Meros: ES é berçário de peixe gigante do oceano ameaçado de extinção
Athila Bertoncini / Maíra Borgonha / Meros do Brasil
Risco de desaparecer
Meros: ES é berçário de peixe gigante do oceano ameaçado de extinção
O Espírito Santo é o maior e mais importante local de reprodução e de habitação de filhotes. Projeto capixaba é destaque na ONU. Conheça o “mistério da natureza" peculiar dessa espécie
Amanda Monteiro
Editora-adjunta
amalta@redegazeta.com.br
Publicado em 28 de Junho de 2022 às 10:45
Publicado em
28 jun 2022 às 10:45
Os meros são a maior espécie de garoupa do Oceano Atlântico e estão em risco de desaparecerCrédito: Athila Bertoncini / Maíra Borgonha / Meros do Brasil
Um gigante do mar, que pode chegar a quase três metros de comprimento e pesar mais de 400 quilos, mas totalmente vulnerável e criticamente ameaçado de desaparecer do oceano. Peixes ‘românticos’, seguem um ritual próprio de reprodução, buscam um lugar especial, na lua cheia, no verão. Levam mais tempo que os outros para atingir a maturidade sexual. São dotados de um “mistério da natureza”, que faz a fêmea virar macho. Assim são os meros.
O Espírito Santo é o maior e mais importante berçário a céu aberto de peixes meros (Epinephelus itajara) no Brasil. Esses bichos são a maior espécie de garoupa do Oceano Atlântico, mas a sobrepesca (captura predatória) e a poluição reduziram a população em mais de 80% nos últimos 65 anos.
Os meros são bioindicadores de situações ambientais, pois só vivem em locais de boa qualidade, ou seja, precisam de água limpa para viver. Também são importantes para controle de outras espécies menores, que podem se tornar pragas.
Em 2002, um grupo de cientistas criou o Projeto Meros do Brasil, com o objetivo de pesquisar e conservar a espécie, em parceria com o poder público. Pouco depois, em 2008, o Espírito Santo também passou a integrar o programa, no campus avançado de São Mateus, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
O professor Maurício Hostim, biólogo de peixes marinhos, é um dos idealizadores e fundadores do Meros do Brasil. Natural de Santa Catarina, ele veio para o Espírito Santo atraído pelos filhotes encontrados aqui no Norte do Estado.
“A região de Conceição da Barra é um local fantástico, tem manguezais com muitos meros juvenis, coisa que eu não encontrava em Santa Catarina, só encontrava os grandões. Isso foi um dos motivos de eu vir para o Espírito Santo. Em 2008, o projeto também começou a ter o estado como ponto focal. A gente hoje está em nove estados, e o Espírito Santo é um deles.”
A proximidade do campus de São Mateus com o manguezal de Conceição da Barra, município vizinho, foi fundamental para que essa parceria acontecesse. O professor explica que os meros filhotes crescem e se desenvolvem dentro do mangue porque lá ficam abrigados de predadores, as raízes formam uma proteção muito grande para eles.
O Espírito Santo é o único Estado onde é possível acompanhar os pesquisadores e ver os filhotes de meros ao vivo na natureza. Peixinhos com menos de 10 centímetros, que cabem na palma da mão, são analisados, medidos e acompanhados periodicamente.
Espírito Santo é referência na preservação de peixes merosCrédito: Athila Bertoncini / Maíra Borgonha / Meros do Brasil
Amostras de meros coletadas de forma não letal em todo o Brasil são analisadas no Espírito Santo, e as informações genéticas obtidas respondem questões fundamentais relacionadas à saúde das populações de meros do litoral brasileiro.
DO ES PARA O MUNDO: CONFERÊNCIA DOS OCEANOS NA ONU
Nesta semana, entre os dias 27 de junho e 1º de julho, líderes mundiais, organizações de proteção e conservação marinha e representantes da academia de todo o mundo estão reunidos em Portugal para debater sobre o presente e o futuro do nosso planeta, na Conferência dos Oceanos das Nações Unidas.
Várias instituições do mundo inteiro fizeram propostas para a ONU para ter um programa dentro do evento. O Meros do Brasil foi contemplado com duas iniciativas. A primeira delas é a criação de uma rede internacional de proteção.
Classificado atualmente como criticamente ameaçado no Brasil, e mundialmente como vulnerável, há ainda inúmeras lacunas de conhecimento sobre o mero em vários locais. Alguns estudos mostram o completo desaparecimento dessa espécie em algumas áreas onde eles viviam.
