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Suzana Pires
"O mito da mulher batalhadora causa angústia e sobrecarga"
Pregando o empoderamento feminino "pé no chão" e sem romantizações , a atriz da Globo é uma das convidadas da live do Todas Elas nesta terça-feira (18)

Natalia Bourguignon

Repórter

nbourguignon@redegazeta.com.br

Publicado em 17 de Maio de 2021 às 19:56

Publicado em

17 mai 2021 às 19:56
A mulher que precisa dominar os cuidados com a casa, com a família e ainda manter uma carreira de sucesso não é apenas uma guerreira e batalhadora, mas sim uma mulher cansada. A sobrecarga de tarefas, somada à opressão machista e às consequentes sequelas físicas e emocionais de conviver em uma sociedade voltada para o sucesso masculino, impedem que elas tomem as rédeas da própria vida e prosperem profissionalmente e economicamente.
Foi com base nesse entendimento que a atriz, roteirista, escritora e filósofa Suzana Pires criou o Instituto Dona de Si, em 2019. Sem fórmulas mágicas para o sucesso, o curso foca no autoconhecimento e na capacidade da mulher de fazer as próprias escolhas.
“Não há mulher guerreira nenhuma aqui. O que existe é a protagonista da própria vida. Porque a guerreira é acúmulo. A protagonista é escolha. Então, a protagonista é a primeira a entrar no campo de batalha da vida, mas ela escolhe suas batalhas, escolhe quem ela vai proteger, como e se ela vai poder. A guerreira, a batalhadora, ela capina o mato sem olhar pra nada”, afirma.
Nesta terça-feira (18), às 19h30, Suzana, que estrelou novelas como Caras & Bocas e Fina Estampa, da Rede Globo, vai discutir o tema “Liderança feminina e guerra contra o machismo” em live do Todas Elas, da Rede Gazeta.
Em entrevista, ela lembra que mulheres são as maiores responsáveis por abrir empresas no Brasil, e também as que “quebram” mais cedo. Com o instituto, ela busca tratar dos gargalos que impedem que elas tenham uma trajetória profissional sólida, que alcancem cargos altos e que ganham dinheiro. Tudo isso com o pé fincado na realidade.
“Não é fácil. Não adianta a gente romantizar que está empoderada, maravilhosa, que ganha dinheiro. Porque a gente está sempre como um sonâmbulo tendo que se equilibrar na corda bamba”, afirma.
Leia entrevista na íntegra abaixo

O que te levou a criar o instituto Dona de Si e qual o papel dele?

O instituto começou com a coluna Dona de Si que comecei em 2017 na (revista) Marie Claire. A partir dela comecei a escrever sobre a dificuldade de qualquer mulher em tratar de uma trajetória profissional própria. Consegui nos dois primeiros anos fazer uma pesquisa com as leitoras e mapear os três principais motivos de porque nós mulheres somos as que mais abrimos CNPJ no Brasil e as que mais fechamos depois de dois anos. Só consegui pesquisas que falavam que mulheres são as que mais estudam, que mais geram lucro, que são melhores gestoras. Mas por que não conseguimos ir para a fase de empreendedoras estabelecidas? O primeiro motivo é a sobrecarga. Já éramos donas da casa e agora ficou a casa, o mundo, nosso corpo, o outro, é muita coisa pra gente dar conta. Em muitos casos temos que dar conta da mãe do outro, da tia do outro, da nossa própria mãe, é muita coisa em cima de uma mulher. A segunda dor é a opressão. Ela é misógina, racista, transfóbica. Ela atinge desde a mulher branca, à trans, à PCD. É chegar para uma reunião e o comentário ser da nossa roupa, do nosso corpo, uma mão na cintura, um beijo no canto da boca. São as opressões para diminuir a gente pela nossa presença. Diminuir a nossa fala. A terceira dor é a solidão que isso tudo gera. Começa a acontecer de a gente ter problemas físicos, problemas emocionais, a saúde mental negligenciada. A gente se coloca o peso de ter que dar conta de tudo. Ficou romantizado esse termo e eu gosto de desromantizá-lo.

