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Empreendedorismo social

A vida depois da prisão: projeto do ES apoia mulheres a recomeçar

Iniciativa oferece qualificação profissional, educação financeira e suporte emocional para mulheres que deixaram o sistema prisional

Publicado em 02 de Maio de 2026 às 07:46

Nicoly Reis

Publicado em 

02 mai 2026 às 07:46
As atividades do projeto acontem em Vila Velha
As atividades do projeto acontem em Vila Velha Arquivo pessoal

Às vezes, histórias de vida podem mudar após um encontro inesperado. Foi assim que nasceu o Instituto Livres Para Sonhar: a partir de uma abordagem em uma rua de Vila Velha, a uma mulher chorando, sem casa, sem apoio e recém-saída do sistema prisional. A cena despertou uma pergunta que ficou ecoando: “o que acontece depois?”. A resposta não veio pronta, mas se transformou no propósito da fundadora do projeto, Simone Cunha.


A experiência foi determinante para a criação da iniciativa. “Eu comecei a pensar: o que a gente está fazendo por essas mulheres depois que elas saem? Porque o problema não está só dentro do sistema, está no depois”, explica Simone.


A partir desse episódio, Simone iniciou uma busca por iniciativas sociais que acolhessem pessoas egressas do sistema prisional, mas não encontrou projetos com foco específico nesse público. Diante disso, decidiu estruturar a própria proposta. Ao lado de profissionais voluntários — como psicólogos, assistentes sociais e advogados —, desenvolveu uma iniciativa voltada à inclusão produtiva e à reconstrução da autonomia dessas mulheres.

Eu não quero dar nada para ninguém. Quero ajudar a mostrar para essa mulher o valor que ela tem e que ela pode ser protagonista da própria história

Simone Cunha

Advogada

A primeira fase foi realizada dentro do sistema prisional, com mulheres em regime semiaberto. Durante três meses, cerca de 50  participantes fizeram encontros de sensibilização, com rodas de conversa e atividades voltadas à retomada de perspectivas de vida.


A partir desse contato inicial, a iniciativa evoluiu. Já fora do presídio, passou a incluir também mulheres em outras situações de vulnerabilidade, como vítimas de violência doméstica, mães solo e trabalhadoras informais. A ampliação ocorreu após a identificação de demandas semelhantes entre diferentes perfis atendidos.

Como funciona a formação oferecida

O projeto é estruturado em diferentes etapas, combinando capacitação técnica, orientação profissional e acompanhamento emocional. As participantes têm acesso a oficinas profissionalizantes em áreas como beleza, confeitaria e serviços gerais. Além disso, recebem kits de trabalho ao final da formação, o que permite que iniciem a atividade imediatamente após o curso.


Outro diferencial, segundo a fundadora, está nas mentorias complementares. O programa inclui formação em gestão de negócios, marketing, formalização e educação financeira — aspectos considerados essenciais para a sustentabilidade das atividades, segundo a organização.


De acordo com Mayony Dias Vieira Stein, especialista de desenvolvimento do cooperativismo e sustentabilidade da Sicredi Serrana, parceira do projeto, essa abordagem busca evitar que o aprendizado fique restrito à técnica. “A gente entendeu que não adiantava só ensinar um ofício. Era preciso mostrar como precificar, organizar despesas e lidar com o dinheiro”, explica.


De acordo com Mayony, os dados reforçam a importância desse tipo de formação. Muitos pequenos empreendedores enfrentam dificuldades justamente pela falta de conhecimento em gestão, especialmente na área financeira — um dos pontos centrais trabalhados na iniciativa.


“Grande parte dos pequenos empreendedores não sabe como gerir o próprio negócio e encontra dificuldades principalmente na gestão financeira. Sem essa base mais sólida — que é o que buscamos fomentar —, há o risco de que esses negócios não se sustentem ao longo do tempo, especialmente após três ou quatro anos”, explica Mayony.


A parceria com a instituição financeira ocorre por meio do fundo social, que, além de aportar recursos, acompanha o desenvolvimento dos projetos e oferece orientação às organizações atendidas.


Além da parte técnica e financeira, o projeto também oferece suporte psicológico e atividades voltadas ao fortalecimento da autoestima, reconhecendo o impacto emocional nas trajetórias das participantes. Para a organização, o objetivo é promover autonomia. A expectativa é que, ao final do processo, as mulheres estejam preparadas não apenas para gerar renda, mas também para gerir a própria vida com mais independência.

O impacto na prática: a história de Débora

Entre as participantes do projeto está a cabeleireira Débora Souza, que encontrou no curso uma oportunidade de reorganizar a própria trajetória profissional. Antes de ingressar no programa, ela já atuava na área, mas enfrentava dificuldades para estruturar o negócio. Sem conhecimento em gestão financeira e marketing, relatava insegurança na hora de precificar serviços e divulgar o trabalho.


Além das dificuldades técnicas, o momento também era marcado por questões emocionais. Segundo ela, a falta de confiança impactava diretamente sua capacidade de tomar decisões e buscar novas oportunidades. “Eu estava estagnada. Tinha ideia, tinha capacidade, mas não conseguia colocar em prática”, relata.


A virada, segundo Débora, não aconteceu apenas no campo profissional. O projeto também ofereceu suporte emocional, o que foi determinante para que ela conseguisse retomar a própria iniciativa. “Para mim, a questão emocional foi um divisor de águas. Depois que você levanta a sua identidade, ninguém te para mais”, afirma.


Após a formação, ela passou a reorganizar sua atuação profissional e encontrou um nicho: o atendimento domiciliar voltado a idosos, pessoas com mobilidade reduzida e mães atípicas.


Débora conta que a ideia surgiu a partir da percepção de uma demanda que não era atendida pelos salões tradicionais. “Tem muita gente que não consegue ir ao salão. Idosos, mães com filhos que precisam de atenção o tempo todo… e não tem quem atenda esse público”, explica.


Hoje, ela atende clientes em diferentes cidades da Grande Vitória e tem investido na divulgação do serviço, com produção de materiais, presença digital e organização do negócio.


A mudança também se refletiu na vida pessoal. Um dos marcos citados por ela foi a conquista do primeiro bem adquirido com o próprio dinheiro. “Depois de mais de 20 anos, eu consegui comprar meu primeiro fogão. Foi uma sensação de independência que eu nunca tinha vivido”, afirma.


Para Débora, o principal resultado do projeto foi a mudança de perspectiva. “Tem uma Débora antes e uma Débora depois”, resume.

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