Nesta terça-feira, 28 de junho, o Meros do Brasil e instituições de diversos países se reúnem em um evento on-line e gratuito, com transmissão ao vivo entre 9h e 11h (horário de Brasília), para oficializar a criação da Rede de Conservação Meros do Atlântico.
"Vai envolver instituições do Brasil, das Américas do Norte, Central e Sul, e também da Europa e da África. Então vai ter representantes desses continentes falando sobre suas iniciativas de preservação. E nós do Espírito Santo, da Ufes, somos coparticipantes da organização do evento", explica Maurício Hostim.
Filhotes de meros são analisados, medidos e acompanhados periodicamente no ESCrédito: Athila Bertoncini / Maíra Borgonha / Meros do Brasil
Já na quarta-feira, dia 29, representando o Brasil, a Rede de Conservação da Biodiversidade Marinha (Rede Biomar) reúne os parceiros Meros do Brasil, Projetos Albatroz, Baleia Jubarte, Coral Vivo, Golfinho Rotador e Petrobras para apresentar as diretrizes de seu Planejamento Estratégico Integrado para a próxima década. A apresentação será feita em um evento online, transmitido ao vivo, entre 9h e 11h (horário de Brasília)
A Conferência dos Oceanos das Nações Unidas reunirá a comunidade internacional para debater questões críticas sobre a saúde dos oceanos, tais como: poluição marinha, conservação e restauração de ecossistemas, pesca sustentável e alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
“Esse evento é muito importante para chamar a atenção dos tomadores de decisão, os políticos em geral, de que os oceanos precisam ser cuidados porque dependemos imensamente dele, desde o equilíbrio térmico até a alimentação, para isso precisamos de um oceano limpo, com boa qualidade de vida. Queremos atrair mais pessoas a se envolver nessa luta da conservação marinha global”, afirma Maurício Hostim.
Projeto meros do Brasil protege espécie em risco de extinçãoCrédito: Marina Angeli / Meros do Brasil
PARTICIPAÇÃO DOS PESCADORES É NECESSÁRIA PARA O SUCESSO
O professor afirma que os projetos de conservação marinha só têm tido sucesso devido à participação dos pescadores, que são os primeiros colaboradores. Segundo Hostim, são eles que se colocam à disposição para ensinar os pesquisadores e apontar onde estão esses bichos.
“Fazemos um trabalho com os pescadores de Conceição da Barra, eles são coautores do projeto. Temos uma pescadora que acompanha a gente no barquinho. A gente fica de dois a três dias acampando no terreno dela, dentro do manguezal. Ela aponta onde estão os meros. Aí a gente coleta, mede, pesa, marca os exemplares para verificar se eles vão ficar ou abandonar o local, se estão crescendo, quanto cresceu, até qual tamanho eles ficam no manguezal… tudo isso é analisado por alunos de mestrado e doutorado, vira tema de teses.”
A pescadora citada é Juliete Lopes Clarindo, engajada em proteger os meros desde antes de conhecer o projeto. “A gente mora numa beira de rio, é mangue, um lugar onde os meros habitam”, conta.
Amostras de peixes meros coletadas de forma não letal no ESCrédito: Athila Bertoncini / Maíra Borgonha / Meros do Brasil
Os filhotes de mero costumam vir nos covos, equipamento que os pescadores usam para pescar siri. “Antes da gente conhecer o Projeto Meros do Brasil, a gente já soltava os filhotes de volta na água. Mas depois que passou a conhecer e ter essa parceria com eles, quando a gente captura, a gente liga pra eles. Os pesquisadores vêm, fazem o procedimento que precisam fazer com os meros, depois a gente faz a soltura novamente, para eles voltarem para o ambiente deles”, relata Juliete.
"Saber que estou ajudando a preservar a espécie, ajudando ao meio ambiente, é muito importante pra mim. Não tem preço poder ajudar uma espécie a viver, a se multiplicar e ver aquele momento lindo deles"
Juliete Lopes Clarindo - Pescadora
Desde 2002, a pesca de meros é proibida no Brasil por portaria do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), por ser uma espécie de reprodução lenta. Não pode capturar, nem transportar sem autorização do órgão ambiental competente. Os infratores estão sujeitos à detenção de um a três anos, multa, ou ambas as penas cumulativas (Lei nº 9.605 de 12/02/98 e Decreto nº 6.514 de 22/07/08).
