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Marcelo Santos
"Quebrar acordo não é inteligente"
Na segunda parte de sua entrevista exclusiva à coluna, deputado e conselheiro de Erick Musso avalia que o presidente da Assembleia errou "no tempo" e "por insegurança" ao antecipar eleição da Mesa, agora cancelada. Por outro lado, acha que o governo Casagrande também cometeu "erro crasso" ao tirar Enivaldo dos Anjos da função de líder

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Publicado em 09 de Dezembro de 2019 às 20:37

Publicado em

09 dez 2019 às 20:37
Insegurança. Com essa palavra, o deputado estadual Marcelo Santos, um dos principais aliados e conselheiros políticos do presidente da Assembleia LegislativaErick Musso, define o que impulsionou Erick a realizar, no último dia 27, a eleição antecipada da Mesa Diretora que só tomaria posse no dia 1º de fevereiro de 2021. Segundo Marcelo, a decisão de realizar a eleição naquela manhã, considerada por ele um “erro crasso” na primeira parte da entrevista à coluna, foi tomada por conta própria pelo presidente da Assembleia, indo contra os conselhos dele mesmo. “Não teve dolo o erro do presidente. Foi um erro por conta de uma dúvida que ele tinha com relação ao futuro da própria Casa e ao futuro inclusive dele.”
Como reforça Marcelo, a eleição feita daquela maneira representou uma quebra de compromisso de Erick com o governador Renato Casagrande. Na noite da véspera, os chefes dos dois Poderes se reuniram no Palácio Anchieta, conversaram sobre o assunto e chegaram a duas opções de data, em 2020, para a eleição da Mesa: agosto, como queria Casagrande, ou fevereiro, como preferia Erick. “Quebrar acordo não é inteligente. E, no caso do Erick, foi uma decisão pela insegurança dele.”
Ao mesmo tempo em que não poupa Erick, Marcelo faz um desagravo ao deputado Enivaldo dos Anjos - que, assim como ele, é conselheiro do presidente e acompanhou de perto cada lance desta trama nos bastidores. Três dias após a eleição que surpreendeu o Palácio Anchieta, Enivaldo foi destituído da função de líder do governo. Para Marcelo, nesse caso, o “erro crasso” partiu do Executivo. “Naquele momento ali cometeram um erro crasso com o deputado Enivaldo, porque é um defensor intransigente do governo. Enivaldo pode ter todos os defeitos, mas ele não masca com a palavra dele.”
Apesar de tudo, Marcelo rechaça qualquer analogia com estratagemas políticos que marcaram a Era Gratz - para ele, um terceiro erro. “Quando vejo a comparação do Erick a eras tenebrosas, acho que isso é um erro também com ele, porque o Erick não é um cara do mal, o Erick é um progressista, o Erick não tem processo que teve desvio de recurso… O Erick é um cara do bem.”
Na última quarta-feira (4), Erick e os demais membros da chapa eleita voltaram atrás e renunciaram à eleição, após reunião no gabinete da presidência. O ato de anulação do pleito foi publicado nesta segunda-feira (9). Marcelo também revela detalhes de bastidores dessa reviravolta. Confira a segunda e última parte da entrevista do deputado:

Na última quarta-feira (4), os deputados se reuniram no gabinete do presidente Erick Musso e decidiram que a chapa eleita no dia 27 para comandar a Mesa a partir de 2021 faria uma renúncia coletiva. Como exatamente essa renúncia foi decidida? O que foi que o presidente falou para os demais?

