A Sapucaí foi espaço de muita atração nos últimos dias. Desfiles, fantasias, máscaras, enredos, mas também foi espaço de uma verdade nua, crua e real de um Jesus sem fantasias. A pergunta para nos fazer pensar nesta quinta, aliás, uma quinta quaresmal para os católicos: por que o Jesus Negro, vítima de opressão, indígena, de rosto feminino incomoda tanto ou atrai olhares tão escabrosos? Por que um “Jesus tão humano” incomoda a tantos “humanos”?
A Mangueira levou para Avenida um enredo superior: crítico, oracional e, para muitos, polêmico. Fundamentalismo não teve espaço na alegoria verde e rosa, aliás, Jesus apareceu de roupas jeans e rodeados de amigos - todos representando minorias - dançando e tirando selfies. Até que a polícia apareceu e colocou todo mundo na parede, menos Cristo, que era branco. Ainda assim ele foi preso, numa alusão à passagem bíblica em que ele é pego pelos guardas romanos.
A Mangueira não mostrou um Jesus acima de todos, mas um Jesus que nasce, mora e permanece no meio dos que para quem ele veio. A diversidade do Homem de Nazaré na Avenida revela o plano de vida do Messias que se inclinou ao invés de se achar o santo diante dos pecadores; do Messias que abriu os braços ao invés de condenar as prostitutas; do Messias que veio para defender a liberdade, e por isso foi preso.
Muitos de nós, quando olhamos para o enredo e para a Marquês de Sapucaí, nos assustamos com Jesus, simplesmente porque digo que o sigo, mas não aceito ser o que Ele foi; nos assustamos porque dizemos “sou católico ou evangélico”, mas Ele defende aquilo que não compartilhamos e repudiamos; nos assustamos porque batemos no peito dizendo que somos cristãos, mas não sabemos viver como Ele viveu.
O Messias da Avenida é o Messias da Manjedoura. É o mesmo que preferiu o “curral” aos palácios e aos templos. Preferiu os pecadores aos “doutores”, preferiu ser gente a ser “Deus”. Preferiu mostrar com sua humanidade que o Divino não é só aquele que desce do Alto ou mora no alto, mas aquele que é muito humano e se rebaixa.
Passaram-se dois mil anos e o “Jesus Gente” que veio pra gente continua a incomodar as mesmas classes de dois mil anos atrás, porém, num contexto ainda mais horrendo: religiosos que dizem que O pregam, poderosos que se intitulam cristãos, cristãos que se dizem seguidores.
Um Jesus sem a fantasia de Deus é e sempre será motivo de incômodos e polêmicas. Aliás, acreditar num Deus de fantasias de Deus é mais fácil do que acreditar num Deus vestido de humano. Pois o humano se choca com o próprio humano, com a própria matéria, com a própria fragilidade e miséria, e isso o desinstala. Talvez seja hora não de repudiar, mas de cantar, todos, o refrão da Mangueira, mesmo que essa não seja a sua escola preferida: “Senhor, tem piedade, olha para a terra, veja quanta maldade!”.
Continue a ter pena de quem não tem pena, continue sendo humano, mesmo que os humanos se incomodem por ser gente.