Por Juliana Araujo
Autora convidada
Autora convidada
Nem sempre foi assim, mas há tempos sou muito bem resolvida com a cor da minha pele e com os meus cabelos enrolados. Sempre transitei do bairro de periferia, onde cresci, à casa das amigas ricas expondo minha melanina e meus cachos sem constrangimento algum. Talvez tenha sido assim só porque nunca eu tenha sentido tão veementemente a crueldade com que são tratados meus irmãos de cor. Na UFES eu era a única negra de uma sala de 40 no curso de publicidade e propaganda. Lembro de no dia da matrícula ter passado pela minha cabeça: será que vou ser aceita?
Nunca fui xingada, desrespeitada ou preterida, não escancaradamente. As vezes algum olhar nas lojas... mas sempre achei que o problema estava com quem pensava assim e não com o tom da minha pele. Não posso deixar de achar que sou privilegiada. Mas isso não me causa menos dor e indignação.
Mas um episódio em especial preciso ressaltar: já estava no mercado de publicidade como redatora havia uns bons anos e trabalhava em uma agência grande daqui de Vitória. Numa manhã eu estava na cozinha da empresa pegando água, bem arrumada, maquiada, de salto superalto, quando meu chefe veio apresentar o novo diretor de arte que acabara de chegar de São Paulo. Ele estendeu a mão pra mim com um sorriso e perguntou: você é quem faz o nosso almoço? Na hora eu não realizei muito bem o que estava implícito naquela declaração. Respondi tranquila e sorridente: não, eu sou redatora e por acaso vou ser sua dupla de criação!
Estamos em 2020 e é surreal que com tanto conhecimento disponível as pessoas ainda pensem assim. Eles são piores do que acham que somos.