No começo da reunião, ele fez uma avaliação do ambiente, das ações judiciais de colegas, dizendo que respeitava inclusive as manifestações deles, o ingresso deles na Justiça, questionando por exemplo a PEC, o resultado da eleição. E disse que a decisão dele seria aquilo que a maioria entendesse. E me passou a palavra, como decano. E eu disse que não se tratava disso: “Acho que nós deveríamos fazer uma reavaliação com relação à atitude que foi tomada e que vai muito além de uma questão interna corporis”. Não entrei no mérito nem cheguei a contar da reunião que tivemos com o governador na terça-feira [26, véspera da eleição da Mesa] e muito menos do compromisso verbal com o governador. E aí todo mundo falou. Eu e alguns deputados descemos para abrir a CPI da Sonegação e voltamos. E aí todo mundo havia se manifestado, alguns favoráveis a manter aquilo ali, sem citar nomes e tal. Foi quando ele [Erick] finalizou e me deu a palavra novamente para que eu pudesse concluir. Foi quando eu disse para todos eles: “Já que o Erick me deu a palavra, quero dizer o seguinte: não se trata de ações ingressadas no Judiciário federal e estadual, questionando a PEC, questionando a comissão especial e questionando a eleição. Trata-se de que nós havíamos firmado um compromisso com o governador de que nós tínhamos duas possibilidades [de data para realizar essa eleição]: fevereiro ou agosto. E que nós estaríamos nesta mesma sala discutindo essas possibilidades na sexta-feira [29], o que não aconteceu”. E eu disse a eles que não estava tolerando isso, até porque não é de mim o princípio de se comprometer e descumprir. Isso estava me tirando o sono. Ou seja, na política, o que você se compromete você precisa entregar.

Só deixando claro: a decisão coletiva de vocês não foi tomada em função de pressões ligadas a ações judiciais?

Olha, o caminho em princípio foi balizado pela proposta que eu fiz relatando a eles tudo aquilo que foi conversado por nós na terça-feira [26], eu, o Enivaldo, o Erick, o governador e o [secretário-chefe da Casa Civil,] Davi Diniz. E que nós precisaríamos recuar porque nós tínhamos um entendimento que, nesse caso, foi descumprido.

E o Erick decidiu em cima dessa sua fala final, deputado?

Decidiu. Decidiu.

E o que ele falou?

Aí, na verdade, todo mundo entendeu. Até porque, quando você toma uma decisão como aquela, e aí a nota do Erick [a “Carta ao Povo do Espírito Santo”] tem um percentual muito grande de validade, você quebra uma harmonia instituída desde 2003 entre os Poderes, preservando a independência, mas sempre garantindo a harmonia. Isso é voz de Paulo Hartung, isso é voz de Renato.

Quer dizer, na sua avaliação, o erro capital do Erick nesse movimento todo foi o de, talvez inadvertidamente, ter colocado em risco a mesma harmonia que ele prega, como voltou a afirmar nessa nota?

Não, não… Eu acho que o Erick tem um futuro muito grande. E volto a dizer para você: eu sou Assembleia. Então ele tem todo e integral apoio meu. E, naturalmente, vai ter o apoio do Enivaldo. Mas o Enivaldo, por exemplo, ao ser destituído do cargo de líder, por mais que ele tenha votado na chapa do Erick, ele foi, junto comigo, a pessoa que disse ao Erick que nós não deveríamos realizar a eleição naquela data porque nós tínhamos um acordo. Então, é claro que ninguém do governo estava ali naquele momento e, no calor daquele movimento, naturalmente a decisão [de destituir Enivaldo] havia de ser tomada para o governo marcar uma posição. Mas naquele momento ali cometeram um erro crasso com o deputado Enivaldo, porque é um defensor intransigente do governo. Enivaldo pode ter todos os defeitos, mas ele não masca com a palavra dele.

Então, para o senhor, o governador também errou nessa reação, no que toca especificamente à destituição de Enivaldo?

Mas ele errou por não saber o inteiro teor do que de fato aconteceu nos bastidores.

O senhor acha que o deputado Enivaldo foi injustiçado por isso?

Não. Ele foi injustiçado por aquilo que nós que estávamos na sala do Erick sabemos, não pelo que o governador hoje possa saber diante do que aconteceu de verdade.

Então o Enivaldo pagou por um erro que na verdade foi do presidente?

É, e vou dizer assim: não teve dolo o erro do presidente. Foi um erro por conta de uma dúvida que ele tinha com relação ao futuro da própria Casa e o futuro inclusive dele.

