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Aulas de português e goleada contra o Panamá: o caminho de Ancelotti para tentar 'conquistar o Brasil'

Carlo Ancelotti precisou trazer tranquilidade à seleção e conquistar a torcida brasileira para tentar levar o país ao hexa em 2026.

Publicado em 01 de Junho de 2026 às 18:32

BBC News Brasil

Publicado em 

01 jun 2026 às 18:32
Imagem BBC Brasil
Carlo Ancelotti conquistou a Champions League cinco vezes como técnico Crédito: Getty Images
Carlo Ancelotti entrou em território desconhecido.
Ao longo da sua carreira de treinador, ele já havia trabalhado com 43 jogadores brasileiros. Mas o técnico italiano só havia estado uma vez na América do Sul, no início dos anos 2000, como caça-talentos para a Juventus de Turim.
Quando, após muitos encontros e desencontros, Ancelotti chegou a um acordo para ser o primeiro técnico estrangeiro da seleção brasileira em uma Copa do Mundo, ele sabia que precisava começar com o pé direito.
E foi o que ele fez.
Em uma das das suas primeiras reuniões no Rio de Janeiro, Ancelotti observou muitos funcionários brasileiros da CBF tentando conversar com ele em espanhol e até em italiano.
"Não, não", reagiu ele com um sorriso no rosto. "Sou eu que preciso me esforçar para falar português aqui."
O técnico de 66 anos sabia que os torcedores brasileiros têm orgulho da sua seleção e sempre se consideraram autossuficientes quando o assunto é futebol. E, para poder conquistá-los, fez o que precisava fazer.
Sua dedicação para aprender português foi tão grande que ele contratou um professor e se comprometeu a ter quatro aulas por semana.
"Fiquei surpreso com o seu esforço", comentou Roberto Piantino, que vem cuidando do português de Ancelotti.
"Lembro que, uma vez, terminamos uma aula na sexta-feira e, como de costume, perguntei quando ele queria ter a próxima", contou ele à BBC Sport.
"Ele respondeu: 'Amanhã.' Era sábado, mas eu disse: 'Claro, sem problemas.' Seria às nove horas da manhã em Vancouver", no Canadá, onde o técnico mora com a esposa.
"Isso aconteceu mais de uma vez. E me mostrou como ele levava o aprendizado a sério."
A goleada de 6x2 sobre o Panamá, no domingo (31/5), foi o penúltimo jogo da seleção antes da Copa do Mundo. E representou um grande incentivo.
Rayan marcou seu primeiro gol pela seleção nacional e Igor Thiago converteu um pênalti. Vinícius Jr., Casemiro, Lucas Paquetá e Danilo também deixaram sua marca.
Ancelotti precisará de todas as armas possíveis, incluindo o idioma português, considerando o tamanho do desafio que ele tem pela frente: evitar que a seleção brasileira estabeleça um recorde indesejado.
O Brasil ganhou a Copa do Mundo pela última vez em 2002 e, até hoje, nunca ficou seis edições do torneio sem erguer o troféu.
Existem fortes razões para que o ex-técnico do Chelsea e do Real Madrid seja considerado o homem certo para o cargo.
"Uma das coisas de que o Brasil mais precisava era de um técnico maior que os seus jogadores", defende o ex-jogador e comentarista esportivo Walter Casagrande. E Ancelotti preenche este requisito.
Seu recorde de cinco títulos da Champions League e suas conquistas em todas as cinco principais ligas nacionais europeias trazem um peso considerável, mesmo em um vestiário que conta com a presença de Neymar, Vinicius Jr., Raphinha e companhia.
Imagem BBC Brasil
Igor Thiago (esq.) comemora o quinto gol da seleção brasileira contra o Panamá, no último domingo (31/5) Crédito: Wagner Meier/Getty Images

