Durante décadas, uma das mensagens de saúde pública mais difundidas foi a de que fumar mata. Mas outro hábito cotidiano, muito menos dramático e muito mais aceito socialmente, também pode estar prejudicando nossa saúde: ficar sentado por longos períodos.
Muitas pessoas passam até dez horas por dia sentadas diante da mesa de trabalho, em reuniões ou em frente a telas.
Pode parecer inofensivo — e até inevitável —, mas há cada vez mais evidências sugerindo que passar tempo demais sentado está associado a graves riscos à saúde, como doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e morte prematura.
Frequentemente, recomenda-se que as pessoas protejam sua saúde praticando mais exercícios e melhorando a alimentação. Esse conselho é importante, mas deixa de lado algo fundamental.
Mesmo quem cumpre as metas recomendadas de atividade física pode enfrentar riscos à saúde se passar a maior parte do dia sentado.
Isso acontece porque sedentarismo e inatividade física não são a mesma coisa.
Já o sedentarismo se refere a longos períodos sentado ou deitado, com gasto energético muito baixo — seja diante de uma mesa de trabalho, da televisão ou durante um longo trajeto até o trabalho.
Assim, uma pessoa pode ser fisicamente ativa e, ainda assim, ter uma rotina muito sedentária.
Alguém pode sair para correr antes do trabalho e depois permanecer sentado durante a maior parte das oito horas seguintes.
A prática de exercícios ajuda, mas não elimina os efeitos de ficar sentado por muito tempo no organismo.
Quando o corpo permanece imóvel durante longos períodos, uma série de mudanças acontece.
A atividade dos músculos esqueléticos diminui, o que dificulta a absorção da glicose presente no sangue. Com o tempo, isso contribui para a resistência à insulina, um dos principais caminhos para o desenvolvimento do diabetes tipo 2.
O metabolismo das gorduras também fica mais lento.
Problemas cardiometabólicos
O fluxo sanguíneo se torna menos eficiente, reduzindo o fornecimento de oxigênio e nutrientes aos tecidos. Isso pode afetar a função vascular e, com o tempo, contribuir para o aumento da pressão arterial.
Em conjunto, essas alterações metabólicas e circulatórias elevam o risco de problemas cardiometabólicos, como níveis altos de açúcar no sangue, colesterol em níveis pouco saudáveis e acúmulo de gordura abdominal.
Ficar sentado por muito tempo também afeta o sistema musculoesquelético.
A má postura e a falta de movimento sobrecarregam o pescoço, os ombros e a região lombar, o que ajuda a explicar as dores e desconfortos tão comuns entre trabalhadores de escritório.
Os efeitos não são apenas físicos.
Longos períodos de inatividade podem reduzir o estado de alerta, a concentração e os níveis de energia.
Funcionários que permanecem sentados por períodos prolongados frequentemente se sentem mais lentos e menos produtivos.
Em nível global, estima-se que a inatividade física contribua para entre quatro e cinco milhões de mortes por ano. Grande parte da resposta da saúde pública tem se concentrado em incentivar as pessoas a praticar mais exercícios, mas reduzir o tempo em comportamento sedentário é cada vez mais reconhecido como um objetivo importante por si só.
Como a maioria dos adultos passa grande parte das horas em que está acordada no trabalho, o ambiente profissional é um dos contextos mais importantes para enfrentar esse problema. Escritórios, universidades e hospitais não são apenas locais de produtividade — também são espaços onde hábitos cotidianos são formados e reforçados.
Reduzir o tempo que passamos sentados não exige ir à academia nem fazer uma grande reforma no escritório. Pequenas interrupções regulares podem fazer uma grande diferença.
Pesquisas sugerem que levantar-se ou se movimentar por apenas dois a cinco minutos a cada 30 a 60 minutos pode melhorar o metabolismo da glicose e reduzir o risco cardiometabólico.
Algumas organizações já estão tentando incorporar isso à jornada de trabalho.
Reuniões em movimento, lembretes para levantar ou se alongar e pequenas pausas entre tarefas para se mexer podem ajudar as pessoas a passar menos tempo sentadas.
O desenho do ambiente de trabalho também é importante. Mesas com altura regulável permitem que os funcionários alternem entre ficar sentados e em pé, enquanto escadas e trajetos acessíveis podem estimular mais atividade física ao longo do dia.
Um estudo realizado em escritórios do Reino Unido revelou que esse tipo de medida pode reduzir o tempo diário passado sentado entre uma hora e uma hora e meia.
Os funcionários também relataram melhora nos níveis de energia, na concentração e no bem-estar musculoesquelético.
Pequenas mudanças
A mensagem é clara: praticar exercícios regularmente é essencial, mas isso não compensa totalmente os riscos de permanecer sentado por tempo demais.
Se o cigarro nos obrigou a repensar os ambientes em que trabalhamos e socializamos, passar longos períodos sentados também deveria nos levar a repensar a estrutura da jornada de trabalho.
Uma breve caminhada na hora do almoço, ficar em pé durante uma ligação telefônica ou simplesmente levantar-se entre reuniões podem parecer mudanças insignificantes.
Mas não são.
Para os trabalhadores modernos, proteger a saúde não significa apenas se movimentar mais antes ou depois do trabalho, mas também passar menos tempo sentado enquanto trabalham.
*Samina Akhtar é doutoranda em População e Saúde Pública e bolsista Fogarty da Universidade Aga Khan.
*Este artigo foi publicado originalmente no The Conversation e reproduzido aqui sob licença Creative Commons. Clique aqui para ler a versão original.