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Pensar

Ler ficção não para fugir da realidade, mas para se reconectar com ela

Durante dois anos de mestrado, o volume de leitura demandado me afastou ainda mais dos romances, contos, crônicas e belezas da literatura. As obras que surgiam em meu caminho eram colocadas numa lista de desejos da Amazon chamada “Leituras para depois da dissertação”

Publicado em 07 de Setembro de 2024 às 10:00

Publicado em

07 set 2024 às 10:00
  • Debora Sonegheti

    É jornalista, mestre em Comunicação e Territorialidades e pesquisadora do futuro do trabalho. Diretora de Marketing do Base27
Houve um período durante a pandemia em que passei um bom tempo sem ler obras de ficção. Até por estar me preparando para cursar o mestrado, queria aproveitar o tempo livre para engolir o máximo de conteúdo possível sobre a temática da pesquisa, fossem artigos científicos ou livros publicados por pesquisadores.
Eu, que em 2020 tive contato com algumas das obras que passaram a ser favoritas e determinantes na minha formação como leitora — foi o ano em que li “Fique Comigo”, “Torto Arado” e “O Deserto dos Tártaros” —, tive um 2021 inundado por textos de 15 páginas nas regras da ABNT.
Durante os dois anos de mestrado, o volume de leitura demandado me afastou ainda mais dos romances, contos, crônicas e belezas da literatura. As obras que surgiam em meu caminho eram colocadas numa lista de desejos da Amazon chamada “Leituras para depois da dissertação”. Voltar a ler recreativamente, com frequência, parecia um sonho distante.
Teimosa, cheguei a concluir alguns títulos memoráveis em viagens e fins de semana de procrastinação. Conheci Sally Rooney e Rosa Montero. Me rendi à Ursula K. Le Gun e Sylvia Plath. Mas nada se comparava à frequência que um dia já tive, devorando clássicos em questão de horas.
A cobrança e a responsabilidade interna geradas pelo desejo de prosperar academicamente me levaram a uma conclusão exagerada, típica do meu hiperfoco inseguro: ler ficção era um desvio de percurso desnecessário, prejudicial ao processo de criação formal e mecânico da pesquisa.
Até que em julho de 2023, no auge da compilação de dados e finalização dos capítulos, a curiosidade por uma obra muito falada nas redes sociais me levou a comprar alguns livros da lista. Entre eles, “Tudo é Rio”, de Carla Madeira. Me planejei para ler apenas algumas páginas e tentar entender todo o apelo e comentários.
Quando me dei conta, as horas passavam e as dores de Lucy e Dalva já eram minhas. Não sabia se estava horrorizada com a história e a falta de pudor ou maravilhada com a prosa crua e literal da autora, que mexeu com minhas crenças sobre compaixão e perdão.
“Tudo é Rio” incomodou profundamente. Trouxe memórias de outras leituras e aprendizados. Despertou reflexões sobre feminismo, comunidade, papéis sociais… temáticas que me impactam pessoal e profissionalmente. Relembrei que a literatura, para além do deleite e lazer, também é retrato da realidade e reflexo dela. Também é objeto de pesquisa e instrumento de trabalho.
A partir dali, não consegui mais ignorar a ficção. Voltei a me interessar especialmente por histórias de mulheres, e conheci uma nova geração de autoras brasileiras que têm explorado temáticas femininas antes ignoradas . Solidão, abandono, envelhecimento, maternidade, irmandade, territorialidade, sexualidade e tantos outros aspectos culturais do que é ser mulher se revelam nas páginas de nomes como Aline Bei, Lorena Portela, Elisama Santos, Socorro Accioli, e da própria Carla Madeira.
As experiências das mulheres retratadas, mesmo que às vezes atravessadas por elementos fantásticos e representadas por personagens fictícios, me pareceram tão reais quanto as minhas. Ajudaram a examinar questões pessoais e a digerir dores e fracassos. Se a expectativa era fugir da realidade, o que aconteceu foi exatamente o contrário: me reconectei com ela.
Com ajuda da ficção, fiz minha própria coreografia do adeus. Me distraí, para em seguida voltar a prestar atenção no que precisava ser feito. “E a vida, como metáfora de um rio, tudo traz, tudo leva, tudo lava”.
Das divergências acadêmicas entre teoria e prática e da eterna dúvida sobre a vida imitar a arte ou a arte imitar a vida, escolho não escolher. Descobri que, sem a literatura para deleite da alma, não terei fôlego para produzir a ciência que desvenda a vida.

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