Há algumas semanas, a decisão de um jovem casal tem sido pauta de algumas rodas de conversas em todo o mundo e movimentando a comunidade britânica. Refiro-me à mudança de rota que o casal Meghan Markle e Harry imprimiu em suas vidas ao anunciar o rompimento com a coroa britânica.
Harry é o filho real mais novo de Charles e Diana, e Meghan não é só uma jovem plebeia, mas uma mulher mestiça, forte, feminista, atriz e graduada em Relações Internacionais.
Meghan, juntamente com seu companheiro, decidiu romper com um modo de vida, cercado de protocolos e exageros, que já não cabe mais nos dias atuais. A jovem passou a integrar a família real inglesa há pouco mais de um ano, e agora, evocando seu direito de decidir, abre mão de regalias e títulos que insistem em mostrar ao mundo situações que distanciam as pessoas, quando classificam homens e mulheres, entre nobres e plebeus.
Os jornais de todo o mundo noticiaram que Meghan, durante o breve tempo que passou como integrante da família real, teria sido vítima de ataques, discriminações, racismos e preterimentos, que compõem uma gama robusta de motivações para se romper com um sistema que se revela opressor, afastando-se da realeza do ser.
Decidir romper com sistemas opressores é o desafio de milhares de pessoas que vivem hoje em situação de sofrimento, provocadas pelo mesmo estado de coisas que atingiu Meghan, guardada as devidas proporções. Decidir é um direito que acarreta consequências, mas inaugura a liberdade.
Hoje em dia, situações diversas atravessam a vida das pessoas no mundo inteiro, tais como, exploração, depressão, assédios e discriminação, para elencar algumas, e conduzem as pessoas a tomarem decisões, em alguns casos, drásticas e irreversíveis. Em muitas situações, as decisões não são tomadas por falta de condições ou informações, perpetuando o sofrimento e somatizando as doenças.
Meghan e Harry tinham as condições estruturais e conjunturais, confortáveis, para tomarem uma decisão que causou exagerada repercussão mundial, considerando o contexto em que o mundo vive hoje, com problemas bem mais graves e importantes do que “a crise da coroa britânica”.
Entrementes, a análise desse fato é interessante para compreendermos como uma decisão inesperada e impetuosa pode fazer com que as pessoas, principalmente as causadoras da opressão, repensem as práticas de poder, e, da mesma forma, se proponham a uma conversão de rota de como viver a vida e de como construir as relações com os outros.
Lembremo-nos que somente quem pode romper com a relação de opressão é o oprimido, como nos ensinou Paulo Freire, mas para isso, deverá ter as condições necessárias para incidir nas fissuras e provocar o rompimento nas relações que fazem sofrer.