divulgação
Apesar das rochas ornamentais serem um recurso natural próprio do ES, a sua industrialização, lhes agregando utilidade e valor, pode ser realizada em qualquer país onde esta indústria existe e se faz inovadora. Dessa forma, a concorrência do setor ocorre a nível global e atualmente está ainda mais elevada.
A nova revolução industrial/tecnológica corresponde a fusão das tecnologias digitais às atividades de inúmeros setores econômicos, lhes permitindo maior eficiência via automação e utilização de inteligência artificial, proporcionando a redução de incertezas, riscos e custos. Esse acoplamento tecnológico está ocorrendo na indústria de rochas ornamentais e redefinindo o padrão concorrencial do setor.
"A concorrência é constante, a sobrevivência das empresas mais competitivas é a regra e a inovação é o que determina qual empresa permanecerá existindo no mercado"
Aldren Vernersbach - Economista
Em Portugal, onde havia uma indústria de rochas em crescimento, agora ocorre uma crise setorial. Entre os anos de 2008 e 2012, o país viu desaparecer 158 empresas de lavra (extração) e 427 empresas do segmento de beneficiamento de rochas. Empregos desapareceram e os governos das regiões extrativistas do país perderam receita.
O setor não conseguiu competir globalmente e toda a cadeia produtiva está sendo reduzida, restando ainda a atividade de extração das rochas, que também enfrenta uma elevada concorrência global.
A crise sistêmica do setor em Portugal é resultado da manutenção das mesmas práticas industriais, com diminuta fabricação de produtos acabados e sem gerar inovação. O país observa toda uma cadeia produtiva retroceder a um mero setor exportador de rochas brutas extraídas de suas terras, tendo ainda que competir com a extração em expansão em outros países. Esse desmonte do setor em Portugal ocorre com velocidade alarmante, mas previsível, de acordo com o avanço das tecnologias digitais e sua fusão com a indústria, dentro do processo concorrencial global.
Um dos maiores concorrentes é a China, que extrai rochas em seu próprio território e compra blocos brutos de outros países para beneficiá-los. As empresas chinesas realizam a posterior exportação de produtos acabados e a execução de obras completas – utilizando tecnologias digitais avançadas – oferecendo as rochas e os serviços para a sua modelagem em projetos em todo o mundo.
Atualmente, a China é a maior produtora de rochas ornamentais, com participação setorial próxima de 32,2%. O Brasil está em quinto, com ligeiras quedas na sua participação setorial (5,4%). Além da China, a Índia e a Turquia avançam no setor, extraindo blocos e beneficiando rochas compradas de outros territórios do mundo, ou seja, a ampla e forte concorrência global é no segmento de extração e no de beneficiamento, com os produtos acabados e serviços especializados. Importante ressaltar que existe ainda a concorrência das rochas ornamentais com os produtos sintéticos e outros tipos de revestimento.
O declínio da indústria portuguesa de rochas evidencia a urgência das transformações a serem feitas na indústria capixaba. O exemplo a não ser seguido existe e o risco é iminente. A China já é o segundo maior comprador de rochas brasileiras, majoritariamente blocos brutos, e sua participação no faturamento das exportações nacionais cresce, tendo saltado de 8,6% em 2015 para 12,3% em 2017.
Os chineses já se inseriram na “Quarta Fase” do setor, que corresponde à produção de produtos acabados e personalizados e à execução de obras completas, utilizando as tecnologias digitais que reduzem os custos de produção e aumentam a sua qualidade. Vale ressaltar que o Espírito Santo produz e exporta majoritariamente blocos e chapas, com irrisória produção de produtos acabados e oferta de serviços especializados para obras.
A concorrência é constante, a sobrevivência das empresas mais competitivas é a regra e a inovação é o que determina qual empresa permanecerá existindo no mercado. O setor de rochas ornamentais do ES é importante para a economia estadual, gera empregos e desenvolvimento descentralizado, correspondendo a 10% do PIB capixaba.
O seu declínio representaria a redução de receitas do Estado, diminuição de empregos e crise econômica em municípios onde existem as suas atividades. Logo, a sua existência e crescimento devem interessar a todo o Espírito Santo.
As empresas do setor devem se colocar a par das mudanças necessárias, criar planos de equiparação tecnológica e geração de inovação para conseguirem concorrer com os competidores internacionais, ou poderão voltar a ser apenas empresas que extraem blocos de mármore e granito. A indústria de rochas ornamentais, que sustenta parte da economia capixaba, corre riscos de retrocesso. A criação de um “plano de inovação setorial” e as ações singulares por parte das empresas são essenciais para o seu crescimento.
Aldren Vernersbach
A economia capixaba tem espaço aqui, com textos do economista, pesquisador e consultor, vinculado ao Instituto de Economia da UFRJ, membro do GEE, economista-membro da International Association for Energy Economics (IAEE) e do Institute for New Economic Thinking (INET)