Você fala da ideia da mulher guerreira, a mulher super-heroína?

Essa é a maior cilada que a gente pode cair. Não há mulher guerreira nenhuma aqui. Isso me leva à loucura. O que que existe é a protagonista da própria vida. Porque a guerreira é acúmulo. A protagonista é escolha. Então, a protagonista é a primeira a entrar no campo de batalha da vida, mas ela escolhe suas batalhas, escolhe quem ela vai proteger, como e se ela vai poder. A guerreira, a batalhadora, ela capina o mato sem olhar pra nada. Quando mapeei isso foi como se eu tivesse levado um soco na cara, porque eu estava com o raio-x das mulheres na mesa. Eu não ensino ninguém matemática, o beabá. Porque nós já sabemos. Todas as mulheres que chegam já tem profissão. Acelerar é tirar do lugar de dor da sobrecarga, da opressão e da solidão dando consciência. Construí um curso que é ser empreendedora de si mesma. A primeira aula é sobre a sua saúde, como você está lidando com a sua saúde e como se reflete na sua vida. As tarefas são exames, colocar você em ordem. Quando faz esse movimento no primeiro módulo, quando elas começam a olhar pra si, elas têm a consciência de que não estavam olhando.

Os gargalos são diferentes para mulheres do meio artístico?

São os mesmos. Esses gargalos não diferenciam classe social, cor, credo, profissão, nem nada. A sobrecarga, a opressão e a solidão atingem todas as mulheres artistas da América Latina. Com as artistas, está na hora de falarmos mais sobre isso. Porque é muito vívido o quanto essas três coisas acometem mulheres artistas. A sobrecarga da imagem, de ser perfeita, da imagem da juventude, que é um saco. A sobrecarga que agora você faz papel de mãe, depois vai ter que fazer papel de avó. Que você perdeu seu papel sensual. A sobrecarga em cima de uma artista que é espelho para todas as mulheres, e a gente precisa ser mais franca com a gente pra ser com o público. Falar que está péssima, que melhorou, que não segurou a onda. A pessoa não consegue ser mãe de três crianças, gravar novela o tempo todo e estar maravilhosa. Cabe muito aos artistas de um modo geral trazer essa verdade pro público para que ele também se entenda melhor como pessoa, e isso eu faço questão de fazer.

Muitas mulheres têm dificuldade de lidar com dinheiro, não gostam sequer de falar no assunto. De onde vem essa dificuldade de querer prosperar financeiramente em favor de si mesma?

Isso está no coração do problema. Por que você tem tanta vergonha de ter dinheiro? Por que se sente mal em ter ambição? Por que não traça sonhos pra você, de adquirir coisas? Por que uma mulher falar que quer ser rica é feio, e um homem falando é bonito? Porque está na nossa cabeça. Durante muitos séculos, a mulher só ganhava dinheiro de duas formas, ou ela se casava ou se prostituía. Há essa herança muito ruim no nosso inconsciente. O que a gente faz dentro da jornada é conscientizar disso. Fomos historicamente colocados nesse lugar, de não fazer parte da multiplicação social, de que mulheres são parte apenas do ambiente privado. E hoje a gente está dentro dessa praça de negócios, nesta feira pública. Então, temos pouco traquejo de lidar com os valores desta feira, falar de dinheiro, fazer bons negócios. A gente ensina a fazer bons negócios, firmar parcerias que tenham o mesmo peso pros dois lados. Ensinar a mulher a se colocar e falar 'assim eu não vou fazer'.

Mesmo em grandes empresas, a gente vê que mulheres têm dificuldade de acesso e, uma vez dentro, dificuldade de atingir cargos altos mesmo sendo qualificadas ou tendo mais anos de estudo. Recrutadores dizem que às vezes mulheres bem qualificadas não se inscrevem pra essas vagas. Você vê um problema de autoestima?

