Não, não é fácil ser mulher em um país machista. Não é fácil ser negra em um país racista. Não é fácil lutar por justiça social em um país injusto e desigual. Um país onde os detentores de grandes fortunas encontram seus cúmplices entre os próprios pobres e oprimidos.
O tiro não foi dirigido apenas a Marielle, o tiro foi dirigido a cada mulher negra, que ousa estar em lugares onde a burguesia não a quer. Mulher negra não tem que estar na faculdade, não tem de fazer mestrado, não pode saber falar, não pode lutar por seu povo.
Marielle não usava o colete da pele branca, que permite fazer denúncias e continuar vivo. Ela era uma negra, e como canta de forma arrebatadora nossa querida Elza Soares : “A carne mais barata do mercado é a carne negra”.
No mês passado eu perguntava através de um artigo para este mesmo jornal: Quem pagaria a fatura de uma intervenção militar no Rio de Janeiro? Fui xingada, alguns disseram que eu estava de “mimimi”, porém quem tem a pele negra conhece por experiência o tamanho da violência contra nosso povo. Nenhum de nós está a salvo. Nenhum de nós, nenhum de nossos filhos, nenhum de nossos irmãos ou maridos. Nós, negros, nunca estamos a salvo de toda sorte de violência, não importa o lugar que ocupamos.
Para todas as pessoas de bem - sim, porque existem muitas -, o momento é de indignação por este crime político. Só que para nós, mulheres negras, esta é uma dor que dói mais forte, porque nós somos Marielles nesta vida.
Não conhecia Marielle, todavia lembrei através de sua história a minha própria. Lembrei das ameaças recebidas durante toda a minha vida de militante por defender crianças e adolescentes em situação de rua, prostitutas, marginalizados. Lembrei de minhas dificuldades para ocupar lugares onde não estava planejada a minha presença. Lembrei do racismo elaborado conquanto não menos violento do dia a dia que somos obrigadas a enfrentar.
Para todas as pessoas de bem - sim, porque existem muitas -, o momento é de indignação por este crime político. Só que para nós, mulheres negras, esta é uma dor que dói mais forte, porque nós somos Marielles nesta vida
Lembrei de tudo, porém acima de qualquer coisa, lembrei de nossa ancestralidade, das violências por ela sofrida, da luta de cada um que se foi para que pudéssemos estar aqui e seguir na luta. Para que pudéssemos dizer bem alto que estes tiros foram dirigidos não somente a Marielle, mas a todas mulheres negras e de luta do nosso país. Não nos calará, não impedirá jamais que continuemos na militância, de luto na luta.
Denunciando, sim, o extermínio de nossos jovens negros, a matança de nossas companheiras negras e as violências sofridas pelos nossos irmãos de cor. Não! Não é “mimimi”. É vida, vida que corre, sangue do nosso povo que escorre e que nos faz cada vez mais fortes. Não nos calaremos!
Marielle continuará a falar, suas ideias seguirão forte através de cada mulher negra neste país, de cada pessoa de bem. O crime foi contra os direitos humanos, contra a democracia. Ele ultrapassou todos os limites possíveis de violações e nós exigimos justiça, porque ninguém tirará esta esperança que é imortal de dentro de nós.
Chorei ontem, chorei hoje, emociono-me toda vez que vejo algo sobre Marielle, contudo me encho de orgulho por saber que seres humanos como ela existem. Seres humanos que não desistem e não morrem nunca. É mais uma heroína de nosso povo que será sempre lembrada por nós, de quem contaremos sua história para nossos filhos e filhas. Marielle é mais uma Dandara que morreu na frente da batalha para defender o povo negro, é a nossa Aqualtume que morreu queimada mesmo sendo idosa, é nossa Teresa de Benguela que foi presa por ser uma liderança, nossa Anástacia que foi obrigada a usar uma mordaça de ferro na boca e mesmo assim sua voz continuou sendo ouvida. Enfim, mais uma de nossas grandes guerreiras negras que existiram, que lutaram e que morreram na luta. Uma das guerreiras que inspirará para sempre nosso povo guerreiro.
Sua ousadia, sua força sempre nos inspirará. Cecília Meirelles estava certa quando disse que “Sempre que um justo grita, um carrasco vem calar”. Só que este carrasco não a calou, ao contrário, sua voz esta ecoando em todo Brasil, no mundo. Querida irmã preta, você está denunciando para o mundo o genocídio do povo negro e pobre do Brasil.
A pergunta que rasga agora nossas ouvidos é : Quantas vidas negras mais? A pergunta grita mas com a certeza de continuaremos na luta. Carrascos e tiros não nos calam. Marielle Presente!!
Jacyara Silva de Paiva*
* A autora é professora doutora da Ufes, advogada e presidente da Associação Brasileira de Pedagogia Social e Educação Social