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A piloto de combate com 'nervos de aço' que salvou a vida de 148 passageiros

A trajetória de obstáculos que a americana Tammie Jo Shults precisou superar para se sentar na cabine de comando de um caça a ajudou a evitar uma tragédia aérea

Publicado em 24 de Maio de 2026 às 20:32

BBC News Brasil

Publicado em 

24 mai 2026 às 20:32
Imagem BBC Brasil
Tammie Jo Shults foi uma das primeiras pilotos de caça da Marinha dos EUA Crédito: US Navy/PH2 Thomas P. Milne/Getty Images
Tammie Jo Shults sonhava em pilotar aviões de caça. Ela cresceu na década de 1960 em um rancho perto da Base Aérea Holloman, no Novo México (Estados Unidos), e adorava ver os aviões rugindo sobre o celeiro da família.
Voar parecia algo mágico para ela.
Ela trabalhava duro na fazenda e, aos nove anos, já dirigia um trator.
Seus pais não faziam distinção entre homens e mulheres na hora do trabalho e a incentivaram a encontrar uma carreira de que gostasse.
Então Shults disse à mãe: "Quero pilotar aviões de caça". A mãe respondeu: "Tammy, essas pessoas são muito inteligentes".
Foi o primeiro sinal para Shults de que o caminho para se tornar piloto não seria simples.

Os obstáculos

Em um dia de orientação profissional no ensino médio, ela foi à aula de aviação e o coronel responsável disse: "Este é um dia de orientação profissional, não de hobbies: você precisa encontrar algo que uma garota possa fazer".
Mesmo assim, Shults se sentou e, enquanto ouvia, seu entusiasmo aumentava.
"Foi empolgante até o fim. E percebi que... não tinha ouvido nada que estivesse além da compreensão da mente feminina", contou.
Ela saiu da aula mais determinada do que nunca a se tornar piloto militar.
Ao terminar a universidade, bateu à porta de um recrutador da Força Aérea. "Ele me ouviu. E então disse: 'Sinto muito, mas não recrutamos mulheres'", lembrou Shults.
Foi a primeira de muitas portas fechadas na sua cara.
Imagem BBC Brasil
Shults teve de suportar várias rejeições antes de conseguir assumir o comando de um avião de caça Crédito: Tammie Jo Shults
Ela decidiu tentar a sorte em outros ramos das Forças Armadas dos EUA que também operam aviões, incluindo o Exército — onde disseram que ela não se encaixava — e depois a Marinha, onde ao menos permitiram que ela fizesse o teste.
"O recrutador me disse: 'Sinto muito, você tirou uma nota alta o suficiente para um homem, mas não para uma mulher. Você precisa tirar uma nota mais alta se quiser ser piloto'", relatou Shults.
Ela voltou à universidade para cursar pós-graduação, mas sabia que precisava tentar mais uma vez.
Após concluir os estudos, em 1985, foi a outro escritório de recrutamento da Marinha e disse ao recrutador que não havia obtido nota suficientemente alta "para ser mulher" e que queria refazer a prova.
"E ele me disse: 'Do que você está falando? Não temos notas diferentes para homens e mulheres'. Então disse: 'Vou verificar sua nota'. E verificou. 'Sua nota está boa', garantiu."
Alguns meses depois, com a cabeça raspada, ela fazia flexões na Escola de Candidatos a Oficiais de Aviação, na Flórida.
Voar era tão mágico quanto Shults havia sonhado. Ela se qualificou como piloto e se tornou instrutora, especializando-se em "voos fora de controle".
Isso consistia em levar a aeronave a cerca de 9.140 metros de altitude e fazê-la entrar em parafuso. O aluno então tinha a responsabilidade de recuperar o controle; caso não conseuisse, Shults assumia os comandos.
Imagem BBC Brasil
As ações de Shults chamaram a atenção da mídia e renderam reconhecimento das autoridades em seu país Crédito: Disney General Entertainment Content via Getty Images
Tudo aquilo foi um excelente treinamento para o que viveria um dia, há oito anos, quando o motor de seu próprio avião de passageiros explodiu.
Naquele momento, ela já tinha uma carreira de uma década como piloto da Marinha dos EUA, período em que conheceu o marido. Na década de 1990, ambos deixaram a farda e formaram uma família.
Os dois encontraram trabalho como pilotos comerciais na companhia aérea americana Southwest Airlines.
Em 17 de abril de 2018, o voo 1380 estava abastecido para uma longa viagem entre La Guardia (Nova York) e Dallas (Texas). Todos os assentos estavam ocupados e, quando o avião atingiu 10.060 metros de altitude, Shults ouviu uma explosão.
A primeira coisa em que pensou foi que tinham sofrido uma colisão no ar.
"(O avião) deslizou lateralmente, inclinou-se abruptamente em mergulho e fez uma curva repentina para a esquerda", contou Shults.
Ela recuperou o controle da aeronave, mas ela começou a tremer com tanta intensidade que não conseguia ler os instrumentos.

Apelando aos instintos

A cabine se encheu de fumaça e ouviu-se um estrondo tão forte que Shults e seu primeiro oficial não conseguiam se escutar.
O que ela não sabia era que um pedaço de uma das pás do ventilador havia se soltado, penetrando no motor e provocando sua explosão. Só depois descobriu que a carenagem do motor havia ficado em pedaços.
"[Ela estava] aberta como uma banana, mas ainda presa à base da asa", relatou.
Uma das janelas foi atingida pelos destroços e cedeu, causando uma rápida perda de pressão na cabine.
"Nessa altitude, os seios da face não conseguem equalizar a pressão atmosférica tão rapidamente quanto a pressão do ar. Então dói muito", explicou Shults. Ela sentia dor das orelhas até o pescoço.
Apesar de tudo, seus instintos e seu treinamento prevaleceram. Assim, conseguiu seguir para o aeroporto mais próximo, o da Filadélfia.
"Lembro de pensar: 'Não tenho certeza de que vamos conseguir chegar à pista a tempo'. Isso me fez pensar que talvez fosse o dia em que encontraria meu criador", disse.
Imagem BBC Brasil
Shults conseguiu pousar um avião comercial que perdeu parte do motor no ar, salvando a vida de quase todos os passageiros e tripulantes Crédito: Getty Images
No entanto, nas gravações em que fala com os controladores aéreos, Shults soa tranquila.
"Sim, estamos sem uma parte do avião, então vamos precisar reduzir a velocidade", é possível ouvi-la dizer.
Depois, quando a pista apareceu à vista, ela pode ser ouvida sussurrando "Pai Celestial" no gravador da cabine.
O avião voava inclinado, com apenas um motor, e Shults havia passado da pista.
Ela precisou usar todos os recursos ao seu alcance para alinhar a aeronave e pousar sem problemas, salvando os 148 passageiros e tripulantes.
Uma passageira, Jennifer Riordan, ficou gravemente ferida quando a janela se rompeu e morreu posteriormente no hospital. É uma perda que Shults afirma que sempre sentirá.
Após o pouso, ela foi submetida a exames médicos.
"Você deve ter nervos de aço. Seu coração nem sequer está acelerado", disse o médico que a atendeu.
Como Shults explica sua serenidade sob pressão?
"Quando você está no comando, quando esperam que seja um líder, o certo é manter a calma e enfrentar os problemas", explicou.
É uma atitude forjada ao longo de uma carreira em que ela nunca perdeu a compostura nem desistiu.
Baseado em um episódio do programa Outlook, do Serviço Mundial da BBC.

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