Muito. É um problema entrar num lugar novo e não saber as medidas desse lugar. Só hoje nós mulheres comentamos daquele colega que nem fala tão bem inglês quanto a gente e está lá no posto alto. A gente não é dona de truque, a gente lida com o que sabe. Então entrar nesse mercado e começar a entender que tem gente que vai blefar e vai levar na sua frente é muito difícil. Existe uma novidade em lidar com essa nova dinâmica, porque não temos histórico de sentar naquela cadeira. Há dois fenômenos que nos acometem. Uma mulher entra numa empresa, que vale também pra empreendedora que começa, e naquele primeiro ano ela está num mundo novo. No segundo ano começa a ter tapete puxado, que é o degrau quebrado. Ela está subindo e acha que está firme, mas o degrau quebra. Depois dos três anos, ela vê aquele tanto de colega ir para o cargo de supervisor e ela continua lá. Tem várias mulheres na base, mas pra subir o degrau está sempre quebrado. Quando chega na gerência, para passar disso existe um teto de cristal. A gente vê o poder, as pessoas decidindo em cima, está próximo, mas aquilo está vedado pra gente. Quando alguém da gerência passa para a diretoria, ela se machuca. Pra passar, ela vai ter que quebrar o teto de cristal, vai ter que tomar muita paulada, vai ser muito mais confrontada, a sobrecarga vai triplicar. Se ela não aguentar os primeiros anos, também volta lá pra baixo. Não é fácil. Não adianta a gente romantizar que está empoderada, maravilhosa, que ganha dinheiro. Porque a gente está sempre como um sonâmbulo tendo que se equilibrar na corda bamba.

Há movimentos nas redes sociais de mulheres que ensinam a manter os filhos, a casa, o marido, a carreira, e ainda ter unhas feitas. Como você vê essa questão das influenciadoras do 'sucesso' feminino?

Tenho sororidade com essa mulher. Ela não está percebendo a sobrecarga que está colocando sobre ela e sobre as pessoas que influencia. Daqui a pouco ela não vai aguentar, porque ninguém aguenta, porque não é possível. A mulher perfeita, a mulher maravilha não existe. O que existe é uma mulher de verdade, que faz um truque na unha antes da reunião do zoom, que deu uma engordada e vai ficar bonita daquele jeito, que não pode pintar o cabelo e foi com os fios brancos mesmo. O que eu acho que a busca pela perfeição feminina faz, com o mito da batalhadora, é deixar as mulheres mais angustiadas com a sua verdade. E a verdade é que ela está cheia de dúvidas. Ainda é um campo para a gente pisar com cuidado. A minha porta está aberta para todas as mulheres, inclusive para aquelas que acreditaram na perfeição. O autêntico é ter a sua perfeição. A gente é gente.

Como você enxerga o peso da maternidade nesse contexto de mercado de trabalho e empreendedorismo?

Tem um peso. Você colocou uma pessoa do mundo. Não dá pra entender que depois de quatro meses em licença, a mulher vai voltar pro trabalho maravilhosa, mesmo tendo deixado bebê recém-nascido com uma babá. Ela realmente perdeu o pé das coisas, pode ter perdido o cargo, ela volta e está fora do grupo. A maternidade não pode ser tratada como algo que se ajusta. Ela tem um protagonismo principalmente quando a criança ainda é bebê, nos dois primeiros anos principalmente, quando precisa de uma atenção maior. A mãe tem que estar ciente, se perdoar de não ser perfeita. Entender que não vai ter esse gás de acompanhar ou outros no trabalho porque está com uma criança que a demanda muito. É preciso lidar com a maternidade com verdade. Ela precisa estar nesse lugar de importância. Não acho que é pra parar sua caminhada, mas essa conciliação tem uns dois anos ou três pra entender como vai ser isso.

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