Espírito Santo tem 20 casos de AVC por dia; saiba reconhecer os sinais
Vitor Jubini
A vida após o AVC
Espírito Santo tem 20 casos de AVC por dia; saiba reconhecer os sinais
Nos seis primeiros meses do ano foram 3.101 internações no estado. Buscar atendimento o mais rápido é o que vai garantir a vida do paciente e a menor possibilidade de sequelas
Guilherme Sillva
Editor do Se Cuida
gusilva@redegazeta.com.br
Publicado em 23 de Outubro de 2024 às 09:00
Publicado em
23 out 2024 às 09:00
Morena Fornaciari voltou a fazer aulas de dança após o AVC: "A dança está me fazendo feliz e completa de novo"Crédito: Vitor Jubini
A pessoa que teve o AVC não esquece a data do ocorrido. Morena Fornaciari muito menos. A empresária teve um AVC isquêmico (AVCi) no dia entre o aniversário da mãe e o aniversário da irmã. O sinal da doença foi, durante uma massagem, um nó de tensão no lado esquerdo do pescoço. "Quando a massagista apertou eu senti uma dor descomunal. E quando ela soltou o lado esquerdo estava todo dormente".
Morena ficou internada 20 dias na UTI. Ela conta que, um dos dias mais difíceis, foi quando não conseguia engolir a saliva. A sonda de alimentação fazia com que o corpo produzisse muita secreção, que ela também não era capaz de engolir ou colocar para fora.
"Ficava tudo ali, me sufocando. Um enfermeiro, vendo meu desespero - eu tentava tossir, cuspir e enfiar os dedos na garganta - sugou as secreções com uma mangueira. Mas o alívio durou pouco. O ciclo se repetiu várias vezes, até que os enfermeiros me disseram que eu já estava muito machucada, sangrando. Seria possível morrer sufocada com minha própria saliva? Acabei sendo entubada".
Foi ainda no hospital que o processo de recuperação começou. "Eu tentei andar na primeira vez no quarto do hospital, mas não tinha equilíbrio. A fisioterapia começou logo na alta". Ainda hoje, seis anos depois do acidente vascular cerebral, ela ainda percebe pequenos avanços acontecendo no dia a dia.
Morena faz parte das estatísticas. No Espírito Santo, nos seis primeiros meses do ano foram 3.101 internações por AVC, o equivalente a 20 internações por dia, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa). Em 2023 foram 6.457 internações.
A série "A vida depois do AVC" mostra que a doença é uma das principais causas de mortalidade no país. Até o mês de agosto de 2024, o problema matou 50.133 brasileiros, segundo dados do Portal de Transparência dos Cartórios de Registro Civil do Brasil, baseado em atestados de óbito.
SAIBA IDENTIFICAR OS SINAIS DA DOENÇA
Entre os principais sinais de um AVC estão a perda de força súbita e/ou dormência súbita de um braço e/ou perna e/ou face, especialmente em metade do corpo; dificuldade de falar ou entender a fala; tontura; dor de cabeça súbita e intensa, diferente do habitual.
A cirurgiã vascular Moriane Lorenzoni explica que, se a pessoa apresentar um ou mais sintomas deve buscar um médico ou serviço de emergência imediatamente, pois o tratamento realizado o mais rápido possível é o que vai garantir a vida do paciente e a menor possibilidade de sequelas.
A neurologista Sheila Cristina Ouriques Martins, presidente da Rede Brasil AVC e da Organização Mundial de AVC, reforça. "Ao suspeitar que uma pessoa esteja tendo um AVC, peça para que ela sorria e veja se um lado do rosto não mexe. Verifique também se a pessoa consegue elevar os dois braços como se fosse abraçar, ou se um membro não se move e se apresenta fala enrolada”.
O neurologista Guilherme Coutinho de Oliveira, da Unimed Vitória, explica que as sequelas do AVC podem variar dependendo da gravidade e da área do cérebro afetada. Algumas das sequelas mais comuns incluem alterações na fala, dificuldades em articular palavras ou compreender a linguagem.
ALGUMAS SEQUELAS DA DOENÇA
Alterações na fala: dificuldades em articular palavras ou compreender a linguagem (afasia).
Déficit de memória: problemas com a memória imediata ou a capacidade de recordar informações.
Falta de sensibilidade: perda parcial ou total da sensibilidade em um lado do corpo, dificultando a percepção tátil.
Alterações motoras: fraqueza ou paralisia em um lado do corpo, afetando a mobilidade e a coordenação.
Espírito Santo tem 20 casos de AVC por dia; saiba reconhecer os sinais
Quando a doença ocorre, o tempo é precioso, já que, a cada minuto em que o AVC isquêmico não é tratado, a pessoa perde 1,9 milhão de neurônios, o que resulta em graves comprometimentos que podem deixar sequelas permanentes, como redução de movimentos, perda de memória e prejuízo à fala.
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AVC UM DIA APÓS O CASAMENTO
Gustavo Lyrio Julião teve um AVC hemorrágico aos 32 anos. Ele gosta de ler em casaCrédito: Fernando Madeira
Era dia de festa na vida de Gustavo Lyrio Julião. Em julho de 2022 ele casou com Priscila Bonadiman, o amor de sua vida. Até que a vida deu uma daquelas reviravoltas. Um dia após o casamento ele teve um AVC hemorrágico. O sonho da lua de mel no Caribe foi transferido para 18 dias na UTI. "O lado esquerdo ficou paralisado após uma grave hemorragia no cérebro. Foi assustador. Jamais achei que fosse ter um AVC aos 32 anos", conta.
Gustavo passou por uma cirurgia para drenar o sangue da hemorragia e descomprimir o cérebro. "Os médicos tiveram que tirar uma parte da calota craniana".
No hospital, em coma, começou as sessões de fisioterapia. O processo continuou em casa também com a fonoaudiologia todos os dias. Na alimentação, tinha dificuldade para engolir alimentos. "Também tive sequelas na parte cognitiva, fiquei com uma afasia".
Em 2024 ele teve novamente um dia de festa. Desta vez ao ver a filha nascer. Anna chegou dois anos depois da data do seu AVC. "A cada dia aprendo algo novo e consigo realizar coisas simples, como pegar ela no colo, que para mim é muito importante".
AVC ISQUÊMICO OCORRE EM 85% DOS CASOS
O AVCi ocorre quando há obstrução de uma artéria, impedindo a passagem de oxigênio e nutrientes para células cerebrais, que vão diminuindo suas atividades e acabam morrendo. Essa obstrução pode acontecer devido a um trombo (trombose) ou a um êmbolo (embolia).
É o tipo mais comum e representa 85% de todos os casos, de acordo com o Ministério da Saúde. Segundo o neurocirurgião Ulysses Batista, da Rede Meridional, a doença ocorre quando o paciente tem alguns fatores de risco que podem levar a um AVCI, entre eles a pressão alta, a diabetes, o tabagismo, o sedentarismo, o sobrepeso, a arritmia do coração e outras doenças genéticas relacionadas. No decorrer dos anos, essas doenças podem causar um entupimento de veias e artérias, gerando a formação de um coágulo dentro do cérebro.
Outro fator de risco importante é quando o paciente possui aterosclerose, placas de gordura na carótida, também conhecida como colesterol alto. Com o tempo, uma dessas placas de gordura podem se soltar, limitando o fluxo de sangue. Ou então, em uma arritmia, pode sair um coágulo do coração e entupir um vaso sanguíneo cerebral.
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O AVCi tem tratamento, mas precisa ser iniciado o mais rápido possível, assim que o diagnóstico for confirmado. Por isso é importante o paciente saber identificar quais os sintomas da doença.
“Existem medicamentos que ajudam a afinar o sangue, visando diluir o coágulo que está causando o AVCI. Porém, o mais importante é que o paciente procure atendimento no hospital. Porque até 4h30 do início dos sintomas temos como fazer uma trombólise venosa, quando infundimos o remédio na veia, que age no coágulo que está entupido, e o dissolve”.
Os médicos podem, ainda, realizar a trombectomia mecânica, quando são utilizados cateteres, por dentro da perna, para conduzir um dispositivo até os vasos sanguíneos, chegar no coágulo e retirá-lo. Segundo estudos, é indicado o prazo de até 24h para fazer esse procedimento, mas com vários critérios. É importante, ainda, que o paciente saiba quais hospitais estão preparados para o atendimento dos sintomas de AVC, pois nem todos estão.
CONFIRA AMANHÃ
Amanhã, no terceiro dia da série "A vida depois o AVC", vamos explicar o que é o tratamento avançado para o AVC isquêmico oferecido no SUS. Além de contar a história do Bruno Loureiro, agente da Guarda Municipal de Vitória, que teve um AVC no carnaval.