Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

  • Início
  • Mundo
  • Como Japão abandonou política pacifista e se opôs à China
Mundo

Como Japão abandonou política pacifista e se opôs à China

A primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi, primeira mulher a governar o país, se destaca pelos seus valores conservadores e por uma política externa linha-dura, que aumentou as tensões entre o Japão e a China.

Publicado em 25 de Abril de 2026 às 16:34

BBC News Brasil

Publicado em 

25 abr 2026 às 16:34
Imagem BBC Brasil
A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, cumprimenta o presidente chinês, Xi Jinping, em outubro de 2025 Crédito: Getty Images
A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, promoveu uma mudança histórica na política de defesa do Japão.
Ela acaba de flexibilizar as restrições à exportação de armas japonesas. A medida representa uma ruptura em relação às décadas de pacifismo do país, que se seguiram à Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Agora, o Japão poderá vender armamento letal em cinco categorias (resgate, transporte, alerta, vigilância e retirada de minas) para países com quem a nação asiática mantém acordos de defesa.
A primeira-ministra atribui a mudança à deterioração da segurança regional, em um ambiente de tensões com a China, Rússia e Coreia do Norte.
A China protestou veementemente contra a medida, acusando o Japão de abandonar o pacifismo e avançar rumo a uma "militarização imprudente".
Desde sua chegada ao poder, em outubro de 2025, Takaichi vem adotando uma postura mais firme em relação a Pequim.
Ela apoiou publicamente a possibilidade de reagir com as forças de autodefesa do país frente a um eventual ataque chinês a Taiwan e reforçou a cooperação militar com os Estados Unidos e os aliados regionais do Japão.
Estas medidas geraram um dos episódios de maior tensão com a China dos últimos anos, aprofundando as mudanças iniciadas no governo do primeiro-ministro conservador Shinzo Abe (2012-2020). Na ocasião, o Japão começou a reinterpretar sua Constituição pacifista para ampliar o papel militar do país no exterior.
Abe foi assassinado em 2022, aos 68 anos. Ele foi mentor e referência política de Sanae Takaichi.
A atual primeira-ministra japonesa é fora do comum, não apenas por enfrentar a China, nem por ser a primeira mulher no cargo em toda a história do país.
Fã declarada de heavy metal, ex-baterista e admiradora da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1925-2013), a governante de 65 anos vem se afastando dos padrões tradicionais da liderança japonesa.
Imagem BBC Brasil
Crédito: Getty Images

'A mulher mais poderosa do mundo'

Takaichi se tornou primeira-ministra no ano passado. Ela venceu a corrida pela liderança do Partido Liberal Democrata (PLD), governista.
No sistema japonês, a Dieta Nacional (o Parlamento do país) é quem elege o chefe de governo, mas o líder do partido majoritário costuma ocupar o cargo.
Meses depois, em fevereiro de 2006, Takaichi consolidou sua posição ao se impor nas eleições antecipadas, sendo novamente confirmada como chefe de governo pelos legisladores.
Foi naquela ocasião que a prestigiosa revista britânica The Economist a descreveu como "a mulher mais poderosa do mundo".
Adepta da ala mais conservadora do PLD, Takaichi é conhecida pelas suas posições conservadoras em temas como imigração, segurança nacional, valores tradicionais e políticas de gênero.
Ela chegou ao poder em um momento complexo para o Japão. A economia do país está paralisada, sua taxa de natalidade atinge mínimos históricos e o ambiente geopolítico no Extremo Oriente é cada vez mais tenso.
Além disso, seu partido atravessava um período de desgaste político, após vários escândalos e frente à concorrência de novas forças políticas conservadoras.
Imagem BBC Brasil
O Parlamento japonês 'reelegeu' formalmente Sanae Takaichi como primeira-ministra no dia 18 de fevereiro de 2026, após as eleições antecipadas Crédito: Getty Images

Do heavy metal para a política

Takaichi nasceu em 1961, em Yamatokoriyama, uma pequena cidade da província de Nara, a cerca de 400 km a sudoeste da capital japonesa, Tóquio.
Ela foi criada em uma família de classe média sem vínculos diretos com a política. Seu pai era funcionário de um escritório e sua mãe era policial.
Um dos dados mais curiosos sobre sua juventude é que ela tocou bateria em uma banda de heavy metal. A própria Takaichi contou que costumava levar muitas baquetas para os shows, porque ela as quebrava nos momentos mais intensos.
A primeira-ministra confessou que continua sendo admiradora de grupos como Iron Maiden e Deep Purple e ainda conserva uma bateria elétrica em casa.
Imagem BBC Brasil
Takaichi com o baterista da banda Deep Purple, Ian Paice, durante um encontro em Tóquio, no dia 10 de abril. Crédito: Getty Images
Takaichi também praticou mergulho e apreciava carros esportivos. Seu Toyota Supra chegou a virar peça de museu em Nara.
Antes de entrar na política, ela também trabalhou como apresentadora de TV por um breve período.
Seu interesse pela política surgiu nos anos 1980, durante um período de tensões comerciais entre o Japão e os Estados Unidos.
Para entender melhor como os americanos observavam o Japão, Takaichi trabalhou no escritório da congressista democrata americana Patricia Schroeder (1940-2023), conhecida pelas suas críticas à economia japonesa. Ali, ela observou como as culturas japonesa, chinesa e coreana são frequentemente confundidas nos Estados Unidos.
"Se o Japão não conseguir se defender, seu destino ficará sempre à mercê da superficial opinião americana", concluiu Takaichi, na época.
Imagem BBC Brasil
Crédito: Getty Images

