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Beatriz Seixas

Perfil técnico na Fazenda do ES agrada, mas há alertas

Escolha do novo secretário causou surpresa no mercado capixaba

Publicado em 01 de Novembro de 2018 às 23:02

Públicado em 

01 nov 2018 às 23:02
Beatriz Seixas

Colunista

Beatriz Seixas

bseixas@redegazeta.com.br

Rogelio Pegoretti Caetano Amorim é o novo secretário da Fazenda do governo Casagrande Crédito: Raphael Marques/Divulgação
O anúncio feito pelo governador eleito do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), dos seus dois primeiros secretários atendeu a um pedido unânime do mercado e de especialistas em gestão pública, de que é essencial privilegiar nomes técnicos na formação da equipe.
Os escolhidos - Álvaro Duboc, para o Planejamento, e Rogelio Pegoretti Caetano Amorim, para a Fazenda - se encaixam bem nesse perfil e contribuem para afastar do socialista o estigma de que ele se cerca mais de pessoas do seu convívio político e de sua confiança do que de pessoas qualificadas. Pelo currículo de Duboc e Pegoretti, nota-se que ambos chegaram ao quadro do Palácio Anchieta por méritos de formação.
O novo titular do Planejamento é delegado federal aposentado, formado em Direito, com especialização em Direito Público e MBA em Gestão Empresarial, só para citar alguns atributos. E o braço direito de Casagrande na condução das finanças é formado em Engenharia de Computação e mestre em Informática pela Ufes, auditor de controle externo do Tribunal de Contas e ocupa o cargo de secretário da Fazenda de Cachoeiro de Itapemirim desde maio de 2017.
Hoje, a coluna vai se debruçar especialmente sobre o jovem de 34 anos Rogelio Pegoretti. O motivo? A surpresa e o burburinho que ele causou no meio capixaba após ser anunciado como o “guardião do cofre estadual”, nas palavras do próprio governador Casagrande na última quarta-feira, quando o auditor foi apresentado à imprensa.
Como falei no início deste texto, Pegoretti faz parte de um quadro técnico, mas a surpresa veio do fato de ele não ter no currículo uma formação em áreas mais afins à Economia, assim como não ter vasta experiência em cargos de gestão. Para fontes ouvidas pela coluna – como servidores da Fazenda e do Tribunal de Contas, representantes de instituições estratégicas do Estado, além de nomes do mercado –, a ausência de um selo de economista, por exemplo, não inviabiliza que ele alcance bons resultados na secretaria, mas levanta dúvidas se ele será capaz de conduzir e enfrentar os complexos temas e atores que o cargo exige.
“O momento econômico ainda é delicado. Não é hora de relaxar. O Espírito Santo é um dos Estados com a melhor situação fiscal do país. Será que o novo secretário vai conseguir manter ou melhorar esse padrão? A Secretaria da Fazenda é o coração do governo e exige alguém mais casca grossa no comando”, avaliou uma fonte ao lembrar que a ex-secretária da Fazenda Ana Paula Vescovi tinha esse perfil.
Uma outra fonte reforça o pulso firme que a função exige. “O secretário da Fazenda não tem que ser benquisto. Ele é o cara que vai dizer não para outras secretarias do governo e para os lobistas, além de ter que lidar com secretários de outros Estados defendendo os interesses locais. Não sei se um cara que sempre atuou com processos mais internos é o perfil adequado. Avalio que o novo governador deveria ter feito a escolha de um secretário com formação na área e com histórico público de defesa do equilíbrio fiscal. Até pelas críticas que Casagrande enfrentou ao ter deixado o governo, em 2014, ele podia ter sido mais assertivo na decisão. Essa certamente não foi uma indicação esperada.”
O governador, durante a apresentação do secretário, depositou suas fichas na capacidade do engenheiro e afirmou que ele tende a agregar muito à Sefaz em questões como informatização, transparência e melhorias de processos. Por esse lado, há quem considere que realmente o novato poderá representar avanços importantes. “Fato é que há certo atraso de modernização tecnológica na Sefaz. A indicação de um profissional dessa área pode contribuir com melhorias.”
Outra fonte discorda que o caminho de atuação deva ser esse. Para um crítico, se for para desenvolver ferramentas de tecnologia da informação era melhor que ele fosse gerente dessa área dentro da Fazenda e não manda-chuvas da pasta. “Como secretário ele não vai ter tempo para se dedicar a isso. Ele estará envolvido em reuniões e na tomada de decisões”, pontua ao citar que, durante o pouco mais de um ano de trabalho efetivo no Tribunal de Contas, ele contribuiu para o desenvolvimento de projetos, mas nunca esteve ligado a uma área mais de análise e gestão.
Outro alerta vem da diferença que é administrar o caixa de uma prefeitura, que teve em 2017 uma despesa liquidada da ordem de R$ 356 milhões, para controlar o cofre do Estado, que no mesmo período teve despesas de R$ 14,4 bilhões. “Ou seja, a despesa de Cachoeiro representa apenas 2% da do Espírito Santo, que é 41 vezes maior. É como ele saísse de uma microempresa para assumir a chefia de uma multinacional”, compara uma fonte.
É inegável que o cargo que Pegoretti assume a partir de 1º de janeiro de 2019 requer conhecimento, traquejo e experiência. O quanto ele vai estar familiarizado com esses quesitos, a sua gestão vai dizer. Por enquanto, é preciso dar um voto de confiança. Bons exemplos de pessoas fora da área que souberam lidar com as finanças não faltam. Fernando Henrique Cardoso é sociólogo, mas deixou na história sua contribuição como ministro da Fazenda e com o Plano Real. Por que um engenheiro não daria conta? O tempo e o orçamento público vão dizer.
Eco$nomia - Tirinha do Arabson - 02/11/2018 Crédito: Arabson

Beatriz Seixas

Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

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