“A guerra entre traficantes rivais dos morros da Piedade e da Fonte Grande, no Centro de Vitória, parece não ter fim.” A frase poderia iniciar o relato dos fatos recentes nos bairros, retratados nesta segunda-feira (11) no Gazeta Online, mas são de uma reportagem de 2010. Podemos voltar ainda mais no tempo, a fevereiro de 2002, quando uma operação policial subiu o morro após facções ameaçarem moradores. Ou a março de 2001, quando menores armados aterrorizavam a região.
Mortes, tiroteios e terror no local correm os calendários. Lamentavelmente, são uma realidade muito antes do extermínio dos irmãos Damião e Ruan Reis, em março deste ano, e de Lucas Verli, em maio – crimes ainda sem solução – e de tantas outras vítimas do descalabro da violência urbana.
Nos últimos anos, este jornal também registrou a cobrança dos moradores por água, escolas e ônibus. Em 2002, o clamor era pela instalação de um mero orelhão, para que pudessem pedir socorro à polícia. Essas reivindicações mostram o estado de indigência de direitos a que estão sujeitas as comunidades da Piedade e de outros bairros da periferia da Grande Vitória, que provam a completa ausência do Estado.
Diante do drama crônico e cansados de esperar solução, como mostra o mínimo retrospecto acima, moradores fogem da Piedade, carregando móveis e eletrodomésticos nas costas. A cena é cortante, mas uma autoridade policial a definiu como “livre-arbítrio”. Como se fosse uma escolha banal abandonar sua casa, e não a única saída para escapar do pânico imposto pela guerra do tráfico.
O descaso das autoridades e a falência de políticas públicas criam um ambiente de extrema vulnerabilidade, que retroalimenta a violência. É aterrador comprovar que a miséria social há anos corrói a dignidade e a cidadania dos moradores, sem que nada de concreto seja feito. E nesse caso, autoridades, os senhores não têm livre-arbítrio. Têm o dever constitucional de zelar pelo bem-estar do povo.