A morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de 22 anos, no sábado (23), voltou a provocar discussões sobre o uso de substâncias no esporte. Até o momento, a causa da morte do atleta não foi oficialmente divulgada.
Segundo alguns veículos, como a coluna Músculo da Folha de S. Paulo, e o portal Leo Dias, uma das suspeitas mais fortes seria a hipoglicemia provocada pelo uso inadequado de insulina para ganho de massa muscular. Mas não há informações oficiais ou laudo divulgado que confirmem a causa mortis.
Em um video publicado há três meses em uma das suas redes sociais, Ganley aparece mostrando ao público a sua rotina. Em um dos trechos, ele apresenta medicamentos que consumia diariamente, entre eles, um para "sensibilidade à insulina" e outro relacionado a "açúcar no sangue".
Produzida pelo pâncreas, a insulina tem como principal função controlar os níveis de açúcar no sangue. Segundo a endocrinologista Gisele Dazzi, da Rede Meridional, ela atua levando a glicose para dentro das células, permitindo que o organismo utilize essa substância como fonte de energia.
“A insulina é um hormônio responsável por controlar os níveis de glicose no sangue. Quando nos alimentamos, a glicose aumenta na corrente sanguínea e a insulina é liberada para transportar esse açúcar para dentro das células do corpo”, explica.
Por ter ação anabólica, a insulina passou a ser utilizada por algumas pessoas como estratégia para ganho de massa muscular. No entanto, a médica reforça que o método é considerado agressivo e exige extremo cuidado.
“Ela pode ser utilizada em alguns casos para ganho de massa, mas é um método muito perigoso. Existem outras formas mais seguras de alcançar esse objetivo, com menos riscos de complicações”, destaca a endocrinologista da Rede Meridional.
O principal perigo está na hipoglicemia severa, quadro caracterizado pela queda brusca dos níveis de glicose no sangue. A endocrinologista explica que o excesso de insulina pode fazer com que a glicose diminua rapidamente, especialmente em pessoas que não têm diabetes.
“A hipoglicemia severa acontece quando os níveis de açúcar no sangue caem muito rápido e atingem valores muito baixos. A pessoa pode passar mal, sofrer quedas, bater a cabeça, apresentar crises convulsivas e, em casos extremos, ir a óbito se não houver atendimento emergencial”, alerta Gisele.
Segundo a especialista, o risco aumenta porque o uso da insulina exige um controle extremamente preciso entre dose aplicada, alimentação e gasto energético. Por isso, o hormônio nunca deve ser utilizado sem orientação profissional.
Danos cerebrais
O endocrinologista Ramon Marcelino, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, explica que a insulina não é um 'atalho' seguro para ganhar massa muscular.
"Em pessoas saudáveis, o uso de insulina não demonstrou aumentar significativamente o crescimento muscular. Além disso, o peso ganho com o uso inadequado de insulina pode incluir aumento de gordura corporal, não apenas músculo. E o problema é que ela pode causar efeitos colaterais gravíssimos e risco a vida".
O uso inadequado da insulina pode causar uma queda grave da glicose no sangue, levando a desmaios, convulsões, coma e até morte. "O principal risco é diminuir a glicose a concentrações críticas, incapacitantes. Isso pode causar tremores, suor frio, confusão mental, desmaios, convulsões, coma e até morte".
Além disso, episódios graves de hipoglicemia podem provocar danos cerebrais permanentes. "A insulina também pode alterar sais minerais importantes do organismo, aumentando o risco de arritmias cardíacas", diz o médico. Outro problema é que o excesso crônico de insulina no corpo pode favorecer ganho de gordura e aumentar riscos metabólicos e cardiovasculares ao longo do tempo.
Ramon conta que o grande perigo da insulina usada sem indicação médica é que o corpo não consegue “desligar” a insulina depois que ela é aplicada. Em uma pessoa saudável, o pâncreas ajusta a quantidade de insulina a cada segundo, dependendo das concentrações de glicose no sangue, da alimentação e do gasto de energia.
"Já a insulina injetada continua agindo mesmo que a glicose caia para concentrações perigosamente baixas. Além disso, a absorção da insulina não é completamente previsível. A mesma dose pode agir de formas diferentes dependendo do local da aplicação, do exercício físico, da alimentação, da temperatura e até do horário do dia".
O médico ressalta que a insulina deve ser usada somente com acompanhamento médico. "Ela é uma medicação potente, de alto risco, e deveria ser dispensada apenas com receita médica".