O Espírito Santo tem condições bem favoráveis para a reprodução dos meros, principalmente em Conceição da Barra, com manguezais e ambientes de costões rochosos próximos um do outro. Isso possibilita que eles façam a agregação reprodutiva nos recifes — ou seja, machos e fêmeas se reúnem todos no mesmo lugar, em uma determinada época do verão, na lua cheia, para cortejar e se reproduzir.
Praia em Conceição da Barra: litoral da cidade é um dos pontos preferidos para momentos românticos dos merosCrédito: Mário Júnior/Arquivo A Gazeta
Depois que eles desovam, as larvas conseguem atingir rapidamente o manguezal para o desenvolvimento e crescimento dos filhotes. Ali eles ficarão até atingir tamanhos que permitam sair do mangue e não ser predado lá fora.
Tão grande, tão vulnerável
>> Os meros dependem de um ecossistema equilibrado e de um ambiente de qualidade para sobreviver, com mangue preservado e água limpa.
>> A espécie demora muito pra atingir maturidade sexual, leva quase 4 anos. Se for capturado antes disso, nem chegam a se reproduzir.
>> Quando atingem sua maturidade sexual, estão com aproximadamente 1 metro de comprimento.
>> Os meros fazem agregação reprodutiva, ou seja, os cardumes se reúnem todos no mesmo lugar para se reproduzir. Caçadores se aproveitam disso para capturar vários de uma vez.
FÊMEA VIRA MACHO
Existe um “mistério” da natureza peculiar nesta espécie. As pesquisas até agora mostram que todos os filhotes de meros nascem fêmeas, mas podem virar macho na fase adulta.
Maurício Hostim explica que existe uma inversão sexual na espécie, regulada pela própria natureza. Os meros adultos são estimulados hormonalmente, dependendo do que está “faltando” na natureza. A ova pode se transformar em testículo, produzir esperma e fecundar.
"Quando ainda não atingiram a primeira maturidade sexual, ainda estão fêmeas. Depois, podem continuar como fêmeas ou, se tiver poucos machos na população, algumas dessas fêmeas vão virar machos para manter a reprodução"
Maurício Hostim - Biólogo de peixes marinhos, fundador do Meros do Brasil e professor da Ufes
O biólogo ressalta a importância da preservação não só da espécie, mas da conservação do manguezal, dos ambientes recifais e dos costões rochosos. “Se houver algum desequilíbrio na natureza, por alguma razão qualquer, essa inversão sexual pode ser suspensa, colocando futuras gerações de meros em estresse total, comprometendo a reprodução desses peixes.”
Área de mangue em Conceição da BarraCrédito: Ilda Castro/Arquivo A Gazeta
ATIVIDADE PORTUÁRIA EM ARACRUZ PODE AJUDAR NA PRESERVAÇÃO
O professor Maurício Hostim afirma que existe um projeto em desenvolvimento com os portos de Aracruz, pois os meros são atraídos pelos trapiches da região.
“Nós estamos trabalhando atualmente na região de Aracruz, no Piraqueaçu, junto também aos portos da região, Jurong, Portocel e Imetame, que são locais que acabam atraindo os meros. Lá tem aqueles trapiches e os meros adoram esses locais, gostam de tocas e os trapiches viram tocas para eles”, explica.
Vista aérea de Portocel, em AracruzCrédito: Portocel/Divulgação
Como a pesca não é permitida na região dos portos, a área acaba sendo importante no processo de preservação da espécie. E para os portos também é importante saber que tem meros no local, porque são bons bioindicadores.
"Os meros precisam de água de qualidade, ambiente de boa qualidade para estar presente. Se tem mero em determinado local, a gente pode dizer que esse ambiente ainda está em condições boas de preservação"
Maurício Hostim - Biólogo de peixes marinhos, fundador do Meros do Brasil e professor da Ufes
Peixe mero está criticamente ameaçado de extinçãoCrédito: Documentário Itajara/Projeto Meros do Brasil / Maíra Borgonha
Características dos meros
>> Têm o corpo pintado, são robustos, rajados e cobertos com pequenas pintas pretas;
>> São a maior espécie de garoupa do Oceano Atlântico, podendo chegar a quase 3 metros de comprimento e pesar mais de 400 quilos, quando adultos;
>> Apesar de gigantes, são dóceis e tranquilos;
>> Nascem no mar aberto e se desenvolvem protegidos no manguezal, até crescerem o suficiente para voltar para o mar;
>> Atingem a maturidade depois de quatros anos, medindo cerca de um metro de comprimento.