Não é segredo pra ninguém que o deputado Sérgio Majeski não se sente confortável no PSB. Apesar de integrar o partido do governador, ele não integra a base do governo na Assembleia. "Não é porque o governador é do meu partido que deixarei de cobrar ações e criticar o errado. Jamais me submeterei ao alinhamento automático ou baseado em troca de favores", avisa Majeski, que também critica o eventual fechamento de escolas.
2020 chegou. É o ano da sua saída do PSB?
Não sei. Pela legislação não existe janela partidária para deputado em 2020.
O senhor se sente confortável no partido?
Nem confortável, nem desconfortável. Creio que me sentiria da mesma forma em grande parte dos partidos, pois na maioria as práticas são muito parecidas. Os partidos falam em reforma política, mas não se vê disposição em fazer reformas internas para se tornarem menos personalistas e patrimonialistas e mais democráticos, transparentes e modernos, com a participação efetiva de jovens, mulheres e outros segmentos e, principalmente, mais coadunados com os interesses da sociedade, através de ações e não de discursos vazios desconectados daquilo que realmente fazem.
O senhor mantém sua candidatura a prefeito de Vitória?
Sim, mas não estou certo que os mandachuvas do partido queiram isso. Vitória precisa romper definitivamente com práticas da velha política e com a alternância dos mesmos grupos de sempre. Embora existam diferenças imensas entre o Legislativo e o Executivo, tenho mostrado na prática uma política inovadora, sem fisiologismo, personalismo ou patrimonialismo. Algumas pessoas se apresentam como novas ou independentes, mas basta analisar com mais atenção e percebe-se que não é bem assim. O caso da antecipação das eleições para a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa deixou claro muita coisa, embora parte da população não tenha entendido tudo.
O coronel Nylton Rodrigues e o Capitão Assumção lançaram suas pré-candidaturas a prefeito da Capital. O senhor tem um perfil mais à esquerda. Vai ser uma eleição polarizada ideologicamente?
Não sei. Esquerda e direita, ou o que se chama disso no Brasil, têm travado uma guerra horrorosa de narrativas e não de ideias ou propostas reais para resolver os graves e complexos problemas que afligem milhões de brasileiros. Eu não me envolvo em falsas polêmicas. As pautas municipais são bem diferentes da pauta nacional. As questões principais estão relacionadas ao cotidiano e à vida dos municípios. Mas temos visto como falsas polêmicas têm servido para mascarar os reais problemas e a falta de propostas efetivas e sérias para resolvê-los. Então tudo é possível.
O senhor tem assumido uma posição de independência na Assembleia neste primeiro ano de governo. Por que o sr. não faz parte da base de apoio de Casagrande?
Por vezes a política exige uma dose de pragmatismo, mas para quem acredita realmente em mudanças norteadas pelos princípios constitucionais e afinadas com os interesses da sociedade, exige muito mais que isso. Exige coragem. Têm coisas que ocorrem há décadas ou séculos na política e todo mundo faz porque sempre foi assim e dizem que faz parte da política, mas são coisas que se estivessem certas não estaríamos na situação dos dias atuais. Desde o meu primeiro mandato me esforço para manter a coerência entre o que prego e minhas atitudes, sempre lembrando do compromisso de representar a sociedade que me elegeu e me paga, e não o governo. Quando o governo envia projetos de interesses reais da sociedade ou está disposto a discutir as propostas, eu apoio. Caso contrário, não. Não é porque o governador é do meu partido que deixarei de cobrar ações e criticar o errado. Jamais me submeterei ao alinhamento automático ou baseado em troca de favores.
Houve uma forte reação da sociedade à manobra que antecipou a eleição da Mesa Diretora da Assembleia, que depois foi anulada. O presidente Erick Musso traiu o governador?
Não sei se traiu o governador. Pelo que entendi, havia um acordo para que a eleição fosse em 2020, então teria traído, mas considero isso uma questão menor. O presidente Erick traiu de fato o republicanismo, a transparência, os princípios democráticos, a moralidade e a ética. Traiu a sociedade. E tudo isso em nome de interesses pessoais e do seu grupo, e com apoio de muitos no parlamento. Por isso tenho dito que a aprovação da PEC da Reeleição e a reeleição dizem muito mais do que realmente parece.
O Tribunal de Contas fez um levantamento que apontou que existem 169 escolas no ES com até 10 alunos matriculados. O senhor, como professor, é a favor do fechamento de escolas nesses casos?
Sou radicalmente contra o fechamento de escolas ou turnos. Primeiro que o arcabouço legal que rege a educação brasileira, começando pela Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, não diz que o direito à educação será dado a partir de um determinado número de alunos nas escolas. Portanto, se uma escola tiver um aluno e a transferência dele for causar qualquer dano de aprendizagem a ele, a escola deveria ser mantida aberta. Além disso, existem no Espírito Santo mais de 50 mil alunos em idade escolar, de 6 a 17 anos, fora da escola e cerca de 200 mil pessoas, com idade de 18 a 29 anos, que não concluíram a Educação Básica e também estão fora da escola. Então antes de pensar em fechar escolas ou turnos seria necessário fazer um diagnóstico de quantas pessoas naquela região estão fora da escola e fazer uma campanha para trazê-las de volta às salas de aula. E mesmo quando uma escola tem poucos alunos e se pensa em fechar é necessário fazer um diagnóstico com eles para entender quais impactos essa mudança de escola trará e se todos continuarão estudando. Isto nunca é feito. Esse relatório simplista e meramente economicista do Tribunal de Contas é vergonhoso, pois não leva nada disso em conta. Educação é investimento e não gasto. Gasto é um conselheiro ter vale-refeição maior que o salário de muitos professores, além de outras regalias.
O senhor foi denunciado pelo Ministério Público Estadual por quebra de decoro parlamentar, por ter feito críticas feitas à criação de 307 novos cargos comissionados no órgão. Teme perder o mandato por causa disso?
De forma alguma. Ainda vivemos numa democracia e estou exercendo as minhas prerrogativas de deputado. Tenho sido perseguido de várias formas e com ações orquestradas, mas o tempo se encarregará de esclarecer muita coisa. O Ministério Público é um órgão importantíssimo para a sociedade e não pode ser usado por algumas pessoas para perseguir desafetos ou a quem ouse criticar determinadas ações.