E a que o senhor atribui toda essa insegurança e essa precipitação demonstradas pelo Erick nesse episódio?

Eu acho que a insegurança dele se dá um pouquinho pelo tempo de Casa. Eu e o Enivaldo temos um tempo de Casa que nos dá a condição de enxergar talvez coisas que, nessa idade que o Erick tem, eu e ele também não enxergaríamos. E talvez cometêssemos o mesmo erro. Mas ele não nos ouviu. E acredito que a maior grandeza dele não é em ter errado. A grandeza dele é em ter aceitado a sugestão de que cancelar [a eleição da Mesa] poderia causar menos trauma a uma relação e, ao mesmo tempo, aos anseios da sociedade. A sociedade se manifestou. E eu não falo nem a sociedade representada pelos parlamentares, porque em alguma parte pode ter até movimentação política, mas me refiro à própria sociedade. Eu e o Enivaldo, a nossa movimentação foi por um acordo que nós presenciamos, de que havia duas propostas. Quebrar acordo não é inteligente. E, no caso do Erick, foi uma decisão pela insegurança dele de um futuro e talvez até por causa daquilo que ele está implementando na Casa, que nunca ganhou tantos prêmios como tem ganhado com o trabalho que o Erick faz. Então, quando vejo a comparação do Erick a eras tenebrosas, acho que isso é um erro também com ele, porque o Erick não é um cara do mal, o Erick é um progressista, o Erick não tem processo que teve desvio de recurso… O Erick é um cara do bem.

Mas, na sua opinião, esse tipo de comparações que circularam por aí durante todo esse tempo também pesou na decisão dele de recuar?

Eu acho que isso é uma soma de fatores. Eu acho que, num momento, despertou para ele e ele falou assim: “Caramba, como na música de Legião Urbana, ‘agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou’”. Ele errou no tempo.

E o governo, deputado? Há relatos, até de governistas, de que Casagrande ficou revoltado com o que ele também considerou uma quebra de acordo por parte do Erick e que, depois da eleição da Mesa no dia 27, o Palácio Anchieta fez pressões muito fortes sobre os deputados, principalmente os da base, para reverter essa eleição antecipada. O que o senhor pode me relatar sobre essa reação do governo nos bastidores? Como foi que o governo pressionou, exatamente?

Você fala depois da eleição ou durante?

Durante também, mas principalmente nos dias seguintes. O governo chegou a ameaçar tirar cargos de deputados e esse tipo de coisa

Não, não, isso não… Primeiro que eu acredito no governo Casagrande. Tenho dito que um governo estritamente político não adotaria medidas como a criação de um Fundo Soberano e de um Fundo de Infraestrutura que ultrapassam o limite do mandato dele. Então acredito no governo Casagrande, acredito na boa fé dele e na sensibilidade dele. Agora, é claro que, quando você tem um compromisso de uma data específica e ela é alterada, naturalmente você perde o chão. Agora, nenhuma atitude esdrúxula e destemperada foi tomada por ele, como mudar, por exemplo, o investimento do governo em uma cidade, que era a solicitação de um parlamentar, até porque essa não é a índole de Renato Casagrande.

Como assim, deputado? Que caso específico foi esse?

Não.Não aconteceu.

Mas foi pedido?

Como?

Mas foi pedido? Um deputado pediu ao governador para fazer menos investimentos na cidade X em retaliação?

Não, não foi pedido não. Naturalmente, pode ter acontecido que alguém possa ter falado sobre isso… Nessa hora, entra heaven and hell: o paraíso e o inferno. Então naturalmente entram aqueles que querem apagar o fogo com extintor e alguns com gasolina. Mas Renato tem uma sapiência de entender que o jogo da política é esse. Ele já passou por vários níveis de governo e sabe o que é essa lógica. Então ele teve um equilíbrio danado de não ser influenciado. Ele não mudou nada no caminho que estava seguindo. Então isso é legal. E eu acredito que, mesmo diante desses problemas todos, Erick e Renato Casagrande vão se sentar nos próximos dias e ajustar os ponteiros em prol do desenvolvimento econômico do Estado. Acredito que qualquer erro que possa ter sido cometido ou interpretado por ambas as partes será corrigido ao longo do curso. Considero que a relação entre um governo e a Assembleia é como um caminhão carregado numa estrada que não pode parar e que a carga pode ter pendido para um lado. O caminhão tem que estar na estrada e balançar um pouquinho para essa carga se ajustar e a gente seguir. Quem não pode pagar a conta é o povo do Espírito Santo.

