Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

  • Início
  • Renúncia da chapa de Erick: pressão do governo ficou insuportável
Palácio jogou pesado

Renúncia da chapa de Erick: pressão do governo ficou insuportável

A reação do Palácio Anchieta, conduzida pessoalmente por Casagrande, incluiu uma articulação política forte com os demais Poderes e instituições do Estado. Nos últimos dias, ele reuniu-se com a cúpula do Tribunal de Justiça, do Tribunal de Contas e do MPES

Publicado em 05 de Dezembro de 2019 às 08:00

Públicado em 

05 dez 2019 às 08:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Pressão de Casagrande levou Erick Musso a renunciar a eleição tão antecipada Crédito: Amarildo
Ninguém desafia o governo – pelo menos não com tamanha ousadia – e sai impune e ileso por isso. A máquina do Executivo é muito forte e, quando quer, o governo Casagrande não só pode como vai jogar pesado para alcançar as vitórias políticas almejadas, ainda que isso signifique virar o jogo aos 49' do segundo tempo ou levar a partida para a prorrogação a fim de reverter uma derrota certa. Ou mesmo que signifique levar a decisão para o tapetão. Foi esse o recado que o governo Casagrande transmitiu, a Erick Musso e a toda a sociedade capixaba, com a intensa movimentação de bastidores que culminou com o recuo e a renúncia coletiva da chapa liderada por Erickeleita no último dia 27 para dirigir a Mesa Diretora da Assembleia no biênio 2021-2023, com mais de 400 dias de antecipação.
Vinda de várias frentes – mas coordenada pelo Palácio Anchieta –, a pressão sobre Erick foi muito grande, a ponto de fazer-se insustentável. A reação do Palácio, conduzida pessoalmente por Casagrande, incluiu uma articulação política forte com os demais Poderes e instituições do Estado. Desde a "bola nas costas" que tomou de Erick no meio deste jogo, o governador não voltou a conversar com o chefe do Legislativo. Escolheu outros interlocutores. Chamou, para conversas individuais em seu gabinete entre segunda (2) e terça-feira (3), os representantes do Ministério Público Estadual, a cúpula do Tribunal de Justiça do Estado e o novo chefe do Tribunal de Contas do Estado, Rodrigo Chamoun (um antigo aliado de Casagrande).
Por prudência ditada pela sensatez política – em contraste com a impulsividade demonstrada uma semana antes ao convocar, de surpresa, e eleição a jato –, Erick Musso achou por bem distensionar a corda desse cabo de guerra, a qual, se rompida, poderia explodir de vez a relação institucional já abalada entre os Poderes Legislativo e Executivo no Espírito Santo.
No Palácio Anchieta, a percepção geral é a de que essa reeleição antecipada de Erick era absolutamente "ilegítima" – senão também ilegal –, pela maneira como foi conduzida e consumada, às costas do governo e à custa da palavra empenhada e do pacto não escrito de confiança mútua entre os chefes dos dois Poderes – o qual já não existe, rasgado que foi pelo presidente da Assembleia nesse episódio, segundo a visão predominante no governo Casagrande.
O governo e, muito particularmente, o governador jamais digeriram a manobra protagonizada por Erick (com ajuda, direta ou indireta, dos deputados Marcelo Santos e Enivaldo dos Anjos) para assegurar-se a própria permanência no poder, na hierarquia da Assembleia, pelo menos até 2023. Para ser mais preciso, antes mesmo de poder digerir, o governador jamais engoliu isso. A reeleição surpresa de Erick, com tamanha antecedência e com amplo apoio da própria base de Casagrande, foi uma humilhação imposta a ele pelo jovem e impetuoso presidente do Legislativo. Era, até esta quarta (4), uma espinha na garganta do governador. Ou, na definição de um deputado governista, "uma faca cravada [por Erick] nas costas de Renato".
Na última segunda-feira (2), forçado a ficar ao lado de Erick na mesa de autoridades, durante a posse de Chamoun no TCES, Casagrande, normalmente afável e bem-humorado, estava mesmo irreconhecivelmente tenso, com o semblante cerrado e fechado. Cara de quem parecia realmente carregar um punhal nas costas (ou queria enfiar um em alguém).
Renato Casagrande, Sérgio Aboudib e Erick Musso durante solenidade no Tribunal de Contas nesta semana Crédito: Colaborador da coluna

