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Economia criativa

Qual é a relevância social da produção artística e cultural no mundo atual?

A atividade artística tem fundamental importância terapêutica, mas também é uma área estratégica para lidar com o desemprego em geral, mas principalmente em setores como o industrial e o agrícola

Publicado em 20 de Fevereiro de 2020 às 05:00

Públicado em 

20 fev 2020 às 05:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

tbahia65@gmail.com

Economia criativa reúne os negócios e atividades desenvolvidas a partir do capital cultural humano Crédito: Tulio Filho
O carnaval, a maior festa popular brasileira, tem nas escolas de samba do Rio de Janeiro, mas também nas de São Paulo e de Vitória, uma expressão de pura alegria e criatividade, que se somam a um importante componente que é a economia, mais precisamente à Economia Criativa. E parafraseando Richard Florida, quando diz que o “homo creativus é também o homo urbanus”, cabe enfatizar que a Economia Criativa terá um papel cada vez mais relevante nas sociedades urbanas, e que hoje já é mais de 80% da população brasileira.
Conceito inicialmente adotado no Reino Unido e na Austrália, a Economia Criativa reúne os negócios e atividades desenvolvidas a partir do capital cultural humano, abrangendo áreas como Arquitetura, Artes Cênicas, Audiovisual, bem como Música, Publicidade & Marketing, e que está estimado em quase 3% do PIB brasileiro.
Com as novas tecnologias, setores produtivos como a indústria e o agronegócio, que fazem uso cada vez mais intenso de maquinários, demandarão menor quantidade de mão de obra. Nos chãos de fábricas, robôs fazem a tarefa que antes era realizada por vários operários, e com mais produtividade, sem salários, encargos trabalhistas, ações na justiça ou ausência por problemas de saúde. Esta triste e inevitável realidade será responsável pela diminuição de centenas de milhares de empregos e postos de trabalho em todo o mundo, e não só no Brasil.
O aumento no número de pessoas desocupadas é um problema que será uma das maiores preocupações dos governos nas próximas décadas, afinal não há como deixa-las sem nenhuma atividade ou renda, pois as consequências podem ser ainda piores, derivando para um colapso social e em seguida para outro colapso, o da violência urbana, e que não interessa a ninguém, nem mesmo aos economicamente privilegiados.
Se antes a Arte, em suas diversas categorias, era vista exclusivamente como processo poético-interpretativo do mundo real, oferecendo uma visão alternativa crítica dele, hoje também podemos argumentar que a atividade artística tem fundamental importância terapêutica para quem a pratica, seja profissional ou não, bem como para quem a disfruta. Trata-se, portanto, de uma área estratégica para lidar com o desemprego em geral, mas principalmente em setores como o industrial e o agrícola.
No entanto, pelo viés da Economia Criativa, o que interessa mesmo é a relevância econômica (e, consequentemente, a relevância social) que a produção artística e cultural apresenta no mundo atual.
Peguemos como exemplo a música, ou melhor, o samba que anima as escolas de samba. Uma ala de bateria de uma escola de samba é composta por dezenas de instrumentistas, dos quais muitos são jovens e que, deste modo, realizam uma atividade lúdica e não ficam à toa, situação que evita que sejam captados para atuar em atividades ilícitas.
Mas voltando à questão econômica, quantos instrumentos são vendidos para que eles possam participar da bateria? A venda de instrumentos movimenta a atividade econômica de lojas e fábricas de instrumentos musicais, sem falar no setor de transporte de mercadorias, que leva tais instrumentos da fábrica para as lojas.
E o que dizer do setor audiovisual, com a produção de filmes e clips? Trata-se de uma atividade que engloba diversos profissionais, com diversas especificidades, que vai do diretor, ator e produtor, ao operador de câmera, figurinista e cabeleireiro, e até mesmo advogados e profissionais de marketing. E, do mesmo modo que no exemplo da música, inclui uma série de fornecedores de equipamentos e suprimentos que vem a reboque para que a atividade possa ocorrer de modo satisfatório. Por fim, ainda existe a veiculação, em diversos tipos de mídia, que hoje vai do cinema à internet, passando pela televisão.
E tudo isto está conjugado num evento como é o carnaval.
Além disso tudo, o carnaval atrai muitos turistas, que se hospedam em hotéis e comem em restaurantes da cidade aonde a festa ocorre, movimentando a rede que conforma a Economia Criativa, uma vez que o Turismo e a Gastronomia também estão atrelados a ela.
Enfim, deixemos o trabalho pesado para as máquinas, pois chegou a hora da diversão pra uns, e de ganhar dinheiro para outros.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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