O ano era 1955, e em um morro próximo ao Centro de Vitória surgia a primeira escola de samba capixaba, a Unidos da Piedade. Pelas mãos habilidosas da costureira Maria dos Anjos Martins, a agremiação ganhou sua primeira bandeira, o símbolo maior de uma escola, em que se concentra o amor e o respeito à comunidade e ao carnaval. É o ofício de costureira sempre presente na construção da história do carnaval.
“A escola não tinha uma bandeira, então falei que eu poderia fazer. Não foi um trabalho igual o das grandes costureiras, mas fiz com muito carinho e todo mundo gostou. Elogiavam muito, mas não sei se era para me agradar”, disse com entusiasmo Maria dos Anjos, conhecida pelo apelido de Anjinha.
Aos 93 anos, Anjinha vive no Asilo de idosos, na Ilha de Monte Belo, em Vitória, e se emociona quando relembra o passado como costureira de vários carnavais. Como na avenida a bandeira – também chamada de pavilhão – é conduzida pelo casal de mestre-sala e porta-bandeira, dona Anjinha recebeu, no asilo, a visita da segunda porta-bandeira da Piedade, Andressa Cadete, que levou a bandeira da escola para a sessão de fotos.
“Fiquei muito emocionada. É gratificante conhecer a pessoa que criou a primeira bandeira que carrego com tanto amor, além de saber que ela morou no mesmo bairro em que fui criada”, disse Andressa, que, assim como Anjinha, cresceu no bairro Itanguá, em Cariacica.
A aptidão pela costura acompanha Anjinha desde os 11 anos de idade. Além de fazer fantasias para o carnaval, ela já vestiu damas e cavalheiros para festas, aniversários e casamentos. “Eu mesma costurava os modelinhos da minha cabeça. Eu inventava muita coisa e minha professora ficava encantada. Depois, costurando na Piedade, fiz uma dama antiga linda para colocar na avenida ”, relembra Anjinha.
Sabemos que no carnaval o trabalho das costureiras é em ritmo acelerado. A paixão pela escola se manifesta a cada corte e ponto na costura, e também na torcida para se conquistar o título e com samba no pé avenida. Depois dos longos dias de trabalho, Anjinha não gostava de desfilar, mas fazia questão de ver a escola do coração da arquibancada. “Eu nunca desfilei, só ia com minhas amigas e irmãs para ver a escola desfilar. Uma vez fiz uma grande bandeira para levar para a arquibancada e todos que passam me viam”, relembra Anjinha emocionada.
Costureira e carnavalesca
Não foram apenas as fantasias feitas pelas mãos da costureira Elizeia Baptista, de 70 anos, que fizeram histórias no Carnaval de Vitória. Ela foi tricampeã como carnavalesca da São Torquato, escola de samba de Vila Velha que conquistou o título em 1981, 1982 e 1983, época em que os desfiles eram realizados na avenida Princesa Isabel, na Capital.
“Sou professora, então trabalhava na escola do bairro São Torquato. Fazia o desfile de 23 de maio, as festividades da comunidade, aí resolveram me colocar como a carnavalesca oficial da escola”, relembra Elizeia.
No ofício como costureira, Elizeia desenhava e construía fantasia, trabalho que leva com entusiasmo até depois de se aposentar. A São Torquato parou de desfilar uma época, mas a costureira e ex-carnavalesca continuou no mundo do samba com trabalhos desenvolvidos na Pega no Samba, Piedade e Imperatriz do Forte. “Fui chamada para trabalhar em outras escolas porque, além de costurar, também sou aderecista”. disse
Elizeia se especializou na confecção das fantasias volumosas das baianas, que no carnaval do ano passado ganhou o prêmio de melhor ala dos desfiles. Peças que ficaram prontas no terraço de sua casa, em São Torquato, Vila Velha.
“Aqui é mai fresco. Comecei a fazer a ala no dia 15 de outubro e está tudo pronto. E para fazer preciso de tempo. Não pode ser na correria, porque é muito detalhe. Passei fios de náilon em várias partes do vestido”, explicou.