O 'campeão mundial' da adaptação

A contratação de Ancelotti fez com que o Brasil confrontasse um dos maiores tabus da sua história futebolística: ver a seleção nacional liderada por um técnico estrangeiro.
E nem o currículo do técnico italiano evitou que, no início, houvesse resistência.
"Somos o único país que venceu a Copa do Mundo cinco vezes. Não é que nenhum estrangeiro nunca deva treinar a seleção, mas eu teria escolhido um técnico brasileiro", declarou Cafu, campeão em 1994 e 2002.
Durante o 2° Fórum Brasileiro dos Treinadores de Futebol, em novembro passado, foi impossível ignorar a tensão. Quando Ancelotti foi ao palco para ser homenageado, colegas locais criticaram a presença de técnicos estrangeiros no Brasil.
"Eu sempre disse que não gosto de treinadores estrangeiros no meu país e nós, treinadores, somos culpados por esta invasão", afirmou Émerson Leão, técnico e ex-goleiro, campeão mundial de 1970 como jogador.
O desconforto fez com que o filho e auxiliar técnico de Ancelotti, Davide, deixasse o evento logo em seguida.
Mas o tempo mostrou que aquele foi basicamente um episódio isolado durante o primeiro ano do técnico italiano no cargo.
Mesmo com resultados irregulares (seis vitórias, dois empates e três derrotas, nos seus 11 jogos iniciais), uma pesquisa recente do instituto de pesquisa Quaest concluiu que a maioria dos brasileiros confia no seu treinador.
Segundo a pesquisa, 41% aprovam e 29% desaprovam o trabalho de Ancelotti. E, com este apoio, a CBF agiu rapidamente e renovou seu contrato até 2030, antes mesmo que ele dirigisse o Brasil durante a Copa do Mundo.
Mas a decisão também foi um reflexo do que se pode considerar como a maior força de Ancelotti: sua capacidade de conseguir pessoas que o apoiem.
Fontes contaram à BBC Sport que o técnico recebeu a primeira versão do contrato no início de abril, mas esperou cerca de um mês para assinar. Isso porque ele queria que outros três funcionários da CBF — que, segundo ele, o ajudaram a se adaptar ao Brasil — também tivessem seus contratos renovados até 2030.
"Ele é um camaleão", afirma Leonardo, campeão do mundo em 1994. Ele trabalhou com Ancelotti no Milan e no Paris Saint Germain, como jogador e como dirigente.
"Aonde vai, ele se adapta às pessoas, à equipe, aos jogadores. Ele é campeão mundial neste aspecto. Se algum dia eu comprasse uma equipe, meu técnico seria Carlo. Não tenho outra opção."
"Ele entra em simbiose com o ambiente e isso já aconteceu aqui [no Brasil]. As pessoas gostam dele", afirma Leonardo.
Imagem BBC Brasil
'Temos dois dos cinco melhores jogadores do mundo', repete Ancelotti pelos corredores da sede da CBF: Vinicius Jr. (esq.) e Raphinha (dir.) Crédito: Pedro Vilela/Getty Images
Foram quatro anos caóticos. O presidente da CBF foi destituído do cargo por ordem judicial, a seleção teve quatro técnicos diferentes e o Brasil fez sua pior campanha na história das eliminatórias da Copa do Mundo.
Mas Ancelotti ainda acredita que pode trazer para a Copa do Mundo para o Brasil pela sexta vez.
"Temos dois dos cinco melhores jogadores do mundo", repete o treinador, nos corredores da sede da CBF. Ele se refere a Vinicius Jr., do Real Madri, e Raphinha, do Barcelona.
Mas aqui vem a parte mais difícil: fazer com que eles tenham na seleção o mesmo desempenho dos seus clubes. E, no ousado sistema tático 4-2-4 de Ancelotti, isso ainda não aconteceu.
A vitória de domingo no Maracanã foi apenas a terceira vez em que o técnico italiano contou com os dois jogando juntos.
As outras duas vezes foram em junho de 2025 (vitória de 1x0 sobre o Paraguai, nas eliminatórias) e em março deste ano (derrota para a França em jogo amistoso, por 2x1), quando Raphinha saiu no intervalo.
Com Rodrygo e Estêvão Willian machucados, será ainda mais importante fazer funcionar a parceria entre Raphinha e Vinicius Jr.
O entrosamento entre os dois pode estar ainda sendo trabalhado, mas Ancelotti já atingiu outro objetivo: ser ouvido pelos jogadores no vestiário.
"No jogo contra o Paraguai [em junho de 2025], nós precisávamos ganhar para ir para a Copa", conta Casemiro, do Manchester United, em entrevista ao ex-defensor inglês Rio Ferdinand.
"No intervalo, muitas pessoas estavam falando, falando, falando. Então, ele disse: 'Pessoal, esperem. Vou fumar um cigarro, volto em cinco minutos e, depois, vocês podem falar.'"
"Depois, ele voltou, falou e todos perceberam: 'OK. Este cara é diferente.'", conclui Casemiro.
Aquele foi um momento clássico de Ancelotti: calmo, simples e humano. Até suas aulas de português parecem refletir isso.
"Eu havia preparado uma lição sobre verbos no imperativo", relembra Piantino. Ele trabalha como professor de outros jogadores e técnicos de futebol, no Brasil e no exterior.
"O material estava pronto, com uma apresentação explicando como funciona o imperativo em português. Mas, assim que comecei, ele indicou: 'Não, não, não, eu não me comunico desta forma. Eu não uso imperativos. Não é meu estilo dar ordens assim.'"
Ancelotti estava no banco da Itália, como auxiliar técnico, quando o Brasil venceu a final da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos.
Agora, ele retorna ao lado do Brasil, esperando levar a seleção de volta ao topo — do seu jeito.

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