Carreira política

Takaichi se candidatou pela primeira vez às eleições parlamentares como candidata independente em 1992, mas não se elegeu.
Após a derrota, ela tentou novamente no ano seguinte e conquistou uma cadeira.
Em 1996, ela entrou para o Partido Liberal Democrata. Desde então, foi eleita deputada 10 vezes, perdendo apenas uma eleição, e se consolidou como uma das vozes mais conservadoras dentro do partido.
Durante sua carreira, Takaichi ocupou vários cargos ministeriais, como o de ministra da Segurança Econômica, vice-ministra de Comércio e Indústria e ministra de Assuntos Internos e Comunicações.
Em 2021, ela disputou pela primeira vez a liderança do PLD, mas perdeu para Fumio Kishida, que seria primeiro-ministro até 2024.
Naquele ano, Takaichi tentou novamente. Ela venceu o primeiro turno da votação, mas acabou novamente derrotada, desta vez por Shigeru Ishiba, primeiro-ministro japonês entre 2024 e 2025.
Foi na sua terceira tentativa, em 2025, que ela passou a ser a primeira mulher a liderar o governo japonês.
Durante a campanha, Takaichi chegou a dizer para um grupo de estudantes: "Meu objetivo é me transformar na Dama de Ferro."
Era uma referência a Margaret Thatcher, a primeira mulher a governar o Reino Unido. Takaichi a menciona frequentemente como uma de suas figuras políticas de referência.

Conservadora em questões sociais

Imagem BBC Brasil
Takaichi defende posições alinhadas aos valores tradicionais japoneses Crédito: Getty Images
A eleição de Takaichi foi considerada um momento histórico, mas sua liderança também gerou debates no país.
Seu primeiro gabinete incluiu apenas duas mulheres entre os 22 ministros, levantando críticas de grupos que esperavam avanços mais ambiciosos, em termos de igualdade de gênero.
Takaichi também defende posições conservadoras sobre questões sociais. Ela se opôs a uma lei que permitiria às mulheres casadas manter o sobrenome de solteira, alegando que a medida romperia as tradições familiares.
A primeira-ministra também se manifestou contrária ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas, durante a campanha eleitoral, ela tentou projetar uma agenda mais ampla de políticas sociais.
Takaichi prometeu tornar os gastos com cuidados infantis parcialmente dedutíveis de impostos e oferecer incentivos fiscais às empresas que fornecem este tipo de serviço.
Ela explicou que suas propostas são fruto de experiências pessoais, cuidando de familiares.
"Em três ocasiões na minha vida, precisei cuidar de outras pessoas", declarou certa vez. Por isso, "tenho maior determinação para reduzir o número de pessoas que se veem obrigadas a deixar seu trabalho para cuidar de familiares ou criar seus filhos".

Sua consolidação política

Takaichi é considerada protegida política do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe. Ela prometeu dar continuidade ao seu enfoque econômico, conhecido como Abenomics, baseado em fortes gastos públicos, políticas monetárias expansivas e estímulos à economia.
Esta política, em parte, contrasta com a figura de Thatcher, defensora da redução do papel do Estado na economia.
Nos seus primeiros meses de governo, Takaichi anunciou um pacote de estímulo financeiro de cerca de 21,3 trilhões de ienes (cerca de US$ 134 bilhões, R$ 667 bilhões). O valor se destina a ajudar famílias e empresas, frente ao aumento do custo de vida.
Seu plano inclui investimentos em semicondutores, inteligência artificial e tecnologia estratégica, setores considerados essenciais no Japão para manter sua competitividade frente à China e aos Estados Unidos.
Imagem BBC Brasil
A economia japonesa atravessa anos de crescimento limitado e envelhecimento demográfico Crédito: Getty Images
Poucos meses depois de chegar ao poder, Takaichi decidiu reforçar sua posição política, convocando eleições antecipadas em fevereiro de 2026.
Esta foi uma aposta arriscada, mas bem sucedida. O PLD obteve uma clara vitória eleitoral, conquistando ampla maioria na Câmara Baixa e consolidando o controle do Parlamento.
Após o triunfo eleitoral, Takaichi foi mais uma vez confirmada como primeira-ministra e formou um segundo gabinete, mantendo vários aliados próximos e reforçando ministérios vinculados à segurança econômica, tecnologia e defesa.
A vitória nas eleições fortaleceu sua liderança dentro do partido e reduziu a pressão política enfrentada pela primeira-ministra, após sua chegada ao poder.
Um dos objetivos de Takaichi é revitalizar o seu partido, que domina a política japonesa desde a sua fundação, em 1955.
Nos últimos anos, o PLD perdeu a parte mais conservadora do seu eleitorado para o partido Sanseito, de extrema direita.