Duas mãos, 12 alas
No bairro Inhanguetá, em Vitória, a costureira Jesuína Rodrigues Salomão trabalha firme na confecção das fantasias de 12 alas para a escola de Samba Imperatriz do Forte. Em sua casa, três máquinas de costuras são usadas por suas mãos habilidosas para costura e acabamentos de peças importantes para a escola, como as fantasias da comissão de frente.
Jesuína, de 62 anos, é conhecida no Carnaval de Vitória e disputada pelas agremiações. Ela começou a costurar para a Pega no Samba, em 1982. Na época eram poucos pedidos, mas ela tomou gosto pelo trabalho e não parou mais.
“Essa demanda surgiu quando eles mandaram umas peças para eu fazer. Gostei e comecei a pegar as alas. Pegava duas, três e quando vi foi aumentando. Teve um ano que fiz a escola inteira”, relembra.
Jesuína trabalha há três anos na Imperatriz do Forte. Fica ansiosa para chegar dezembro e se dedicar a sua paixão de criar fantasias. As comemorações de fim de ano, como Natal e Ano Novo, ficam até em segundo plano e as idas à praia nesse calorão só após ter as alas todas prontas. “Fico o ano todo esperando chegar dezembro, janeiro e fevereiro. Não saio pra lugar nenhum, não vou em praia, nem em festas, é só carnaval”.
Fantasias e alegorias contam ponto na avenida e, por isso, realizar um trabalho impecável é o objetivo das diversas costureiras desse carnaval. Jesuína conhece bem essa responsabilidade. No dia do desfile é chegar e sentar na arquibancada para ver o que está certo e o que está errado. Fico ligada nos comentários, nas notas. E no outro ano me dedico mas naquilo que o povo gostou”.
44 carnavais como costureira do samba
Na casa de dona Marlene Souza Santana, no bairro Gurigica, em Vitória, o trabalho segue a todo vapor. Em um dos quartos, em frente à sua máquina de costura, ela esbanja alegria e satisfação na confecção das fantasias da bateria e da velha guarda da Novo Império.
Marlene tem 70 anos e em 2019 completa 44 carnavais como costureira do samba. Durante todo esse tempo dedicado a costura já perdeu as conta da quantidade de fantasias que já passou por suas mãos habilidosas. Imperiana de coração, ela já coordenou até o barracão de costura e adereços da escola.
“Eu fazia a escola inteira, todas as alas. Já teve época que coloquei a escola toda na avenida em dois meses. Quando eu era nova, trabalhava dia e noite e tinha uma equipe de 23 pessoas no barracão. Eu ia de mudança, com geladeira, colchão e fogão”, relembra Marlene com entusiasmo e brilho nos olhos.
A costureira apaixonada pelo samba trabalha apenas há seis anos em casa. Local que, segundo ela, vira uma verdadeira zona a poucos dias dos desfiles. “Está uma zorra isso aqui. Nesse quarto ninguém nem consegue andar de tanta bagunça, mas, de vez em quando, um amigo vem aqui e passa uma vassoura, um pano para a gente andar”, brinca Marlene, que esse ano vai confeccionar cerca de 200 fantasias, número pequeno comparado ao trabalho de outros carnavais.
Há mais de 40 anos no Carnaval de Vitória, Marlene foi costureira de várias agremiações, e se lembra dos desfiles na avenida Reta da Penha, na década de 80 e Princesa Isabel e Jerônimo Monteiro, no Centro de Vitória, nos anos seguintes. Naquela época as apresentações eram feitas também durante o dia.
“Lembro quando o carnaval era na Reta da Penha e a Novo Império desfilou com o enredo ‘O gigante adormecido’. Perdemos para a Piedade. Desfilamos de manhã cedo no sol quente e a Piedade ganhou por meio ponto”, relembra Marlene.
A ansiedade de Marlene não é apenas preocupação com a confecção das fantasias em tempo hábil. Depois de tanto trabalho, ela faz questão participar do desfile no Sambão do Povo da Novo Império. E, claro, faz sua própria fantasia.
“Este ano vou sair no segundo carro. Vou perder depois de trabalhar tanto? Desfilo até dormindo em cima do carro”.