Fernando Bourguignon Pratti*
Vamos falar sobre meio ambiente hoje? Então, respire fundo, porque são muitas matizes, nuances e contrastes.
Neste Brasil, das maiores riquezas naturais do mundo, a disseminação de propostas contrárias à gestão do meio ambiente tem tomado proporções assustadoras. Propagado pela política de “colarinho cinza”, o maior ataque tem sido disparado contra os órgãos ambientais e seus profissionais, acusados de “xiitas” e “esquerdistas”, que estariam “atuando para impedir o desenvolvimento do país”.
Essas críticas omitem, de fato, o sucateamento progressivo que vem reduzindo a capacidade pública de controle ambiental, tornando a população ainda mais vulnerável. Sem eficiência no licenciamento e fiscalização, ampliam-se os risco de degradação e desastres ambientais. Lembremos Mariana, cujas causas evoluíram de forma muito distante de nossa curta visão.
Assim, o enfraquecimento da legislação e da estrutura do Ministério do Meio Ambiente surge como estratégia de efeito cascata, que poderá se difundir para os órgãos estaduais e municipais. Ao fomentar uma luta contra o controle público no meio ambiente, cresce a política anticlimática conduzida por uma minoria contrária à proteção dos recursos hídricos, das florestas, da biodiversidade e da qualidade do ar. Enquanto o mundo pactua a redução da poluição e do desmatamento para conter as adversidades climáticas, alguns brasileiros reagem a uma dita “intromissão internacional sobre o país”, como se não fôssemos parte do mesmo planeta.
Perdem os brasileiros e o Brasil manda um recado muito negativo para o mundo, com risco de perda de mercado e rompimento de acordos globais.
Nessa contramão política, pouco interessa se a vulnerabilidade climática é a maior ameaça à produção rural, especialmente da região Centro-Oeste, um dos maiores celeiros do agronegócio. No nicho bilionário de grilagem de terras amazônicas, não se reconhece que a modernização da produção nas áreas já ocupadas seja o caminho para ampliar a produtividade (estrutura, tecnologia sustentável e mercado) e reduzir seus impactos.
Outras frentes poderosas também atuam por uma carta branca para a mineração em áreas indígenas, sem considerar os inúmeros riscos socioambientais. Enfim, o que se percebe é o avanço de uma política de maximização de lucros “aqui e agora”, pois o futuro “a Deus pertence”.
Confesso-me que, na guerra das últimas eleições, me vi entre os cegos no tiroteio. Porém, a cada fala de nosso presidente eleito venho tentando me convencer de que ele estaria disposto a estudar, exaustivamente, as questões do país para evitar decisões precipitadas. Então vamos torcer para que a lucidez saia vencedora no pós-eleições.
*É engenheiro agrônomo e servidor da Secretaria de Meio Ambiente de Vitória