Os casos de violência psicológica contra mulheres não só aumentaram em 2022, como mais que dobraram em relação a 2021, mostram dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Enquanto que, em 2021, foram registrados 155 casos, em 2022, o número saltou para 388 ocorrências, ou seja, um aumento de 150%. Os dados são referentes aos meses de agosto a dezembro de 2021 e ao período de setembro a dezembro de 2022.
Em entrevista ao site g1, Valéria Zaché, advogada especialista em Direito de Família e em Violência Doméstica e assessora jurídica da Procuradoria Especial da Mulher na Assembleia Legislativa (Ales), atribuiu ao período da pandemia o aumento no número de casos de violência psicológica no Estado.
"Os agressores passaram a permanecer mais tempo em casa, e uma grande maioria por ter perdido o emprego. Aí, ele [o agressor] ficou mais próximo do dia a dia doméstico e muitas crises conjugais surgiram por causa da falta de habilidade masculina em lidar com problemas domésticos, somados ao dissabor do desemprego, que agravou o uso de bebida alcoólica e outros entorpecentes", disse Valéria.
Entre os principais sinais listados pela assessora jurídica da Procuradoria Especial da Mulher estão a manipulação, as ameaças e a humilhação. "O agressor assusta com ameaças frequentes que fragilizam a vítima emocionalmente", destaca ela, que completa:
"O homem abusador, praticante da violência psicológica, está sempre pedindo desculpas. É um sinal de que ele tem controle sobre as reações dela, de que ele sabe que pode agredir com palavras, ameaças sutis, humilhação e depois e pedir desculpa"
Valéria também citou outros sinais e comportamentos que podem indicar uma situação de violência psicológica.
"Quando ele não valoriza a conquistas dela, quando ele a humilha por qualquer coisa que o desagrada, quando ele invalida as emoções dela dizendo: 'Está chorando por quê? Não aguenta ouvir a verdade, não?'. Quando ele a faz se sentir culpada por um desentendimento que ela não causou, quando ele tenta justificar o abuso culpando a mulher, quando ele faz piadinhas que a rebaixam... São ações que algumas mulheres, por algum tempo, até consideram 'normais' e pensam: 'é o jeito dele, ele é assim mesmo, isso é coisa de homem'", disse Valéria.
Agressores têm perfil inseguro, possessivo e insensível, diz MPES
Para Cristiane Esteves Soares, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento às Violências de Gênero em Defesa dos Direitos das Mulheres (Nevid), as vítimas de violência costumam ter entre 20 e 40 anos.
E é fundamental traçar o perfil de personalidade do agressor uma vez que o perfil da vítima não pode ser detalhado. Isso porque todas as mulheres podem se tornar uma vítima.
"O perfil de personalidade da vítima a gente não pode identificar, ou seja, toda mulher pode ser vítima de violência doméstica. Identificando esse perfil [do potencial agressor], é possível que a gente consiga, já no início, analisar isso, sair da relação e evitar uma violência maior", disse Cristiane.
Entre os pontos de alerta citados pelo MPES sobre o perfil dos possíveis agressores e que merecem atenção das mulheres estão:
- Em geral, o potencial agressor tem autoestima baixa;
- É sensível a críticas;
- São possessivos e inseguros;
- Tendem a manipular a companheira;
Segundo o MPES, até mesmo o excesso de proteção pode resultar no afastamento da mulher de amigos e parentes.
Cristiane Esteves também falou sobre a importância de as mulheres não se afastarem de amigos e familiares.
"Se ela não tem essa rede primária de proteção e constantemente é agredida na sua autoestima e na maneira de ser, no momento de uma situação mais séria de violência, ela começa a se sentir culpada e achando que foi a responsável por aquele ato de violência e que realmente poderia ter sido punida com a agressão", alertou a coordenadora do Nevid.
Informações de Fabiana Oliveira, do g1 ES