O surto de hantavírus registrado no navio MV Hondius, em rota entre a Argentina e a África, acendeu o alerta para uma doença rara, mas com alta taxa de letalidade. Apesar da preocupação com a variante Andes, uma das poucas com transmissão entre humanos, especialistas afirmam que o hantavírus tem comportamento diferente do coronavírus e não apresenta potencial pandêmico.
No Brasil, a hantavirose é endêmica e ocorre em áreas rurais com presença de roedores silvestres. A infectologista Eveline Vale diz que o quadro inicial possui sintomas inespecíficos, como febre, dor no corpo, dor de cabeça, náuseas, vômitos e mal-estar geral.
"Os sintomas de gravidade podem surgir entre o terceiro e o sétimo dia da doença e são: falta de ar progressiva, tosse, queda da pressão arterial, taquicardia, diminuição do volume da urina e sangramentos. O quadro pode evoluir para insuficiência respiratória aguda. A evolução pode ser muito rápida, com necessidade de internação em UTI e ventilação mecânica", diz a professora de Medicina do Centro Universitário de Brasília (CEUB).
As principais medidas preventivas são evitar contato com fezes, urina e ninhos de roedores. É essencial usar máscara de proteção quando for realizar limpeza de locais fechados que possam ter roedores, especialmente ao varrer locais contaminados a seco. "Além disso, é preciso manter alimentos armazenados de maneira segura, vedar lugares que favoreçam infestação de ratos e manter terrenos limpos e sem acúmulo de lixo", diz a médica.
Para o tratamento não existe antiviral específico. Ele é feito com medidas de suporte, como antitérmicos, hidratação vigorosa e, nos casos graves, manejo precoce da insuficiência respiratória com uso de oxigênio e ventilação mecânica, se necessário. Além disso, pode ser necessário controle da pressão arterial e diálise precoce quando indicada.
Quem deve ter mais cuidado?
As pessoas mais expostas aos dejetos de roedores, como trabalhadores rurais; pessoas que limpam depósitos, celeiros, galpões ou casas fechadas; militares e bombeiros em treinamento de campo; profissionais de controle ambiental; praticantes de ecoturismo e moradores de áreas rurais ou periurbanas com infestação de roedores.
Nas fases iniciais, o hantavírus pode ser confundido com gripe e outras doenças como Covid-19, dengue, leptospirose e outras viroses febris. "Isso porque os primeiros sintomas são inespecíficos, como febre, dor no corpo, dor de cabeça, mal-estar e náuseas", diz a infectologista.
A doença pode começar de forma mais leve e evoluir rapidamente para insuficiência respiratória grave. Além disso, ambientes fechados e infestados representam risco e a prevenção depende de cuidados simples na limpeza. "Caso haja sintomas compatíveis com a doença e evolução para tosse e falta de ar, é imprescindível procurar atendimento médico, pois o diagnóstico precoce é fundamental para evitar o óbito".
No Brasil, as variantes mais documentadas são Araraquara vírus, Juquitiba vírus, Castelo dos Sonhos vírus e Laguna Negra-like. O diagnóstico divulgado como “IgM reagente para hantavírus” indica infecção recente, mas não necessariamente identifica a variante. As diferenças estão relacionadas à transmissão, gravidade e circulação. A maioria dos hantavírus americanos é transmitida apenas por contato com excretas de roedores. O Andes vírus é uma exceção, por permitir transmissão de pessoa para pessoa. Algumas variantes, como Araraquara e Andes, também estão associadas a maior risco de óbito.