Uma das grandes surpresas da
Independentes de São Torquato para a sua volta ao Grupo Especial no Sambão do Povo, depois de 13 anos afastada da elite, é uma ala com 40 componentes formada por surdos.
O grupo será auxiliado por alguns intérpretes de
Libras (Língua Brasileira de Sinais), na própria ala, e pelo professor Josué Rêgo da Silva, tradutor e intérprete de Libras do campus do Ifes na Serra. Ele terá o apoio de Leonardo Lúcio, professor de Libras da Ufes, e virá acompanhando Ricardinho, o intérprete de samba oficial da escola de Vila Velha, durante todo a apresentação da agremiação na avenida.
O professor Josué fará todo o samba da São Torquato em Libras durante o desfile, para os surdos que estão na avenida, nas arquibancadas e em casa vendo o espetáculo pela
TV Gazeta.
Folião há mais de 10 anos na passarela do samba, Josué traduziu para a língua especial o samba da Piedade no ano passado. “Sempre desfilo e vejo um surdo. Assim, tentei, de uma maneira informal, aproximar mais os surdos para que eles compreendam melhor o carnaval”, explica Josué.
A experiência com a Piedade rendeu frutos, e veio o convite da tradicional escola de samba de Vila Velha, sétima e última a desfilar no sábado, no Grupo Especial. “Neste ano surgiu a proposta da São Torquato, que tem uma prática de inclusão muito forte. Na escola tem crianças com Síndrome de Down, tem deficiente na bateria, e agora abriu-se a oportunidade de ter surdos desfilando pela escola.”
Ontem (12), Josué gravou o samba em Libras e o disponibilizou no YouTube. Segundo ele, os surdos participaram do ensaio técnico no Sambão e já sabem o samba da São Torquato, cujo enredo é “O Portal das Ilusões”.
Não é fácil o trabalho fazer a tradução e interpretação do samba, tarefa cumprida em dois meses pelo especialista: “Não é só chegar e interpretar, porque estamos falando de modalidades linguísticas diferentes. A gente pega uma modalidade oral e auditiva, que usa esses dois sentidos, para passar para uma outra língua, que é de uma modalidade visual e espacial, que não tem audição”.
As características da música, explica Josué, têm que ser observadas também em Libras: “O desafio é passar a questão musical, o ritmo, a poesia e a rima para a língua de sinais, que envolve muito mais do que as mãos. Está em jogo a questão corporal, a facial. A São Torquato vai ser pioneira, tenho falado isso no Brasil todo”, comemora.
“Quando o público olhar o carro de som da São Torquato vai ver o intérprete oficial da escola falando a língua cartorial do Brasil, que é a Língua Portuguesa, e vai ver o intérprete de Libras, que é a segunda língua reconhecida no país. As duas línguas faladas no Brasil, de forma oficial, vão estar presentes no desfile da São Torquato”, destaca Josué, cujos pais e outros parentes são surdos.