Às vezes, histórias de vida podem mudar após um encontro inesperado. Foi assim que nasceu o Instituto Livres Para Sonhar: a partir de uma abordagem em uma rua de Vila Velha, a uma mulher chorando, sem casa, sem apoio e recém-saída do sistema prisional. A cena despertou uma pergunta que ficou ecoando: “o que acontece depois?”. A resposta não veio pronta, mas se transformou no propósito da fundadora do projeto, Simone Cunha.
A experiência foi determinante para a criação da iniciativa. “Eu comecei a pensar: o que a gente está fazendo por essas mulheres depois que elas saem? Porque o problema não está só dentro do sistema, está no depois”, explica Simone.
A partir desse episódio, Simone iniciou uma busca por iniciativas sociais que acolhessem pessoas egressas do sistema prisional, mas não encontrou projetos com foco específico nesse público. Diante disso, decidiu estruturar a própria proposta. Ao lado de profissionais voluntários — como psicólogos, assistentes sociais e advogados —, desenvolveu uma iniciativa voltada à inclusão produtiva e à reconstrução da autonomia dessas mulheres.
Eu não quero dar nada para ninguém. Quero ajudar a mostrar para essa mulher o valor que ela tem e que ela pode ser protagonista da própria história
Simone Cunha
Advogada
A primeira fase foi realizada dentro do sistema prisional, com mulheres em regime semiaberto. Durante três meses, cerca de 50 participantes fizeram encontros de sensibilização, com rodas de conversa e atividades voltadas à retomada de perspectivas de vida.
A partir desse contato inicial, a iniciativa evoluiu. Já fora do presídio, passou a incluir também mulheres em outras situações de vulnerabilidade, como vítimas de violência doméstica, mães solo e trabalhadoras informais. A ampliação ocorreu após a identificação de demandas semelhantes entre diferentes perfis atendidos.
Como funciona a formação oferecida
O projeto é estruturado em diferentes etapas, combinando capacitação técnica, orientação profissional e acompanhamento emocional. As participantes têm acesso a oficinas profissionalizantes em áreas como beleza, confeitaria e serviços gerais. Além disso, recebem kits de trabalho ao final da formação, o que permite que iniciem a atividade imediatamente após o curso.
Outro diferencial, segundo a fundadora, está nas mentorias complementares. O programa inclui formação em gestão de negócios, marketing, formalização e educação financeira — aspectos considerados essenciais para a sustentabilidade das atividades, segundo a organização.
De acordo com Mayony Dias Vieira Stein, especialista de desenvolvimento do cooperativismo e sustentabilidade da Sicredi Serrana, parceira do projeto, essa abordagem busca evitar que o aprendizado fique restrito à técnica. “A gente entendeu que não adiantava só ensinar um ofício. Era preciso mostrar como precificar, organizar despesas e lidar com o dinheiro”, explica.
De acordo com Mayony, os dados reforçam a importância desse tipo de formação. Muitos pequenos empreendedores enfrentam dificuldades justamente pela falta de conhecimento em gestão, especialmente na área financeira — um dos pontos centrais trabalhados na iniciativa.
“Grande parte dos pequenos empreendedores não sabe como gerir o próprio negócio e encontra dificuldades principalmente na gestão financeira. Sem essa base mais sólida — que é o que buscamos fomentar —, há o risco de que esses negócios não se sustentem ao longo do tempo, especialmente após três ou quatro anos”, explica Mayony.
A parceria com a instituição financeira ocorre por meio do fundo social, que, além de aportar recursos, acompanha o desenvolvimento dos projetos e oferece orientação às organizações atendidas.
Além da parte técnica e financeira, o projeto também oferece suporte psicológico e atividades voltadas ao fortalecimento da autoestima, reconhecendo o impacto emocional nas trajetórias das participantes. Para a organização, o objetivo é promover autonomia. A expectativa é que, ao final do processo, as mulheres estejam preparadas não apenas para gerar renda, mas também para gerir a própria vida com mais independência.
O impacto na prática: a história de Débora
Entre as participantes do projeto está a cabeleireira Débora Souza, que encontrou no curso uma oportunidade de reorganizar a própria trajetória profissional. Antes de ingressar no programa, ela já atuava na área, mas enfrentava dificuldades para estruturar o negócio. Sem conhecimento em gestão financeira e marketing, relatava insegurança na hora de precificar serviços e divulgar o trabalho.
Além das dificuldades técnicas, o momento também era marcado por questões emocionais. Segundo ela, a falta de confiança impactava diretamente sua capacidade de tomar decisões e buscar novas oportunidades. “Eu estava estagnada. Tinha ideia, tinha capacidade, mas não conseguia colocar em prática”, relata.
A virada, segundo Débora, não aconteceu apenas no campo profissional. O projeto também ofereceu suporte emocional, o que foi determinante para que ela conseguisse retomar a própria iniciativa. “Para mim, a questão emocional foi um divisor de águas. Depois que você levanta a sua identidade, ninguém te para mais”, afirma.
Após a formação, ela passou a reorganizar sua atuação profissional e encontrou um nicho: o atendimento domiciliar voltado a idosos, pessoas com mobilidade reduzida e mães atípicas.
Débora conta que a ideia surgiu a partir da percepção de uma demanda que não era atendida pelos salões tradicionais. “Tem muita gente que não consegue ir ao salão. Idosos, mães com filhos que precisam de atenção o tempo todo… e não tem quem atenda esse público”, explica.
Hoje, ela atende clientes em diferentes cidades da Grande Vitória e tem investido na divulgação do serviço, com produção de materiais, presença digital e organização do negócio.
A mudança também se refletiu na vida pessoal. Um dos marcos citados por ela foi a conquista do primeiro bem adquirido com o próprio dinheiro. “Depois de mais de 20 anos, eu consegui comprar meu primeiro fogão. Foi uma sensação de independência que eu nunca tinha vivido”, afirma.
Para Débora, o principal resultado do projeto foi a mudança de perspectiva. “Tem uma Débora antes e uma Débora depois”, resume.