Ver uma pessoa sofrer uma convulsão costuma provocar desespero em quem está por perto. A cena, marcada por perda de consciência e movimentos involuntários do corpo, ainda é cercada por mitos, como o de colocar objetos na boca da vítima para evitar que ela "engula a língua".
Mas segundo o neurocirurgião endovascular e mestre em Neurociências Ulysses Caus Batista, esse é justamente um dos erros mais perigosos que podem ser cometidos.
Em entrevista ao Se Cuida, o especialista explica que a convulsão acontece quando há uma descarga elétrica anormal e temporária no cérebro, interrompendo seu funcionamento normal.
Nosso cérebro funciona por meio de impulsos elétricos entre os neurônios. Quando ocorre uma descarga elétrica anormal e muito intensa, ela pode provocar alterações no funcionamento cerebral, levando à perda da consciência, movimentos involuntários e outros sintomas
Embora muitas pessoas associem imediatamente uma convulsão à epilepsia, o médico ressalta que nem toda crise significa que a pessoa tenha a doença.
"Uma convulsão isolada pode acontecer por diversos motivos. Epilepsia é uma doença caracterizada pela predisposição a crises recorrentes. Ou seja, uma pessoa pode ter uma única convulsão na vida e nunca mais apresentar outro episódio."
Quais são as causas?
De acordo com Ulysses Batista, a epilepsia continua sendo a principal causa das crises convulsivas, mas está longe de ser a única.
Traumatismos cranianos, acidente vascular cerebral (AVC), tumores cerebrais, infecções do sistema nervoso, alterações da glicose e dos sais minerais, além do consumo excessivo ou da abstinência de álcool e outras drogas, também podem desencadear uma convulsão.
Nas crianças, um quadro de febre alta, especialmente quando a temperatura sobe rapidamente, também merece atenção.
Nem toda crise faz a pessoa cair no chão
As cenas mais conhecidas são as crises generalizadas, em que a pessoa perde a consciência, cai e apresenta movimentos repetitivos dos braços e das pernas. No entanto, elas não são as únicas.
"As crises focais são muito frequentes e começam em apenas uma região do cérebro. Já as generalizadas acometem os dois hemisférios cerebrais e costumam causar perda da consciência e movimentos de todo o corpo", explica o neurocirurgião.
Em alguns pacientes que já convivem com a epilepsia, é possível perceber sinais de que uma crise está prestes a acontecer. Esse fenômeno recebe o nome de aura.
O paciente pode sentir um cheiro diferente, alterações na visão, formigamentos, um mal-estar abdominal ou até uma sensação súbita de medo. Mas a maioria das convulsões acontece sem qualquer aviso
O que fazer durante uma convulsão?
Mais importante do que agir rapidamente é agir corretamente. Segundo o especialista, o primeiro passo é manter a calma e proteger a pessoa para evitar lesões.
A recomendação é deitar a vítima em um local seguro, proteger a cabeça com uma toalha, casaco ou almofada e, assim que possível, colocá-la de lado, preferencialmente sobre o lado esquerdo.
De acordo com o médico, o que não deve ser feito é tão importante quanto. "Não se deve colocar a mão nem qualquer objeto dentro da boca da pessoa. Ela não vai engolir a língua. Além de não ajudar, isso pode provocar ferimentos graves e até quebrar os dentes."
Na maioria dos casos, a crise dura menos de um minuto. Depois disso, é comum que o paciente fique sonolento e desorientado por alguns minutos.
O Samu deve ser acionado se a convulsão durar mais de cinco minutos, se ocorrerem crises em sequência, se a pessoa não recuperar a consciência, apresentar dificuldade para respirar, sofrer um trauma importante durante a queda, estiver grávida ou se for a primeira convulsão da vida.
Como é feito o diagnóstico?
Após uma crise convulsiva, a investigação busca identificar tanto a causa quanto a possibilidade de epilepsia. Segundo Ulysses Batista, dois exames são considerados fundamentais: o eletroencefalograma (EEG), que registra a atividade elétrica do cérebro, e a ressonância magnética, utilizada para identificar possíveis alterações estruturais, como tumores, sequelas de traumatismos ou cicatrizes cerebrais.
Além deles, exames de sangue ajudam a investigar alterações metabólicas, infecções e outras condições que possam ter provocado a convulsão.
A epilepsia tem cura?
Nos casos de epilepsia, o objetivo é controlar as crises. "Na grande maioria dos pacientes, a epilepsia pode ser muito bem controlada com medicamentos. Existem casos mais raros em que a cirurgia é indicada e pode oferecer a possibilidade de cura, mas isso depende do tipo de epilepsia".
Não existe uma forma específica de prevenir convulsões em pessoas que nunca tiveram uma crise. Ainda assim, alguns cuidados ajudam a reduzir o risco. Entre eles estão controlar doenças crônicas, evitar o consumo excessivo de álcool e drogas, tratar alterações metabólicas e prevenir traumatismos cranianos.
Quando a convulsão é causada por fatores reversíveis, como alterações da glicose, dos sais minerais ou uso de determinadas substâncias, o tratamento da causa costuma resolver o problema.
"Essas medidas diminuem a chance de uma crise acontecer, principalmente em pessoas que apresentam fatores de risco", conclui o especialista.