A Piedade vai lembrar o papa Francisco, São Francisco de Assis, Chico Buarque e Chico Xavier, entre outras personalidades com nome Francisco, para acabar com o incômodo jejum de títulos da mais tradicional escola de samba de Vitória. O último campeonato da Piedade está perdido no longínquo ano de 1986 - de lá pra cá a escola viu despontar, no primeiro momento, a rival Jucutuquara e, nos últimos dez anos, o reinado da Boa Vista e da MUG, escolas de Cariacica e Vila Velha. "Essas escolas encontram maior apoio da municipalidade que as outras dez da Grande Vitória", analisa o carnavalesco Paulo Balbino, um dos magos da criatividade no Sambão do Povo. Para ele, o nosso carnaval precisa de mais estrutura para ficar ainda melhor: "Falta governo e prefeitura se sentarem com as escolas e juntos elaborarem um projeto para alavancar o nosso carnaval", sugere.
Há 11 anos uma escola de samba de Vitória não é campeã no Grupo Especial. A Capital não sabe mais fazer carnaval?
Infelizmente o que alavanca um grande carnaval é a facilidade de se colocar em prática o projeto inicial. Este sempre foi o grande problema das escolas da Grande Vitória, a maioria não possui quadra ou barracão para iniciar os trabalhos com antecedência como é feito na MUG e na Boa Vista. Por se tratar de apenas uma ou duas escolas no município, essas escolas encontram maior apoio da municipalidade que as outras dez da Grande Vitória. Estas não conseguem por causa do grande número de agremiações. Lógico que sem desmerecer o primoroso trabalho que essas escolas vêm fazendo para obterem resultados. Mas ano passado a Piedade saiu favorita do Sambão, e teve aquele resultado surpreendente, contrariando os grandes entendedores de carnaval.
A Piedade não conquista o título há 34 anos. Este ano, com um enredo em homenagem aos Franciscos, o jejum vai acabar?
O país tem passado por transformações e crises e o nosso carnaval também entrou em crise. Além de a Piedade não ter uma quadra coberta e fechada onde se possa cobrar entrada para ajudar a bancar os custos, ficamos sem o direito de fazer os ensaios na nossa quadra, e isso dificultou ainda mais o trabalho. Com certeza está sendo o ano mais difícil que estou enfrentando. Faltam verbas, tempo e mão de obra qualificada. Eu digo que carnaval se ganha na avenida, apesar de que ano passado ninguém entendeu muito bem o resultado. Estamos trabalhando com muita dificuldade para trazer o campeonato para essa comunidade tão sofrida. Que vença a melhor.
Você diz que o enredo da Piedade parece sugerir uma inspiração religiosa, mas que na realidade fala de pessoas iluminadas. Entre os nove Franciscos homenageados, qual você mais admira?
Sem sombra de dúvidas o de Assis, me encanta sua história. A oração de São Francisco é algo arrepiante.
Há quem diga que a Piedade deixou de ser uma escola do morro, de raiz, para se tornar uma agremiação de sarados de classe média de academia. Essa crítica procede?
Com a extinção do Vital [carnaval fora de época de Vitória], essa população de micaretas migrou para o carnaval. Hoje todas as escolas possuem sarados e saradas, não vejo onde isso possa prejudicar, uma vez que eles participam dos ensaios, pagam por suas fantasias e somam com a agremiação, enquanto muitos da comunidade não colaboram em nada.
Você é conhecido por muita gente como o “Paulo Barros do carnaval capixaba”. O que você tem em comum com o carnavalesco mais badalado do Rio de Janeiro?
Com Paulo Barros só temos mesmo as iniciais PB. São universos muito distantes. Eu luto com muitas dificuldades, é como tirar leite de pedra. Gosto de alguns conceitos que ele cria, mas na verdade sou fã do Renato Lage, apesar de o Paulo ter feito um desfile maravilhoso pela Viradouro no ano passado.
A Piedade está localizada numa região de Vitória marcada pela violência e pelo tráfico de drogas. Esse clima de insegurança atrapalhou a preparação da escola para o carnaval deste ano?
Não, a comunidade é forte e não se deixa abater, apesar da grande tristeza que pairou sobre aquela região. Esse enredo veio para pedir paz, conscientizar que precisamos nos unir em correntes de oração para banir o mal do morro.
O enredo da escola - Francisco’s - fala muito de paz. É uma alusão ao cotidiano de violência dos morros de Vitória?
Sim, escolhi esse enredo principalmente por tudo o que tem acontecido naquela comunidade. Francisco’s é uma mensagem de amor ao próximo, um pedido de paz, momento de darmos as mãos e fazer uma grande corrente de amor.
A Piedade será a primeira a desfilar no sábado. Esse fator não pode prejudicar a escola?
Com certeza há um grande risco por sermos a primeira escola a abrir os desfiles. Público frio e jurados despreparados podem segurar o 10 para uma escola que ainda não desfilou. Muitos não sabem que estão ali com a função de penalizar caso haja erro, se não houver, a nota 10 deve prevalecer. As escolas entram com a nota 10 e perdem pontos caso haja erro em sua apresentação, mas nem sempre é feito dessa maneira, uma pena.
As escolas de samba ainda são muito dependentes da ajuda do poder público. O que falta para eles serem mais independentes financeiramente?
O carnaval movimenta a economia porque gera empregos, turismo, movimenta restaurantes e a hotelaria. Falta um projeto onde todos os beneficiados possam colaborar com esse espetáculo para torná-lo ainda melhor. Falta uma cidade do samba para as escolas guardarem suas alegorias e as tirarem das avenidas. E principalmente uma quadra, como no caso da Piedade, para movimentar os recursos da escola. Falta governo e prefeitura se sentarem com as escolas e juntos elaborarem um projeto para alavancar o nosso carnaval.
Você é um profissional de educação física. No ES, ainda não dá para viver financeiramente como carnavalesco?
Infelizmente o nosso recurso é muito pequeno. Quando falamos da cifra que se gasta para construir o carnaval de Vitória, os profissionais do Rio e de São Paulo dão gargalhadas, acham uma comédia.