Guardiã das árvores transforma pasto em floresta no Espírito Santo
Ricardo Medeiros
Atitude Sustentável
Guardiã das árvores transforma pasto em floresta no Espírito Santo
Há 25 anos, Dalva Ringuier abraçou a bonita missão de semear vida. De semente em semente, ela coloriu de verde uma área de 19 hectares em Dores do Rio Preto, na Região do Caparaó
Alberto Borém
Estagiário
abgoncalves@redegazeta.com.br
Publicado em 05 de Junho de 2022 às 02:00
Publicado em
05 jun 2022 às 02:00
Dalva Ringuie atua como educadora ambiental na região do Caparaó capixabaCrédito: Ricardo Medeiros | Arte Geraldo Neto
A missão de Dalva Ringuier é semear vida. Foi assim, de semente em semente, que ela ergueu uma floresta onde antes era pasto, em Dores do Rio Preto, na Região do Caparaó capixaba.
"Meu sonho sempre foi fazer um trabalho de preservação e recuperação de uma área. Em 1997, quando comprei essa terra, era tudo pasto e um pasto de qualidade ruim"
Dalva Ringuier - Ambientalista
Vinte e cinco anos depois, a propriedade de Dalva está totalmente transformada, repleta de espécies da Mata Atlântica. São ao todo 19 hectares de área, o equivalente a 190 mil m². E a maior parte é verde - a cor da vida que habita a Reserva Particular de Patrimônio Natural Águas do Caparaó.
Dalva conta que já adquiriu a terra, no Sul do Espírito Santo, com a ideia de reflorestar a área de pastagem e criar uma reserva intocável pelo homem. No local, ela também construiu uma pousada, cercada de mata e cachoeiras, que permite uma imersão na natureza.
Atualmente, 80% da propriedade é de Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN), uma certificação concedida pelo Estado. Isso significa que a área não pode ser alterada, com cortes de árvores ou novas construções, por exemplo. Mas são permitidas no local atividades de pesquisas científicas e visitações turísticas, recreativas e educacionais.
Assim, a terra continua sendo de domínio privado, mas contribui para a ampliação de áreas protegidas no país. "Ter uma RPPN é criar um compromisso com o meio ambiente, e eu fiz esse pacto", diz Dalva.
Plantio de mudas transformou propriedade que antes era pastoCrédito: Ricardo Medeiros
Dalva ressalta o quanto a Mata Atlântica foi sacrificada no passado com a extração de madeira e a derrubada de espécies nativas para plantação e criação de animais, sem consciência. "Tivemos o ciclo do café, da cana, do gado. Tudo isso contribuiu para a retirada da mata nativa. Não havia necessidade de chegarmos a esse ponto. Sou a favor da produção, mas desde que seja feita com critérios", pontua.
A guardiã das árvores avalia que a redução das fiscalizações e a falta conhecimento são as principais causas da degradação. Por isso defende iniciativas de educação ambiental em comunidades, escolas e grupos de proprietários de terra. "Vejo um retrocesso muito grande na renovação de políticas públicas. Praticamente não há mais fiscalização. O que pode salvar a natureza é trabalhar a consciência ambiental da população".
A Mata Atlântica, que originalmente ocupava praticamente 100% do território do Espírito Santo, atualmente representa 10,9% da área. De acordo com dados da SOS Mata Atlântica, no Brasil, há apenas 12,4% do bioma remanescente.
"É muito bonito falar de meio ambiente, vejo muita gente falando. Falar é fácil, o difícil é fazer, botar a mão na massa, ter essa paixão. O prazer que eu tenho quando eu toco em uma árvore que eu plantei lá atrás é maravilhoso. É uma esperança, uma renovação da vida"
Dalva Ringuier - Ambientalista
Dalva conta que, após os primeiros passos para o reflorestamento, a natureza seguiu seu curso. "Começamos a fazer o trabalho de introdução de espécies nativas da Mata Atlântica e fomos deixando também a própria natureza fazer o trabalho. As ações do vento, morcegos, aves e roedores colaboram com o plantio. Hoje a mata está em um nível de preservação bastante avançado", observa, acrescentando que ter uma propriedade ao lado do Parque do Caparaó é como contar com jardineiros voluntários.
A ambientalista fez questão de destacar a forte relação entre a mata e a água. Ela conta que, em momentos de seca no Estado, a floresta é a principal responsável por garantir água na propriedade. Os recursos hídricos são utilizados por hóspedes da pousada, pela família de Dalva e, em casos excepcionais, compartilhados com a comunidade.
Cachoeiras de águas cristalinas correm em meio à mataCrédito: Ricardo Medeiros
"A escassez de água afeta os moradores da cidade. Tem racionamento, aumento na conta de luz, aumento no custo da produção, aumento no gasto dos consumidores. As pessoas são altamente impactadas e não percebem. Por isso a importância da participação de todos na preservação da mata que faz brotar nascentes"
Ao olhar para o topo das árvores que um dia foram semeadas por ela, Dalva avalia que a missão está parcialmente cumprida, mas diz querer viver muito para enxergar a Mata Atlântica ocupar cada vez mais espaço no Espírito Santo, o espaço que um dia foi todo dela.
Dalva Ringuier: ambientalista de Dores do Rio Preto, na Região do Caparaó
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Atitude Sustentável
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