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Saúde

Estudante do ES conta os desafios de cuidar da mãe com Alzheimer

Weberton Colombino descobriu a doença da mãe já em estágio intermediário, quando ela tinha 60 anos. Estudante de psicologia de Vila Velha, ele relata a rotina como cuidador e usa as redes sociais para orientar outras famílias

Publicado em 12 de Março de 2026 às 15:33

Julia Galter

Publicado em 

12 mar 2026 às 15:33
Weberton da Silva e Maria da Penha da Silva
Weberton Colombino e Maria da Penha: uma relação de carinho e amor Crédito: Divulgação/ Weberton da Silva
Embora seja mais comum após os 65 anos, o Alzheimer também pode surgir antes dos 60. Esse tipo de diagnóstico, conhecido como Alzheimer de início precoce, ainda é pouco discutido, mas impacta profundamente famílias inteiras. No Espírito Santo, a história de um morador de Vila Velha mostra como o desafio do cuidado pode também se transformar em aprendizado, acolhimento e informação para outras pessoas que passam pela mesma situação.
Weberton Colombino diz que os sintomas iniciaram quando ela tinha 50 anos e o diagnóstico veio quando ela tinha 60 anos, já em estágio moderado. Segundo ele, Maria da Penha tinha lapsos de memória. "Ela saía e não lembrava como voltar, precisava da ajuda de conhecidos para retornar pra casa. Além disso, repetia algumas vezes a mesma história". Na mesma época, ele percebeu a perda de vaidade e o cuidado com a própria alimentação, por exemplo.
A mãe ainda tratava uma depressão. "Ela utilizava medicamentos tarja preta, além de ser mulher e já ter diagnóstico de depressão. Foram fatores que aumentaram a predisposição ao Alzheimer". 
O estudante de psicologia percebeu que não se tratava apenas de uma depressão e começou a investigar a condição da mãe. "Eu enxergava um declínio cognitivo, mas uma demência não passava pela minha cabeça. Foi um choque", disse. Para ele, falar sobre a doença ainda é um tabu.

Mudanças na rotina

A mãe de Weberton já está na fase avançada da doença, e para ele, hoje o dia a dia é marcado pelo silêncio. Apesar disso, ele ressalta que a maior alegria é ainda ter a mãe por perto, apesar de não existir interação falada.
A minha mãe depende de mim para tudo, então hoje o maior desafio é físico
Weberton Colombino - Estudante de psicologia e comunicador de saúde
Os dois são moradores de Vila Velha, e a maior parte do tratamento é feito pelo SUS na própria cidade. Maria da Penha faz fisioterapia e terapia ocupacional, e ainda tem acompanhamento com geriatra e enfermeiros.

Reesignificar a condição

Weberton afirma que ressignificar a condição foi necessário. À medida que a doença progrediu, e sem rede de apoio, as coisas não foram fáceis. "Eu já levei ela para o trabalho, para a faculdade, e precisei ressignificar esse momento, fiz terapia e consegui compreender cada dia mais a minha impotência diante disso tudo."  Para ele, o mais interessante é fazer escolhas diárias a partir dessa situação.
Como profissional de saúde mental, Weberton, que assumiu a responsabilidade de cuidar da mãe, decidiu compartilhar sua experiência e falar sobre o tema nas redes sociais. Sua página no Instagram (@ressignificandooalzheimer) já tem mais de 40 mil seguidores. Por lá, ele relata os desafios da rotina, propõe reflexões sobre o cuidado e compartilha estratégias que ajudam a lidar com os impactos da condição.
Minha motivação é saber que minha mãe vai precisar de ainda mais cuidados daqui algum tempo, e eu preciso de condições até financeiras
Weberton Colombino - Estudante de psicologia e comunicador de saúde

Entenda o Alzheimer 

Doença de Alzheimer, principal causa de demência no mundo, é uma enfermidade neurodegenerativa caracterizada pela morte progressiva de neurônios, especialmente em regiões como os lobos frontal e temporal — onde se localiza o hipocampo, estrutura fundamental para a memória. A condição compromete funções cognitivas essenciais, como atenção, orientação e capacidade de planejamento, afetando de forma significativa a autonomia do paciente.
À medida que a doença evolui, tornam-se mais evidentes a perda gradual da memória recente, a desorientação em relação ao tempo e ao espaço e a dificuldade para realizar atividades rotineiras antes executadas com independência.
Dados do Relatório Nacional sobre a Demência: Epidemiologia, (re)conhecimento e projeções futuras, divulgado em 2024, indicam que cerca de 8,5% da população brasileira com 60 anos ou mais convivem com a doença, ou seja, o equivalente a aproximadamente 1,8 milhão de pessoas. A projeção preocupa: até 2050, o número pode alcançar 5,7 milhões de diagnósticos no país.
Os primeiros sinais do Alzheimer incluem dificuldade para fixar e reter memórias recentes, tendência à desorientação têmporo-espacial e prejuízos nas chamadas funções executivas, que são habilidades relacionadas ao planejamento, organização e tomada de decisões.
Segundo o neurologista Edson Issamu Yokoo, da rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, é fundamental diferenciar os esquecimentos esperados do envelhecimento natural daqueles associados a um quadro demencial. “O envelhecimento pode provocar lapsos pontuais e geralmente inofensivos. Consideramos um quadro demencial quando os esquecimentos, a desorientação e as alterações comportamentais passam a comprometer as atividades da vida diária e a autonomia do indivíduo”, explica.
Entre os sinais de alerta estão a incapacidade de sair sozinho devido ao risco de se perder, o perigo de provocar acidentes domésticos (como esquecer o fogão ligado), e a dificuldade para lidar com informações numéricas, como senhas ou telefones.
A idade acima de 65 anos é o principal fator de risco para a doença, embora aspectos como escolaridade, histórico familiar e hábitos de vida também influenciem. Especialistas apontam que fatores relacionados à qualidade de vida têm impacto direto na saúde cerebral. A recomendação inclui alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle de doenças crônicas e a redução do consumo de álcool e tabaco.
O diagnóstico precoce é considerado decisivo para ampliar a janela terapêutica, favorecer maior estabilidade clínica e retardar a progressão dos sintomas. Quanto mais cedo o quadro é identificado, maiores são as possibilidades de preservar a funcionalidade e a qualidade de vida do paciente. Nesse contexto, o suporte e o treinamento de familiares e cuidadores são fundamentais para reduzir tensões e minimizar o sofrimento, especialmente diante da vulnerabilidade crescente do indivíduo.
Atualmente, há tratamentos medicamentosos que auxiliam no controle dos sintomas, como os anticolinesterásicos e os antagonistas de NMDA, como a memantina. Embora não haja cura, essas terapias podem contribuir para estabilizar ou retardar o avanço da doença.
As abordagens não medicamentosas também desempenham papel relevante no cuidado integral. "Estimulação cognitiva, terapia ocupacional, prática de exercícios físicos e atividades que desafiem o cérebro, como aprender um novo idioma, tocar instrumentos musicais ou manter o hábito da leitura, ajudam a preservar habilidades por mais tempo. O convívio social e a prevenção do isolamento também são estratégias recomendadas", diz o médico.
Especialistas reforçam ainda a importância de conscientizar familiares e cuidadores de que lapsos de memória e alterações comportamentais não são intencionais. “É essencial compreender que o paciente não deseja causar transtornos ou agir de forma agressiva. Esses comportamentos decorrem da própria doença e podem surgir de maneira imprevisível”, enfatiza o médico.

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