Sua visão internacional

Takaichi também se destacou por dedicar especial importância à política externa.
Em outubro de 2025, ela se reuniu no Japão com o presidente americano, Donald Trump. Os dois mandatários concordaram em ampliar a cooperação bilateral em setores estratégicos, como minerais críticos, energia e tecnologia avançada.
Takaichi e Trump voltaram a se reunir em Washington, em março de 2026, em meio à crise energética provocada pelas tensões no Oriente Médio e ao impacto sobre o transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz.
Eles debateram fórmulas para garantir a segurança das rotas internacionais de transporte de energia, já que o Japão mantém forte dependência do petróleo do Golfo.
O encontro também ficou marcado por uma incômoda brincadeira de Trump sobre o ataque japonês à base americana de Pearl Harbor, em 1941. Takaichi recebeu o gracejo com um discreto gesto de perplexidade.
Imagem BBC Brasil
Takaichi se reuniu duas vezes com Trump nos seus primeiros seis meses de governo Crédito: Getty Images
Takaichi também se aproximou de outros aliados do Ocidente.
Em abril de 2026, ela recebeu o presidente da França, Emmanuel Macron. Eles concordaram em ampliar a cooperação bilateral em segurança energética, tecnologia e fornecimento de minerais estratégicos.
Da mesma forma que Shinzo Abe, Sanae Takaichi é considerada linha-dura em termos de política externa.
Ela visitou em diversas ocasiões o controvertido santuário de Yasukuni, que homenageia os mortos de guerra japoneses, incluindo criminosos de guerra condenados. O gesto sempre provoca duras críticas da China e da Coreia do Sul.
Seu governo propôs aumentar os gastos em defesa para cerca de 2% do PIB, seguindo os compromissos de diversos aliados ocidentais, e reforçar a cooperação militar com os Estados Unidos e outros parceiros da região do Indo-Pacífico.
Especialistas indicam que estas medidas indicam a preocupação cada vez maior de Tóquio com a ascensão militar da China e as tensões relativas a Taiwan.
Além disso, a decisão do governo de Takaichi, de relaxar as normas de exportação de armamentos, marca uma reviravolta na política de segurança japonesa.
A decisão elimina limitações que restringiram essas vendas por décadas a funções não agressivas e permite o fornecimento de armas letais para os 17 países com quem Tóquio mantém acordos de defesa. Entre eles, estão os EUA e o Reino Unido.
A proibição de exportar armas para países em guerra segue mantida, mas não se aplicará aos parceiros estratégicos. E existem exceções em circunstâncias especiais.
O governo do Japão menciona a deterioração do ambiente de segurança como justificativa, argumentando que nenhum país pode garantir sozinho sua defesa. E defende que a decisão não implica o abandono dos princípios pacifistas consagrados após a Segunda Guerra Mundial.
Esta medida coincide com o aumento da presença militar do Japão na região. Neste mês de abril, o país participou ativamente, pela primeira vez, de exercícios conjuntos com os Estados Unidos e as Filipinas.
A reação da China foi imediata. Pequim expressou "séria preocupação" e acusou Tóquio de avançar rumo a uma militarização que considera imprudente. Já a Coreia do Sul pediu que eventuais mudanças respeitem o espírito da Constituição pacifista do Japão.
De qualquer forma, a reviravolta japonesa reflete o reposicionamento do país em assuntos de defesa sob a liderança de Takaichi, em meio a um panorama regional cada vez mais complexo na Ásia.

Este vídeo pode te interessar

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Trump cancela ida de enviados americanos ao Paquistão para negociaçōes com Irã
Clientes fizeram fila para entrar primeiro no estande de vendas do Boulevard Arbori.jpeg
Condomínio de luxo em Vila Velha tem fila no estande e vende 90% dos lotes no pré-lançamento
O cineasta capixaba Rodrigo Aragão
Cineasta Rodrigo Aragão será homenageado no 33º Festival de Cinema de Vitória

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados