Na novela "Quem Ama Cuida", de Walcyr Carrasco e Claudia Souto, o ator Alexandre Borges interpreta Ulisses, homem marcado por compulsão em jogos de azar, um hábito que atinge cerca de três milhões de brasileiros, conforme o Senado Federal.
Na história, Ulisses vê sua situação sair completamente do controle. Viciado em apostas, ele toma decisões cada vez mais desesperadas para sustentar o hábito. Entre os prejuízos mais recentes está a devolução do carro que havia comprado para o enteado, além da perda da confortável mesada que recebia do irmão, Arthur Brandão (Antonio Fagundes), antes da morte do empresário.
O drama da ficção, no entanto, é o reflexo de uma realidade que afeta muita gente. O comportamento, que em muitos casos se inicia como atividade recreativa, pode evoluir para um padrão persistente comprometendo diferentes áreas da vida pessoal, social e profissional.
“O jogo passa a configurar um transtorno mental quando deixa de ser uma atividade controlada e recreativa e passa a provocar prejuízos concretos, como endividamento, sofrimento psíquico e comprometimento de relações interpessoais”, explica o psiquiatra Rodrigo Lancelote, do Hospital Estadual de Franco da Rocha, unidades gerenciadas pelo CEJAM.
De acordo com o especialista, os jogos de azar envolvem risco financeiro baseado no acaso e, culturalmente, são percebidos por muitos como forma legítima de entretenimento. No entanto, em alguns casos, o envolvimento excessivo, em termos de tempo e dinheiro, pode levar ao desenvolvimento de um transtorno psiquiátrico.
“Chamamos de comportamento de jogo patológico. E ele costuma evoluir em três fases distintas. Na fase inicial, os ganhos são interpretados como indicativos de habilidade, o que leva à repetição do comportamento. Depois, o jogador passa a perder com frequência e tende a reinvestir recursos na tentativa de reverter o prejuízo. Já no estágio final, observa-se aumento do isolamento, dificuldades familiares, esgotamento emocional e comprometimento funcional relevante”, enfatiza.
Os impactos se estendem à vida financeira, à produtividade no trabalho, ao convívio familiar e à saúde mental. “É comum que o jogo se torne um elemento organizador da rotina do indivíduo, substituindo relações, ocupações e projetos pessoais. As consequências incluem a inadimplência, perda do emprego, conflitos conjugais e exposição a riscos legais”, complementa.
Estudos apontam que a ludopatia apresenta elevada taxa de comorbidade com outras condições psiquiátricas, como transtornos do humor, bipolaridade, transtorno de ansiedade generalizada, estresse pós-traumático e dependência de substâncias. Informações da Pesquisa Nacional sobre Álcool e Condições Relacionadas indicam que indivíduos com transtorno do jogo patológico têm maior vulnerabilidade ao desenvolvimento desses quadros, o que aumenta a complexidade do tratamento.
“Não é raro que o jogo seja utilizado como uma tentativa de regulação emocional ou fuga de situações adversas. Isso torna o comportamento particularmente resistente à mudança, especialmente quando não há um olhar clínico ampliado para as condições associadas”, analisa Lancelote.