A tese não é nova e foi levantada pela primeira vez em 2016, por Lula, certamente incomodado pelas investigações da Lava Jato que o levaram à prisão dois anos depois. Em entrevista, ele afirmou que “a economia está sofrendo com a investigação (da Lava Jato) que paralisa setores importantes (...), e quanto isso terminar você pode ter milhões de desempregados neste país”.
Que Lula pensasse – e provavelmente ainda pensa – assim é compreensível até porque ele sempre esteve no centro das investigações já que era o presidente da República na época em que ocorreram os desvios bilionários de recursos públicos de empresas estatais, principalmente na Petrobras, que deram origem ao escândalo conhecido como “petrolão”. E argumentar que a Lava Jato acabaria com as empresas investigadas era uma forma de tentar desmerecer a operação.
O que é de se admirar é que alguém que ocupa o principal posto da Justiça brasileira venha a repetir a tese três anos depois. Foi o que ocorreu em entrevista concedida ao jornal “O Estado de São Paulo”, no último dia 16, pelo presidente do Supremo Tribunal Federal. Disse ele que a Lava Jato “foi muito importante” mas “destruiu empresas”.
Ora, o que destruiu as empresas condenadas pela Lava Jato foi a corrupção cometida por elas em conluio com autoridades públicas que, uma vez desvendada, já representou a recuperação de mais de R$ 14 bilhões para os cofres públicos. O que a Lava Jato fez foi implodir esse esquema de corrupção sistêmica, como diz o ministro Luís Roberto Barroso. Querer culpar a Lava Jato pela quebradeira das empresas corruptas e corruptoras é, como afirmou um consultor do mercado financeiro, “culpar o médico por ter descoberto a doença do paciente”.
Acabar com a corrupção só tem consequências positivas. Alessandra Ribeira, da Tendências Consultoria, lembra que “sem o custo da corrupção, as obras tendem a se aproximar de preços mais justos, mais alinhados a fundamentos do mercado e serem finalizadas mais rapidamente” ajudando a economia. Outro consultor argumenta que a prática da corrupção nas empresas leva “à má gestão e a decisões equivocadas” como a do “acordo de companheiros feito para saquear a principal empresa do país”.
Por essas razões, é um absurdo alguém, principalmente um integrante da Justiça, vir a pensar que há algum mal em punir as práticas corruptas de algumas empresas. Como afirmou Simão Silber, da USP, “não é a Justiça a culpada (pelo fechamento das empresas), é o malfeito que está sendo investigado o grande problema”.
Quem quebrou as empresas corruptas não foi a Lava Jato. Foi a corrupção que a Lava Jato escancarou, comprovou e puniu.