“Avisa quando chegar”. Nós mulheres recebemos constantemente essa mensagem de preocupação ao sairmos sozinhas. Outra atividade comum nesses casos é o compartilhamento de rota ou dados de motorista de aplicativos como forma preventiva de municiar amigos e familiares com informações para, pelo menos, saber o que reportar às autoridades caso o pior aconteça. Aposto que a maioria das mulheres que está lendo já se viu nessa situação por diversas vezes. Mas isso não se restringe a casos em que estamos sozinhas com homens desconhecidos. O espaço público também nos assusta.
Certa vez, uma amiga postou a seguinte foto numa rede social: um corredor escuro na universidade federal, à noite, sem nenhuma pessoa passando. Atravessar esse corredor é, para tantas mulheres, motivo de frio na espinha e muito pensamento positivo para que, até chegar à sala de aula, tudo fique bem. Essa é a sensação que nós, mulheres, temos em tantos espaços públicos, seja a hora do dia de for. Mas não pense que essa sensação é “apenas” o medo de ser assaltada. Quem dera toda a nossa preocupação fosse com perda material.
Andar sozinha pela rua e me desesperar ao perceber que alguém está vindo atrás de mim me fez refletir sobre como devo me portar quando isso acontece com outra mulher. Passei então a ter mais cuidado e decidi fazer duas coisas: ou tomo alguma distância mais considerável ou busco dar sinais o mais rápido possível que é outra mulher que está andando atrás dela, para que, juntas, possamos enfrentar esse caminho. Não precisamos nem conversar. Na maioria das vezes, não a conheço. Mas só de saber que há uma outra mulher caminhando com você, nossa insegurança fica praticamente limitada à questão patrimonial.
Eu poderia dar tantos outros exemplos de situações que passo e que amigas relatam frequentemente sobre o medo de ser mulher nos espaços públicos. Vai desde voltar sozinha pra casa com transporte de aplicativo à escolha do local de aluguel de apartamento ou casa.
Não posso ser leviana e ignorar os dados oficiais de que a maioria dos crimes de estupro são praticados em casa ou em locais de confiança da mulher, por pessoas conhecidas. Não ignoro isso. O que trato aqui é do temor que muitas mulheres sentem ao enfrentarem sozinhas os espaços públicos e de como essa preocupação nos toma tempo e saúde mental e nos tira a liberdade. Há de ser feita muita coisa para mudar isso. Enquanto isso, nós vamos cuidando uma da outra.