O ACORDO E O DESACORDO

Desde o fatídico episódio da reeleição surpresa, conforme a coluna apurou, Casagrande sentiu-se mesmo apunhalado por Erick. Segundo interlocutores do governador, o presidente da Assembleia, na visão de Casagrande, quebrou um acordo verbal estabelecido entre os chefes dos dois Poderes. Como chegou a manifestar publicamente mais de uma vez, o governador nunca foi fã da ideia de Erick de permitir a antecipação da eleição da próxima Mesa (2021-2023). Mas engoliu em seco e topou “deixar” que Erick seguisse em frente com sua PEC. Não mobilizou nem orientou sua base no plenário a votar contra a proposta. Base liberada, caminho livre para Erick. E assim foi feito: a PEC passou e Erick mexeu na Constituição, como queria.
Houve duas condições, porém: 1) que Erick desse tramitação ágil aos projetos prioritários do governo neste fim de ano (reforma da Previdência no topo da lista); 2) que Erick avisasse com antecedência e fechasse uma data, em consenso com o governador, para realizar, em 2020, a eleição da Mesa de 2021-2023. Em 2020! Da reunião em que fecharam tal acordo, há cerca de 15 dias, também participaram os secretários Tyago Hoffmann (Governo) e Davi Diniz (Casa Civil), pelo lado do governo; o deputado federal Amaro Neto e o diretor-geral da Assembleia, Roberto Carneiro, pelo lado de Erick.
Na presença de Davi Diniz, de Marcelo Santos e de Enivaldo dos Anjos, Casagrande e Erick voltaram a conversar no dia 26, um dia após a aprovação da "Emenda Musso". Erick queria fazer a eleição da Mesa logo. Casagrande pediu a ele para deixar para 1º de agosto de 2020. Erick propôs 1º de fevereiro. Os dois não chegaram a um consenso. Ficaram de voltar a dialogar para encontrar uma data consensual. No dia seguinte, veio a surpresa: Erick convocou a eleição, conseguindo uma façanha rara: pegar o governo desprevenido.
Mas houve troco.

A REAÇÃO PESADA DO PALÁCIO

No mesmo dia (27), Casagrande marcou posição, declarando à coluna que aquela eleição da Mesa fragilizava a Assembleia como instituição. E se, na manhã da eleição, o governo não teve tempo para reagir e organizar um contra-ataque, nos dias seguintes pôs em curso uma intensa operação de bastidores, liderada pessoalmente pelo governador, para barrar esse processo na Justiça e, ao mesmo tempo, provocar uma condenação pública à reeleição antecipada de Erick, por parte de autoridades de Poderes, de instituições e da sociedade civil capixaba. Isso já estava em andamento.
O governo não o admite, a OAB-ES jamais o fará, mas a ação civil pública movida pela entidade tem indícios de influência do governo. Em declaração dada para A Gazeta, quando explicou a ação, o presidente da Ordem, José Carlos Rizk Filho, deixou escapar que recebeu pressões "de todos os lados", tanto de agentes do governo como de parlamentares, procurando-o via WhatsApp. Até a Arquidiocese de Vitória engrossou o coro condenatório. Independentemente do grau de espontaneidade ou do dedo do governo nessas reações, o fato é que entidades da sociedade civil começaram a gritar: não vamos mais admitir esse tipo de manobra casuísta na Assembleia, que remonta a tempos sombrios do passado.
Em paralelo, o próprio Casagrande, pessoalmente, e emissários do governador (Davi Diniz, sobretudo) entraram em contato com deputados da situação para reorganizar sua base na Assembleia e "repactuar" sua relação política com eles. "Repactuar" é uma palavra bonita para substituir "colocar os deputados da base no seu lugar" e lembrar-lhes o quanto dependem da mão amiga do Executivo.
Muitos desses deputados são pré-candidatos a prefeito nos respectivos redutos em 2020. Nenhum deles é louco para abrir mão de benesses do governo (emendas, cargos, a chance de mostrar a suas bases prestígio junto ao Executivo). O governo, como eu disse, pode jogar pesado, quando quer, com os instrumentos que possui (e não são poucos). Cobrou de todos lealdade e disciplina – se querem mesmo receber o que esperam… Muitos desses deputados agiram, então, junto a Erick, como a "turma do deixa disso", buscando convencê-lo a dar um passo atrás.
Em nome do governador, secretários também reabriram conversas com Marcelo Santos e Enivaldo, cuja influência sobre Erick é conhecida por todos, de modo que a dupla de conselheiros também entrasse na operação de convencimento para o presidente voltar atrás.
Tudo isso considerado, Erick pode até ter pensado que o jogo estava encerrado com seu discurso pós-reeleição dia 27. O governo só estava indo para o vestiário para voltar com força no segundo tempo.
Mas o jogo só termina quando acaba. E, aliás, pode nem sequer ter acabado. É o que veremos aqui em breve.

O CARTÃO VERMELHO PARA ENIVALDO

A própria derrubada de Enivaldo, no último sábado (30), do posto de líder do governo, somou-se a todo esse conjunto de recados, mais ou menos explícitos, transmitidos pelo governo após a vitória parcial de Erick, de que não aceitaria mais nenhum tipo de insubordinação ou de surpresinha desagradável por parte da base no plenário. Há controvérsias sobre o grau de responsabilidade, desobediência e infidelidade de Enivaldo na manhã da reeleição precoce de Erick. Mas é aquela história: quando o time todo joga contra o treinador, o capitão perde a faixa. Sobrou para Enivaldo. O líder do governo caiu porque precisava cair. Se não fizesse isso, Casagrande teria dado o sinal contrário, de fraqueza: o de que estaria disposto a absorver novos atos de rebeldia do seu líder e da sua base.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Senador Magno Malta é internado em hospital após passar mal
Magno Malta é internado em hospital após passar mal em Brasília
Estúdio da rádio CBN Vitória
CBN Vitória completa 30 anos com abraços sonoros no capixaba
Imagem de destaque
Vale prevê investir cerca de R$ 12 bilhões até 2030 no ES

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados