Tanto esforço empreendido em anos eleitorais para não repelir votos pode acabar sendo um tiro pela culatra, como se viu na Câmara. O desespero de deputados federais para retirar assinaturas da CPI das Delações após a repercussão negativa da proposta foi a trapalhada mais recente. Muitos não se importaram nem mesmo em justificar que nem chegaram a ler o texto. Um sincericídio? É sempre bom ter certas ressalvas.
Da bancada capixaba, sete estavam entre os 190 parlamentares que no primeiro momento endossaram a criação da CPI, cuja proposta é realizar um escrutínio no instituto que é considerado o principal motor da Lava Jato. Sem as delações, a operação que desmantelou o esquema bilionário da Petrobras certamente não teria conseguido o mesmo êxito. Surgiu assim o temor da rejeição da robusta fatia do eleitorado que vê na força-tarefa um instrumento moralizador da política.
Cinco deputados capixabas recuaram. Na Câmara, pela impossibilidade de retirada de assinaturas, foi apresentado outro requerimento, pedindo que o anterior seja recolhido.
Reconsiderações são, de fato, válidas. Rever posicionamentos é inclusive saudável para o bom andamento de governos e instituições. Faz parte do jogo democrático. Mas, num ambiente em que o casuísmo é tão recorrente, a desconfiança sobre as motivações acaba sendo a maior defesa do eleitor.
O medo de se ver associado a uma mobilização parlamentar para minar a Lava Jato fez deputados até mesmo admitirem que não leram a proposta, o que nos leva a uma questão: o relapso parece ter um peso político menor para eles, como se fosse um erro bobo. Não é. A desatenção contribui para a baixa produtividade parlamentar, além de ser uma grande irresponsabilidade.