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Higor Ferraço/Divulgação
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As escolhas da escritora Sara Lovatti em seu "Cardápio"

Sara Lovatti, mestra e doutoranda em Letras e autora de "Desconverso" (2017) e "Estilhaço" (2021), anuncia, com sua obra mais recente, algumas escolhas que parecem sinalizar um amadurecimento progressivo no manejo de técnicas textuais

Publicado em 29 de Março de 2025 às 10:00

Publicado em

29 mar 2025 às 10:00
Escritora Sara Lovatti
Sara Lovatti, autora de "Cardápio", livro que será lançado no dia 5 de abril na Casa de Bamba, no Centro de Vitória Crédito: Higor Ferraço/Divulgação
  • Maria Amélia Dalvi

    É professora e pesquisadora na Universidade Federal do Espírito Santo. Nos últimos anos, publicou "No cangote do Saci" (Tapioquinha, 2023; SESI-SP, 2021), "Escrever, imprimir, ler" (Edufes, 2019), "Los lobitos en el hotel" (IC Ediciones, 2019) e "Poema algum basta" (Cousa, 2019). Coordena o grupo Literatura e Educação (www.literaturaeeducacao.ufes.br). E-mail: dalvimariaamelia@gmail.com.
Com epígrafe (“bueno / estoy muerta / y quiero divertirme”) colhida à escritora argentina Susana Thénon, o mais recente livro de Sara Lovatti, "Cardápio", publicado em 2025 pela Editora Cousa, inscreve-se na literatura contemporânea produzida por mulheres no Brasil e, particularmente, no Espírito Santo. Insere-se em algumas linhagens que têm problematizado – pela via da narrativa curta que tende a sobrepor instâncias como autor, narrador e personagem – questões atuais, em diálogo com a tradição literária.
Transita entre o local e o internacional, requerendo a música popular brasileira como referência necessária à produção de sentidos: “Ela dizia que havia aberto mão de sua coleção do Machado e dos poemários de Hilda Hilst. E que não cobrou de volta o Neruda, os discos, as taças, tampouco as fotos daquele tempo juntos” (Lovatti, 2025, p. 31); “Aproveito o ensejo e reivindico aqui o Bith e o Neruda, que você nunca leu, nem devolveu” (p. 122).
Entre as questões contempladas na estrutura tripartida e matemática da obra (nove crônicas, seis contos, três cartas) estão o deslocamento espacial que redunda em deslocamento sociocultural; o provincianismo; a fragilidade das relações humanas e dos afetos; a metalinguagem; a memória em correlação com a história e a ficção; a influência de outras linguagens artísticas; as perdas humanas; a transformação da subjetividade atravessada pelo Outro; o cotidiano urbano; o desencontro de expectativas; a relação com novas tecnologias; e o absurdo, que se revela na observação atenta do prosaico.
O tom com o qual questões tão diversas são incorporadas à matéria ficcional, frequentemente irônico, não é rigorosamente moralista, tampouco cético: oscila e recombina posturas que transitam entre maturidade e infantilidade, costuradas por um sutil fio de humor:
Deve ter sido um obstáculo para um homem requintado como ele se deparar com meu desleixo proposital, mas esse era um teste que eu nunca me incomodava de sustentar [...]. Ainda sentada no bar, me deparei com uma cena que não estava prevista no experimento, a brutalidade se instaurou, registrei com fotos e relatórios escritos. O rapaz tentava, ajoelhado no meio-fio, arrancar as minhas meias com os dentes. [...] Permaneci ali, um pouco atônita e na disposição de manter-me fiel ao registro, ao experimento. Assim que desobstruíram o caminho e me permitiram circular pelo ambiente, me levantei da cadeira e saí sem pagar. (Lovatti, 2025, p. 83).
No fragmento acima, além do ridículo dos papeis de gênero estereotipados, está tensionada a lógica científica do experimento, do teste, da documentação.
A linguagem recupera procedimentos de escritoras de diferentes gerações, tais como Carmélia Maria de Souza, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles, passando por Adriana Falcão, Aline Dias, Anne Ventura, Brunella Brunello, Mara Coradello, Mariana Ianelli, Patrícia Mello ou Sarah Vervloet. Trata-se de uma escrita que se movimenta entre a elegância narrativa que não hesita em revolver os registros baixos, a contundência crítico-reflexiva, a exploração subjetiva, o espanto com o mundo.
Há poucos diálogos: aquele que narra chama para si o turno de fala, o manejo da perspectiva e o controle do que se conta. Parece haver aqui o anúncio do projeto de uma nova geração em franca formação: uma que não simula a delegação da palavra a um terceiro para construir um mosaico rico de perspectivas; a própria voz que conta, em insconsistência deliberada, se constitui de modo fragmentado.
Sara Lovatti, mestra e doutoranda em Letras e autora de Desconverso (2017) e Estilhaço (2021), anuncia, com sua obra mais recente, algumas escolhas que parecem sinalizar um amadurecimento progressivo no manejo de técnicas textuais. A nós, seus leitores, resta torcer: "escreva, Sara, escreva".

SERVIÇO

"CARDÁPIO": Lançamento do livro de contos de Sara Lovatti
Com leitura de textos, roda de conversa, sessão de autógrafos com a autora e discotecagem em vinil com o DJ Renan Lubanco
  • Data: 5 de abril (sábado)
  • Horário: 18h
  • Onde: Casa de Bamba, Rua Gama Rosa, 154, Centro, Vitória
  • Editora: Cousa
  • 156 páginas
  • Preço do exemplar: R$ 40,00
Projeto selecionado pelo Edital Nº 11/2023 – Produção e Difusão de Obras Literárias no Espírito Santo, da Secretaria de Estado da Cultura (Secult-ES)

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