O longo recesso parlamentar não foi suficiente para esfriar a cabeça de alguns parlamentares. A sessão desta quarta-feira (5) na Assembleia Legislativa, a terceira após a volta aos trabalhos, foi marcada por um tiroteio verbal entre os deputados Enivaldo dos Anjos (PSD), Capitão Assumção (PSL) e Lorenzo Pazolini (sem partido) – os dois últimos contra o primeiro. No meio da discussão, sobraram menções a “tratamento psicológico”, “síndrome de Estocolmo” e até “beijos na boca” do governador Renato Casagrande e do ex-deputado federal e ex-presidente do PSL-ES, Carlos Manato.
Enivaldo é ex-líder do governo Casagrande em plenário e, apesar de ter sido destituído da função de maneira pouco honrosa no fim de novembro passado, continua na base do governador. Já Assumção e Pazolini se estabeleceram, em 2019, ao lado de Vandinho Leite (PSDB), como principais opositores do governo.
O entrevero nesta quarta começou quando Enivaldo subiu à tribuna para criticar a atuação da Fundação Renova e das mineradoras Vale e Samarco. Lá para as tantas, sem citar nomes, chamou Pazolini e Assumção para a briga.
“A gente falar de poluição no Espírito Santo é uma coisa tão fora de lógica que o próprio plenário demonstra isso. Ninguém escuta nem o que você está falando sobre poluição. Não tem nem um aparte daqueles que vêm aqui dizer que o governador é moleque, aqueles que vêm aqui dizer que o crime organizado tomou conta do Estado. Cadê os homens valentes? Cadê os homens corajosos que tem aqui, direcionando o seu discurso só contra o governo? Cadê aqueles que são bravos? O delegado? Os policiais? Ninguém tem coragem de falar da Vale! […] Queria que os deputados valentes da Assembleia fossem valentes contra essa poluição.”
Pazolini foi o primeiro a morder a isca. Pedindo “pela ordem” ao deputado Alexandre Xambinho (Rede), que presidia a sessão, devolveu a provocação a Enivaldo:
“Muito me surpreende esta Casa hoje constatar que há colegas aqui que estão talvez precisando de um tratamento psicológico. Nós estamos diante de uma síndrome de Estocolmo. A ciência explica isso. Quanto mais ele é maltratado, mais ele se apaixona pelo perpetrador. Então estamos diante de um caso clássico de alguém que se apaixonou pelo seu perpetrador, que foi maltratado e se apaixonou pelo criminoso.”
Assumção emendou: “Realmente, a vítima fica nesse estágio. […] É isso que temos visto e ouvido aqui de parlamentares que estão defendendo o seu perpetrador. Tomando pancada e se apaixonando.”
Vestindo a carapuça, Enivaldo rebateu, do outro microfone de apartes: “Tenho ideal. Não misturo confusões ou até atritos políticos com a minha posição de homem. [...] Eu não tenho desvio político. Quem tem desvio político talvez seja ele [Assumção], que já foi do PSB, já amou, já beijou na boca de Renato Casagrande e hoje, porque está beijando a boca de Manato, acha que Casagrande não presta mais. Eu não. Eu caminho numa direção só. Não interessa se sou líder ou não sou líder.”
Assumção ainda tentou prosseguir: “Não mencionei nome de nenhum parlamentar. A carapuça coube na cabeça desse parlamentar que eu me recuso a falar nome”.
Aí Xambinho se cansou, cortou o microfone do pesselista (de fato, um ex-socialista) e deu continuidade à sessão.
CONTEXTO: POR QUE "SÍNDROME DE ESTOCOLMO"?
A referência de Pazolini e Assumção é à maneira pouco honrosa como Enivaldo foi substituído por Casagrande na função de líder, no dia 30 de novembro, três dias após a sessão relâmpago em que a chapa liderada pelo presidente da Assembleia Legislativa, Erick Musso (Republicanos), elegeu-se para comandar a Assembleia no biênio 2021-2023. Sem avisar Enivaldo, Casagrande o trocou por Eustáquio de Freitas (PSB). Dois dias depois, Enivaldo fez um longo desabafo no plenário, acusando o governo Casagrande de incoerência. Chegou a dizer que iria para a briga, "política ou fisicamente", com governistas. Na ocasião, recebeu a solidariedade de vários colegas, incluindo um abraço de Pazolini, com quem já tivera vários bate-bocas em plenário.
Naquela altura, chegou-se a cogitar que Enivaldo pudesse descambar para a oposição. Agora, ele inicia o ano legislativo de 2020 dando sinais claros de que, após lamber as feridas, não só permanecerá na base de Casagrande como segue muito disposto a travar embates com a oposição no plenário. Por sua vez, Pazolini e Assumção começam 2020 como terminaram 2019: fazendo oposição ao governo e se desentendendo com Enivaldo no plenário.
Em tempo: a eleição antecipada da Mesa foi anulada em dezembro e tudo voltou à estaca zero.