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Saúde feminina

Planos de saúde do ES fazem o dobro de mamografias do que o SUS

Apesar de a taxa de atendimentos a mulheres estar acima da média nacional, existem desigualdades no acesso a procedimentos

Publicado em 20 de Maio de 2026 às 18:37

Aline Nunes

Publicado em 

20 mai 2026 às 18:37

Com a alta prevalência de câncer de mama e de colo de útero no país, exames diagnósticos podem fazer toda a diferença para o tratamento e a cura. Mas a prevenção carrega um viés de desigualdade: a rede privada realiza até cinco vezes mais exames do que o setor público. No Espírito Santo, por exemplo, os planos de saúde fazem o dobro de mamografias em comparação ao Sistema Único de Saúde (SUS)


É o que mostra estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). A pesquisa, com dados de 2024, revela que o setor privado realiza proporcionalmente o dobro de mamografias e cinco vezes mais biópsias cervicais do que o SUS no país 

Imagem BBC Brasil
Paciente fazendo mamografia: procedimento é mais frequente na rede privada. Getty Images

Os indicadores também evidenciam uma forte concentração de médicos especialistas e exames nas regiões Sul e Sudeste, enquanto o Norte e Nordeste enfrentam maior carência de recursos. Mas o elevado número de profissionais nem sempre se traduz em acesso aos procedimentos: o Espírito Santo tem a segunda maior taxa de ginecologistas do país, porém está abaixo da média nacional na realização de biópsias de colo do útero. 

Cenário no Espírito Santo

O Espírito Santo contava, em 2024, com 912 especialistas em ginecologia e obstetrícia, o equivalente a 46,44 médicos por 100 mil mulheres, atrás apenas do Distrito Federal, cuja taxa era de 92,84. A média nacional ficou em 36,84.


O Estado, ao longo daquele ano, realizou 10.640,95 mamografias, por 100 mil mulheres, superando a média nacional de pouco mais de 8,3 mil. No entanto, a diferença do atendimento público para o particular evidencia a desigualdade. Enquanto o SUS realizou 7.673,49 procedimentos, os planos de saúde fizeram 16.397,21 — mais do que o dobro no volume de exames. 


A realização de biópsias de colo de útero mostra uma realidade ainda mais crítica. Além da diferença no acesso entre pacientes do setor privado (145,37) e do SUS (111,83), a oferta do serviço no Espírito Santo, que girava em torno de 123,24 por 100 mil mulheres, ficou bem abaixo da média nacional, de 174,9149. 


O estudo mostra que a discrepância entre o número de ginecologistas e a realização dos exames indica que, para a mulher ter acesso aos procedimentos, não depende apenas da existência de médicos especialistas, mas de uma infraestrutura diagnóstica, com equipamentos e laboratórios. 


A eficiência do sistema de saúde também depende do fluxo de atendimento. No caso da biópsia de colo de útero, é necessário o rastreio inicial, detecção da anormalidade, encaminhamento a médico especialista e a disponibilidade de patologistas para confirmar o diagnóstico. Se houver falha em qualquer uma dessas etapas, o ginecologista sozinho não consegue concluir o procedimento. 

O que diz a Sesa

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) foi procurada por A Gazeta e, em nota, informou que, segundo dados do Sistema de Informação do Câncer (Siscan), o Espírito Santo registrou crescimento nas ações de rastreamento dos cânceres de mama e do colo do útero, entre 2021 e 2025, realizados no Sistema Único de Saúde. 


"As mamografias aumentaram 43,4%, passando de 71.273 para 102.207 exames em 2025, resultando em uma trajetória de expansão contínua. Os exames citopatológicos do colo do útero cresceram 24,1%, passando de 171.894 em 2021 para 213.243 procedimentos em 2025, se mantendo em patamar superior ao registrado no início da série histórica", ressalta.

 

A Sesa diz que é importante observar que este resultado está diretamente associado ao investimento na expansão da Atenção Primária à Saúde (APS) no Estado, representada pelo aumento de 21% no número de Equipes de Saúde da Família, que passou de 938 para 1.135 equipes, no mesmo período. 


"A atenção primária é considerada um elemento central uma vez que amplia o acesso aos exames, organiza o cuidado, melhora o acompanhamento das pacientes e facilita ações preventivas nos territórios. Como reflexo desse fortalecimento, os registros de rastreamento do câncer de mama e do colo do útero na APS cresceram, respectivamente, 50,5% e 54,6% no período", reforça a Sesa.

 

A Secretaria da Saúde diz que a desigualdade de acesso entre os sistemas público e privado é um desafio estrutural reconhecido. "Apesar da elevada concentração de médicos especialistas no Estado, o rastreamento no SUS depende da organização integrada da rede de atenção à saúde, o que envolve a atenção primária, os serviços de regulação, a oferta de exames diagnósticos e o acompanhamento das pacientes ao longo de toda a linha de cuidado." 


Um dos principais desafios, continua a Sesa, é ampliar o acesso dentro das faixas etárias recomendadas pelos protocolos do Ministério da Saúde, garantindo maior efetividade das ações preventivas e de detecção precoce.

 

"Além da adesão ao programa federal ‘Agora Tem Especialistas’, maior iniciativa do SUS para reduzir o tempo de espera por consultas, exames e cirurgias, a Sesa reforça ainda que o Estado também acompanha a incorporação gradual do teste molecular para detecção do HPV (DNA-HPV) no SUS, tecnologia que será implementada progressivamente em paralelo ao exame citopatológico, o que amplia a detecção precoce como estratégia de enfrentamento do câncer e de melhoria da saúde da mulher, além de reduzir as desigualdades no acesso ao tratamento", conclui a secretaria. 

Atualização

07/06/2026

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) se manifestou sobre o estudo após a publicação da reportagem. O texto foi atualizado. 

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