Apostar na boa-fé alheia para não perder a venda tem sido a estratégia de muitos vendedores ambulantes, que ofertam seus produtos em meio ao vai e vem de veículos no trânsito da Grande Vitória. A estratégia não convencional vem ganhando espaço entre trabalhadores informais, e a modalidade foi batizada de "Pix da confiança", em que o cliente leva o produto antes de pagar. O gesto desafia as regras tradicionais do comércio e depende da honestidade do próximo. A tática inusitada levanta o questionamento: é possível confiar nas pessoas?
Larissia Nobre, de 30 anos, respondeu a essa pergunta. Ela começou a vender pipoca gourmet em 2017, junto duas amigas, visando juntar dinheiro para viajar. A receita especial era da mãe e o grupo começou oferecendo os produtos de loja em loja, em bairros de Vitória. Como o esforço rendia pouco, a mãe dela sugeriu a venda dos produtos no acesso à Terceira Ponte em Vitória.
Não tínhamos vendido quase nada em um determinado dia, estávamos cansadas. Então resolvemos tentar. Em 30 minutos na ponte, vendemos tudo. Foi surreal
A experiência no pedágio deu tão certo que passou a ser o novo ponto fixo do trio. Com o tempo a sociedade entre as amigas chegou ao fim, mas Larissia decidiu seguir com o empreendimento. Ela firmou parceria com a mãe e criou a marca “Delícias da Vânia”, mantendo o ponto de venda na ponte. “Era muito mais prático do que andar pelas lojas. E o movimento era ótimo. Eu levava cerca de 50 pipocas por dia, de segunda a sexta-feira, e vendia tudo”, contou.
Solução em meio a crise
O bom momento durou até o fim da cobrança presencial nas cabines de pedágio. Sem o grande número de carros parados, as vendas diminuíram. Foi nesse momento que Larissia resolveu experimentar algo novo e arriscado.
Eu pensei: vou ter que confiar. Na própria pipoca colamos o QR Code, e o cliente leva e paga depois, no caminho ou quando chegar em casa
Assim nasceu na rotina de Larissia o Pix da confiança. Desde então, ela coleciona boas histórias. Uma cliente fiel chegou a ficar um mês sem pagar devido a uma troca de celular, mas fez questão de procurá-la para quitar a dívida e ainda pagou um valor a mais.
As pessoas esquecem de pagar na hora, mas muitas voltam no dia seguinte. Recebo mensagens com comprovantes, gente pedindo desculpa. É muito legal
Apesar de deixar de receber alguns pagamentos, a empreendedora afirma que o saldo é positivo e as pessoas devem ter consciência, pois é o caráter delas que está em jogo. “ Mesmo que eu leve um golpe ou outro, eu continuo confiando. Isso de mim não pode sair. Eu acredito nas pessoas”, finalizou.
Uma ideia inovadora
Para Larissia, o Pix da confiança surgiu como alternativa após uma queda nas vendas. Já para Jonhson Apolinário, de 40 anos, o modelo de pagamento foi o pontapé para o novo empreendimento. Ele começou a vender biscoitos no Centro de Vitória diante da proposta de um amigo, que não se sentia à vontade para ir às ruas, mas acreditava no potencial da ideia. Ele topou e os dois, em sociedade, prepararam os kits, criaram um panfleto com QR Code para pagamento e foram testar. Apesar de ter começado o projeto em parceria, hoje ele comanda o negócio sozinho.
Há cerca de três meses em funcionamento, a empresa está em expansão e Jonhson começou a contratar pessoas para auxiliá-lo na venda dos biscoitos em pontos diferentes da cidade, sempre com o mesmo princípio: o produto é entregue ao cliente e o pagamento é feito depois.
No nosso panfleto tem um texto dizendo que toda alma generosa prosperará e eu decidi ser generoso. Decidi olhar para as pessoas e confiar nelas. Prefiro focar em quem paga e, surpreendentemente, a maioria das pessoas paga. Quem não paga é quem esquece
Jonhson reconhece que algumas pessoas podem não pagar de forma intencional, mas afirma que prefere não se apegar a isso. Por convicção cristã, decidiu seguir apostando na confiança e no perdão. Para ele, a experiência tem mostrado que a maioria das pessoas retribui de forma honesta e, em muitos casos, até além do esperado. Alguns clientes voltam dias depois para pagar, outros transferem valores acima do preço do produto, e há quem envie mensagens apenas para elogiar a iniciativa. “Às vezes, tudo o que a pessoa precisa é de um voto de confiança”, resume.
O objetivo é evocar o que há de melhor nas pessoas, como a bondade e a generosidade. Eu decidi ser generoso e tenho colhido os frutos
Planejamento e cautela, orienta Sebrae-ES
A prática do Pix da confiança parece inovadora, mas na avaliação de Adriana Rocha, gerente da Unidade de Relacionamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/ES), a modalidade resgata formas antigas de se fazer negócio. A proximidade com o cliente, a palavra como garantia e a troca baseada na confiança lembram os tempos em que o comércio local dependia mais da relação pessoal do que de sistemas automatizados.
No cenário atual, onde a tecnologia e as vendas automatizadas ganham espaço, é interessante notar como antigas práticas comerciais estão ressurgindo, priorizando a relação direta e a confiança mútua com os clientes. Essa abordagem, onde o cliente leva o produto e paga posteriormente, nos transporta para as origens do comércio local, onde a conexão pessoal era essencial para o sucesso do negócio
Embora o novo método de pagamento se apoie em relações humanas e gere conexões positivas entre vendedores e clientes, a especialista alerta que confiar não significa renunciar ao planejamento. A confiança pode ser um valor central do negócio, mas precisa estar acompanhada de organização e critérios claros para garantir a sustentabilidade do negócio.
“Mesmo em modelos inovadores de venda, é crucial implementar medidas para diminuir o risco de não pagamento e assegurar a estabilidade da empresa. Manter registros organizados, estabelecer critérios claros e conhecer bem os clientes são passos importantes para equilibrar afeto e responsabilidade”, finaliza Adriana.