Uma matéria publicada no dia 13 de janeiro na Rádio França Internacional (RFI) traz como destaque uma página do jornal francês "Le Monde" sobre a economia brasileira. A matéria lança dúvidas sobre a recuperação brasileira da crise na qual a economia está mergulhada desde 2015. O tema divide os analistas, porém, é fato que o avanço da precarização do mercado de trabalho levanta preocupações adicionais. Segundo o IBGE, a desigualdade de renda, medida pelo índice de Gini, cresceu desde 2016 no Brasil.
De acordo com a matéria, Le Monde questiona: “As Bolsonomics – o nome dado às medidas econômicas adotadas pelo executivo – são eficazes?” Dificilmente se pode negar que tais medidas representam o aprofundamento das políticas neoliberais seguidas no governo anterior, de Michel Temer.
A divisão das opiniões sobre a real eficácia das mesmas é nítida entre as correntes do pensamento econômico e essas diferenças se explicitam no campo do jogo político. Como diria John M. Keynes, no longo prazo estaremos todos mortos.
A centro-direita brasileira, que se autodenominou de centro democrático, compreende que essas medidas econômicas são “boas”, porém, ela critica a retórica do governo e os seus posicionamentos relativos ao meio ambiente e à cultura, por exemplo. Muitos dos seus experientes integrantes cerraram fileiras em torno de um famoso e popular apresentador de programa de auditório, que não possui a qualificação política necessária para postular a Presidência da República.
Afinal, qual é a real distância estrutural do ponto de vista do projeto econômico e social desse movimento em relação ao modelo neoliberal implementado na ditadura do general Pinochet, no Chile, cuja redemocratização foi tutelada pelo ditador, pelas Forças Armadas e o poder econômico privilegiado na ditadura?
Desindustrializado precocemente, o Brasil enfrenta grandes desafios para modernizar a sua estrutura produtiva, que é de baixa complexidade econômica e que possui características intrínsecas de extrema concentração de renda. “Muitos investidores relutam em investir no Brasil do altamente imprevisível Bolsonaro”, diz Le Monde.
A pobreza extrema atinge 13,5 milhões de cidadãos, que sobrevivem com menos de R$ 145 por mês. O projeto ideológico ultraliberal em curso não oferece luz no fim do túnel e já são escutados ruídos de que a democracia o atrapalha.
Para este ano, o ministro da Economia planeja privatizar ou vender ações estatais de quase 300 empresas (incluindo a Eletrobras). Qual é mesmo a visão estratégica de país nesse projeto e quais são as reais salvaguardas de defesa da soberania nacional em um mundo no qual o neoliberalismo é tão questionado?
Conforme aponta a matéria, “a desaceleração global poderá pesar bastante sobre a economia brasileira. De Brasília, observamos com ansiedade a guerra comercial sino-americana (os dois primeiros parceiros comerciais do país), mas também um possível confronto militar no Oriente Médio que provavelmente aumentará perigosamente o preço do petróleo”.
O Brasil vem vivendo um processo de rebaixamento das expectativas nos últimos anos. Nesse sentido, em um ano eleitoral, de disputas municipais, tal fato poderá reforçar a onda populista de extrema-direita entre nós. Afinal, não convém olvidar que essa onda populista global deriva do aprofundamento das políticas neoliberais em diversos países, com características diferenciadas, conforme vem apontando o professor Dani Rodrik, da Universidade de Harvard.
Segundo pondera o acadêmico, em artigo recente no site "Project Syndicate", há “um conjunto específico de ideias econômicas que privilegiam o mercado livre, juntamente com uma obsessão por indicadores materiais como produtividade agregada e PIB, que alimentaram uma epidemia de suicídio, overdose de drogas e alcoolismo entre a classe trabalhadora norte-americana. O capitalismo não está mais cumprindo suas promessas, e a economia é, no mínimo, cúmplice”.
No Brasil, o apoio organizado para festejar a “recuperação” vem se processando como ilusão e ideologia. A alternativa "centrista" em gestação, por sua vez, propõe publicamente, até o momento, a mesma linha básica de aprofundamento do neoliberalismo, algo que na Primeira República (1889-1930), oligárquica e antissocial, tinha o respaldo ideológico do darwinismo social.
Os resultados reformistas objetivos desde 2016 são muito ruins, tanto do ponto de vista do crescimento econômico como do ponto de vista social. Não há surpresa para muitos de nós. Resta saber o que será usado para justificar mais uma rodada de frustração de expectativas. A próxima necessidade de reforma?