Este primeiro ano do segundo governo de Renato Casagrande foi marcado por um traço que também caracterizou a sua primeira administração inteira, de 2011 a 2014, arrancando críticas – veladas ou nem tanto – até de aliados pertencentes a outros partidos: a gula do PSB, o partido de Casagrande, por ocupar cargos e espaços estratégicos não só na estrutura do governo estadual como também em outras instituições.
Tal voracidade, alimentada pelo próprio governador, reproduz-se na atual gestão, a começar por um dos fatos políticos mais importantes do Estado no início deste ano: a nomeação do farmacêutico (e militante histórico do PSB) Luiz Carlos Ciciliotti para a vaga do conselheiro Valci Ferreira no Tribunal de Contas do Estado (TCES). Por ocasião da indicação, Ciciliotti era nada menos que o presidente estadual do Partido Socialista Brasileiro (PSB), cargo de que precisou abdicar ao tomar posse no TCES.
Oficialmente, a escolha foi feita pela Assembleia Legislativa, da qual o TCES é órgão auxiliar. Mas todo mundo o sabe, várias fontes do governo o confirmaram e o próprio Casagrande nunca o negou: nos bastidores, foi ele próprio quem indicou, apoiou e trabalhou para emplacar o aliado na Corte que, entre outras atribuições, tem a competência de analisar e julgar as contas de secretários de Estado e do próprio governador.
SOCIALISTAS NO SECRETARIADO
A gula do PSB também se manifesta na escalação do primeiro escalão do governo. Além de Casagrande, a vice-governadora, Jaqueline Moraes, pertence ao PSB (ela assumiu o cargo duas vezes este ano). Dos 24 integrantes da equipe com status de secretário de Estado, seis são filiados ao PSB. Na verdade Casagrande escolheu sete correligionários, mas o secretário de Controle e Transparência, Edmar Camata, desfiliou-se em janeiro, antes de tomar posse no cargo, por incompatibilidade com sua pasta específica.
Os outros são a chefe de gabinete de Casagrande, Valésia Perozini, e os secretários Tyago Hoffmann (Governo), Rogelio Pegoretti (Fazenda), Paulo Foletto (Agricultura), Bruno Lamas (Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social) e Fábio Damasceno (Mobilidade e Infraestrutura).
A JUNTA COMERCIAL DOMINADA
O apetite insaciável do PSB também se estende para alguns órgãos e autarquias cujo comando atualmente é inteiramente dominado pelo partido. O caso mais emblemático, como mostramos aqui em setembro, é o da poderosa Junta Comercial do Espírito Santo, autarquia criada em 1908, pela qual passam diretamente os interesses dos empresários com negócios no Espírito Santo.
Em agosto, para a presidência da Junta, Casagrande nomeou o então presidente estadual do PSB, Carlos Roberto Rafael (substituto de Ciciliotti). Já para a vice-presidência, nomeou Victor Bolelli de Oliveira, também do PSB. Na atual composição do plenário da autarquia, eles são os dois vogais titulares nomeados por Casagrande como representantes do governo estadual.
Seus respectivos suplentes, também escolhidos por Casagrande, são Paulo Alfonso Menegueli e Alberto Farias Gavini Filho. Menegueli é o primeiro-secretário da Executiva Estadual do PSB. Já Gavini Filho, quando nomeado, era secretário-geral do partido no Espírito Santo.
Em outubro, houve uma troca de posições na direção estadual do PSB: Carlos Rafael tornou-se secretário-geral do partido, no lugar de Gavini Filho, e este substituiu o primeiro na presidência. Como explicou Casagrande à época, a mudança se deu a pedido dele, para evitar que Carlos Rafael acumulasse a presidência do partido com a da autarquia. “O presidente da Junta precisa ficar mais protegido e mais afastado do debate político”, disse ele, então, à coluna.
Como informou o colunista Leonel Ximenes no último sábado (21), os jetons pagos aos membros do plenário da Junta ao longo de 2019, por participação nas reuniões, chegaram a R$ 1.273.915,18.
CASAGRANDE: “NOSSO PARTIDO É MUITO BOM”
Com tantos exemplos, perguntamos ao próprio Renato Casagrande: isso indica que a máquina pública estadual está sendo aparelhada pelo PSB?
“Isso indica que o nosso partido é muito bom [risos]”, respondeu o governador, arriscando uma brincadeira, mas logo voltando à seriedade: “Temos gente para poder ocupar as funções, os espaços. E também é bom que você considere, Vitor, que eu estou no PSB desde a década de 1980. Compreenda que e construí a minha carreira dentro do PSB".
"As minhas relações são com pessoas do PSB. Muitas delas já participaram no governo passado ou em outros mandatos que exerci. E é bom que o PSB tenha lideranças. Senão chega um governador para governar o Estado e não tem gente para colocar."
O governador defende que seu atual governo está “heterogêneo”, com equipe diversificada, formada também por colaboradores de outros partidos ou sem filiação partidária alguma.
“Além do PSB, temos gente de diversos outros partidos. Tem gente que não tem partido nenhum. Fomos buscar pessoas sem nenhuma filiação partidária, buscar pessoas que sejam de outros partidos... O governo está bem heterogêneo em termos de representação partidária e heterogêneo em termos de pessoas da sociedade: gente mais jovem, mais velha, gente de diversas regiões do Estado. Isso ajuda a compor uma representação estadual também.”
Pode ser, pode ser… Mas vale voltar a frisar o que pontuamos aqui ao longo de 2019, diante das situações mencionadas: o símbolo do PSB pode até ser uma pomba... Mas o apetite da sigla é de pelicano.