Daqui para a frente, o senhor seguirá pertencendo à base do governo?

Com certeza, até porque não tenho motivo algum para não pertencer.

E quanto à emenda? O senhor mesmo frisou: a decisão de vocês no caso da renúncia diz respeito unicamente à eleição da chapa no último dia 27. Mas o texto da emenda segue em vigor e, enquanto estiver vigente, nada impede que outra eleição surpresa seja convocada neste fim de ano, por exemplo, ou a qualquer momento. O senhor acha que essa emenda deve ser revogada?

Mesmo o governador tendo dito num primeiro momento que não concordava com a PEC, ele disse, nessa reunião de terça-feira à noite (26), que a eleição da próxima Mesa poderia ser feita em agosto, conforme a proposta dele, ou em fevereiro, conforme a proposta do Erick. Ou seja, há uma aquiescência de partes. Então eu acho que isso deve ser uma conversa muito grande e responsável entre os dois. Por mais que existam ações ingressadas no Judiciário, não há nenhuma ilegalidade na proposta da emenda. Então acho que isso deve ser conversado. Depois dessa decisão tomada por todos os deputados, do recuo com a aquiescência de todos nós, acho que nenhum de nós vai querer antecipar uma eleição sem fazer algo combinado, mas sim algo que não crie problema para a sociedade civil organizada, que não crie nenhuma fratura ou fissura entre a composição os Poderes. Então acho que agora o sinal de alerta já foi dado.

Por fim eu lhe faço uma pergunta me colocando no lugar do cidadão que está tentando entender tudo isso e principalmente o porquê de tudo isso: pela maneira como tudo foi feito, principalmente a enorme pressa e a enorme antecedência da eleição, todo esse movimento parece carregar uma marca muito forte de casuísmo, de ação em interesse próprio do grupo atualmente no poder na Assembleia, no qual o senhor se inclui. Parece que o grupo só fez tudo isso para garantir a permanência no poder internamente até 2023. O senhor concorda com isso?

Não. O que quero dizer é que talvez o tempo é que foi errado. Agora, o que o grupo entende é que não dá mais para fazer uma Assembleia onde a decisão seja meramente de um único parlamentar. Hoje a gestão em tese é compartilhada, tirando essa decisão que acho que foi equivocada, mas ela é compartilhada. As ações são muito proativas. A Assembleia propôs várias ações seguindo a tendência mundial do mundo moderno, de ações tecnológicas, muito inteligentes e antenadas. Então não é um casuísmo. A gente não deve só olhar a versão de Chapeuzinho. Nem sempre Chapeuzinho está certa. E se entrasse [na presidência] algum outro parlamentar que, ao invés de fazer uma Assembleia 100% digital, pudesse voltar de novo para o papel porque não consegue usar o WhatsApp? Se tirasse a Assembleia Cidadã, tirasse a emissão de carteiras de identidade, acabasse com a Procuradoria da Mulher, enfim, acabasse com todo esse programa que vem sendo feito? Então existiu também uma motivação para que nada disso pudesse ser alterado. Então, considerando os lados prós e contras, temos uma coisa muito legal com relação ao que estamos fazendo. O tempo é que foi errado.

O senhor acha que, em 2020, o Erick será reeleito para a presidência no biênio 2021-2023?

Ele tem um carinho muito especial de todos os parlamentares, inclusive deste que vos fala. O trabalho dele, a juventude dele, a sagacidade dele, isso nos motiva. E essa motivação tem nele uma figura que nos representa. Agora, cada eleição é uma eleição.

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