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As pessoas que deixaram o Ocidente em busca do 'sonho russo' e se decepcionaram: 'Não é nenhuma utopia'

A BBC perguntou a ocidentais que se mudaram para a Rússia se a vida no país corresponde às expectativas.

Publicado em 12 de Julho de 2026 às 10:35

BBC News Brasil

Publicado em 

12 jul 2026 às 10:35
Imagem BBC Brasil
Ben mudou-se para a Rússia em 2023 com um visto familiar e diz que se sente mais seguro vivendo lá Crédito: Acervo pessoal
Quando se mudou do Texas, nos Estados Unidos, para a Rússia no fim de 2023, após receber asilo, Leo Hare estava convencido de que oferecia um futuro melhor para a família.
Pai de três filhos, ele mergulhou na nova vida: experimentou pelmeni (bolinhos recheados típicos da culinária russa), ordenhou cabras em uma fazenda e passou a publicar vídeos sobre o cotidiano no país para seus seguidores nas redes sociais.
Cristão devoto, Hare havia se tornado cada vez mais desiludido com diferentes aspectos da vida nos EUA, da polarização política aos alimentos geneticamente modificados e ao que considera o avanço do movimento LGBTQIA+.
Na época, ele acreditava que a Rússia oferecia uma alternativa atraente: uma sociedade baseada na fé cristã e nos valores familiares, uma imagem amplamente disseminada pelo governo russo.
Mas, com o passar do tempo, também passou a demonstrar preocupação com aspectos como as restrições ao acesso à informação.
Hare faz parte de um fluxo migratório improvável. Em meio ao isolamento internacional da Rússia, algumas milhares de pessoas de países como Canadá, Reino Unido, EUA e de diferentes partes da Europa decidiram se mudar para o país.
A visão que esse grupo tem da Rússia contrasta fortemente com aquela que é predominante no Ocidente: a de um país que invadiu a Ucrânia e ocupa grandes áreas de seu território, prende opositores políticos, impõe severas restrições às liberdades civis e é alvo de múltiplas sanções internacionais.
Muitos dos interessados em migrar para a Rússia são atraídos pelo visto de Valores Compartilhados, também conhecido como visto "anti-woke", criado um mês depois de Hare receber asilo.
Lançado pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, em 2024, o visto concede residência temporária por até três anos a cidadãos de 47 países que a Rússia considera "hostis".
Não há limite para o número de candidatos, e os solicitantes não precisam se submeter aos exames de língua russa, história e legislação normalmente exigidos.
Em vez disso, devem declarar que compartilham os valores espirituais e morais tradicionais defendidos pela Rússia e rejeitam o que o governo russo classifica como a "ideologia neoliberal destrutiva" de seus países de origem.
Ao fim dos três anos, quem obteve o visto de Valores Compartilhados precisa convertê-lo em uma autorização de residência permanente ou deixar o país.
Para obter a residência permanente, é necessário fazer provas de língua russa e história, além de apresentar uma documentação mais detalhada.
Ao contrário de alguns programas de imigração, o visto de Valores Compartilhados não prevê moradia nem auxílio financeiro por parte do governo russo.
Os candidatos precisam pagar uma taxa administrativa de 1,6 mil rublos (cerca de R$ 112) e passar por verificações de antecedentes criminais e exames médicos.
Imagem BBC Brasil
Leo Hare (à direita) durante a cerimônia em que recebeu asilo, exibida pela televisão estatal Crédito: Ministério do Interior da Rússia
Segundo o governo russo, quase 3,4 mil pessoas haviam solicitado o visto até o outono de 2026. Mas esses números são difíceis de verificar de forma independente e não informam quantos pedidos foram aprovados.
O programa faz parte de um esforço mais amplo do governo russo de apresentar o país como defensor dos valores tradicionais, em oposição ao que considera ser o declínio moral do Ocidente.
Em um decreto publicado em 2022, Putin afirmou que a influência ideológica do Ocidente ameaçava valores russos, como o casamento e a família tradicional, e defendeu que a Rússia promovesse uma imagem mais positiva de si mesma no exterior.
Dois anos depois, o visto de Valores Compartilhados passou a representar, na prática, essa estratégia.
Um ecossistema de agências de imigração e influenciadores nas redes sociais promove a Rússia como um lugar onde os valores familiares permanecem fortes e o cotidiano é mais seguro.
Ilja Belobragin, sócio-diretor da Move To Russia (Mude-se para a Rússia, em tradução livre), empresa que auxilia estrangeiros a se mudar para a Rússia, diz que uma frase recorrente entre seus clientes é: "Já não reconheço mais a comunidade ao meu redor".
Segundo Belobragin, alguns candidatos à mudança reclamam da alta imigração em seus países ou do que consideram uma queda no padrão de vida.
A guerra da Rússia contra a Ucrânia, que desde 2022 domina a percepção internacional sobre o país, não parece ser um fator decisivo para muitos dos que decidem se mudar para lá.
Alguns apoiam abertamente a Rússia. Outros afirmam que a decisão é motivada por valores culturais, e não por questões geopolíticas.
Imagem BBC Brasil
Depois de se mudar para Moscou, Philip Hutchinson passou a ajudar outras pessoas a se mudarem para a Rússia Crédito: Acervo pessoal
Philip Hutchinson, ex-candidato do Partido Conservador britânico que vive em Moscou e hoje ajuda outros ocidentais a se mudarem para a Rússia, diz que evita falar sobre a guerra.
"O que eu penso sobre isso? Olha, prefiro não me envolver nesse assunto", afirma Hutchinson. "Não estou aqui como político. Estou aqui para levar uma vida tranquila com minha família."
Questionado se ajudar os ocidentais a se mudarem para a Rússia por meio do visto de Valores Compartilhados é, por si só, um ato político, Hutchinson discorda.
"Orientamos muitas pessoas a solicitar o visto de Valores Compartilhados porque, neste momento, é a forma mais simples de conseguir residência permanente aqui. Ajudar pessoas a se mudarem para a Rússia não é um ato político."

