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Tragédia das chuvas

O que a enchente e o mar de lama ensinaram aos iconhenses?

Descobri que a lama, mesmo levando muitas vidas, nos trouxe uma vida diferente, através da solidariedade. A lama nos fez pensar o quanto somos frágeis, e que não existe gente grande e nem adulto diante da grandeza da tragédia

Publicado em 30 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

30 jan 2020 às 04:00
Vinicius Figueira

Colunista

Vinicius Figueira

viniciusfigueira18@gmail.com

Cenas da cidade Iconha destruída pela enchente Crédito: Fernando Madeira
No último domingo (26), resolvi fazer um "tour" diferente. Costumeiramente, sempre tiro um tempo para andar pela cidade. Me faz bem. Andar pelas ruas da cidade me faz andar dentro de mim. E foi isso que fiz no fim de semana. Permiti que os meus pés e os meus olhos tocassem a lama que nos feriu. E descobri que ela não nos feriu, mas veio para curar, como a lama que Jesus fez para curar o cego. Por outro lado, a lama de Iconha serviu para curar outras cegueiras de comportamentos, de ousadias, de práticas.
Descobri que ela, mesmo levando muitas vidas, nos trouxe uma vida diferente, através da solidariedade. Ver uma cidade inundada por voluntários foi arrepiante. E, mais ainda, quanta gente se repartiu e se/nos enriqueceu. A lama nos ensinou que ninguém é autossuficiente, mas todos, até os que se acham autossuficientes, perceberam que só outro é capaz de salvar o outro, e não as coisas.
Quando os meus pés tocavam a lama, eu me lembrava do Gênesis, quando nos diz: “Fomos feito do pó, da terra, da lama, e para ela vamos voltar”. A lama fez ou pelo menos deveria fazer os iconhenses pensarem que somos todos frágeis, não existe gente grande e nem, tampouco, adulto diante da grandeza da tragédia. Fomos todos, todo mundo, nivelados a meros recém-nascidos, frágeis, necessitados de cuidado e de amparo.
A lama também ensinou que água mole em coração de pedra nem sempre que bate fura. Ainda assim, muitos corações endurecidos pelo poder continuam a não aceitar críticas e questionamentos, estão atados ao poderio. “Quem questionar o meu poder é meu inimigo”. A lama também revelou como temos pessoas más ocupando a liderança do serviço. Como temos oportunistas, como temos desumanos liderando humanos.
Por fim, eu diria que a lama deixou uma nobre lição: Não temos nada, não somos nada, e não precisamos de tudo. A lama que destruiu a cidade, os acessos, as estradas, as pontes, os muros, as vidas... Tudo isso nos mostra que o tempo que temos é o agora. Daqui a poucos minutos podemos ser levados pela correnteza, um poste pode cair sobre nós, a nossa casa pode cair e nós junto dela. Quem quiser salvar coisas, pode perder a vida; e quem quiser se salvar deve renunciar a tudo.
A lama revela aos capixabas e iconhenses quem nem todo lugar é meu lugar. Que, às vezes, quando a lei diz que "aqui não pode", eu preciso ser obediente, porque essa mesma lei que me diz "não" é aquela que vai me permitir dizer "sim" à minha vida. A lama revelou que não há fama, não há dinheiro e nem posse que serão capazes de nos salvar.
Quando a fé e a esperança, a princípio, parecem ter sido levadas pela lama, nós as redescobrimos no gesto solidário dos anônimos que, de pá em pá e de enxada em enxada eliminam os escombros e nos oferecem um recomeço, para nos reconstruir e nos reerguer.

Vinicius Figueira

É publicitário. Uma visão mais humanizada dos avanços tecnológicos e das próprias relações sociais tem destaque neste espaço. Escreve às quintas

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