Diferentes realidades

Após mudar-se para a Rússia, a família de Hare se tornou um dos exemplos mais conhecidos da migração de ocidentais para o país.
A cerimônia em que recebeu asilo foi registrada pela imprensa estatal russa, e Hare agradeceu publicamente ao presidente Putin por acolhê-los. Na época, acreditava estar ajudando a abrir caminho para o que descreve como "uma legislação de imigração sem precedentes".
Mas a realidade se mostrou mais difícil do que ele imaginava.
Poucas semanas após a chegada, Hare afirma que sua família foi vítima de um golpe de 5 milhões de rublos (cerca de R$ 385 mil), aplicado por uma pessoa em quem confiava. O prejuízo os deixou sem moradia.
Quando conversei com Hare, no início deste ano, ele vivia separado da mulher na cidade de Ivanovo, enquanto os filhos mais velhos haviam retornado aos EUA.
Questionado se a Rússia correspondeu às expectativas que tinha antes da mudança, Hare descreve os últimos dois anos como os melhores e os piores de sua vida.
Hare afirma ter conhecido diferentes realidades do país: trabalhou em um mosteiro da Igreja Ortodoxa Russa, morou em um apartamento em um edifício alto e, mais tarde, mudou-se para um pequeno apartamento da era soviética. Com o tempo, conseguiu trabalho como professor de inglês.
Ele continua falando com carinho dos cidadãos russos, que descreve como pessoas generosas e acolhedoras.
Hare elogia integrantes da comunidade de sua igreja, que ajudaram a família a sobreviver depois que perderam todas as economias, e lembra de uma mulher que recebeu seu filho mais novo em casa e lhe ensinou russo gratuitamente.
"Meu coração está cheio de amor por essas pessoas", afirma Hare.
Ao mesmo tempo, no entanto, Hare passou a demonstrar crescente preocupação com a situação da economia russa e com as restrições ao acesso à informação.
Hoje, Hare diz que está revendo o papel que desempenhou ao incentivar os ocidentais a migrarem para a Rússia. "Eu acreditei na propaganda", afirma. Hare admite que, no passado, era "o tipo de pessoa que teria escrito esse roteiro".
Embora diga que pretende permanecer na Rússia por considerar esse seu "destino", afirma sentir falta das liberdades que, segundo ele, moldaram a identidade dos americanos. "Na Rússia, esses valores ligados aos direitos humanos simplesmente não existem."
Imagem BBC Brasil
Ben não vê a Rússia como um paraíso conservador Crédito: Acervo pessoal
Outros ocidentais que se mudaram para a Rússia também questionam a forma como o visto de Valores Compartilhados vem sendo divulgado.
Ben, que pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome, deixou a cidade de Derby, no Reino Unido, e mudou-se para a Rússia em 2023, depois de se apaixonar por uma russa que conheceu em um site de intercâmbio de idiomas. O casal vive em Kursk, perto da fronteira com a Ucrânia.
A família de Ben achou que ele era "um pouco maluco" por se mudar para uma zona de guerra.
A visão de Ben sobre a Rússia é mais complexa do que a que seus apoiadores costumam retratar.
Ele elogia a cordialidade dos russos e diz se sentir mais seguro no dia a dia. Ao mesmo tempo, rejeita a ideia de que a Rússia seja uma espécie de paraíso conservador.
Como exemplos, cita a alta proporção de famílias chefiadas por apenas um dos pais, o aborto que, segundo ele, é "amplamente aceito", e as taxas de divórcio, que considera "extremamente altas". "A Rússia não é nenhuma utopia", afirma.
Ben se mudou para o país com um visto familiar, e não pelo programa de Valores Compartilhados. Ainda assim, em seu canal no YouTube, critica o que considera afirmações exageradas de alguns influenciadores ocidentais que apresentam a Rússia como uma alternativa perfeita ao Ocidente.
"Há pessoas que têm algum tipo de agenda que querem promover", diz.
Quase dois anos após o lançamento do visto de Valores Compartilhados, a experiência da Rússia de atrair imigrantes por afinidade ideológica continua em escala reduzida.
Embora o programa não tenha provocado uma grande onda de imigração "anti-woke", facilitou a mudança de alguns ocidentais que decidiram construir uma nova vida no país, por amor, fé ou simplesmente em busca de um novo rumo.

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