Após três anos e meio de mandato, a palavra “discrição” é a primeira e a mais elogiosa que vem à mente quando o assunto é Almir Vieira na Assembleia Legislativa. Presença rara em frente aos microfones da Casa, ele é descrito até como “cabisbaixo” por alguns colegas de plenário. Os fatos que levaram à cassação do então parlamentar pela Justiça Eleitoral remontam à eleição de 2014 – desvio de dinheiro da Associação dos Funcionários Públicos do Espírito Santo para abastecer a própria campanha eleitoral – e, ironicamente, é a esse processo, que teve um desfecho só agora, que os demais deputados creditam a postura introspectiva de Almir. “Isso fez ele usar menos a tribuna, falar menos, era algo que o preocupava”, relata um deputado. “Ele ficou enclausurado por causa do processo”, comenta outro.
Dary Pagung, presidente do PRP estadual, sai em defesa do correligionário: “Foi o primeiro cargo eletivo dele. Não teve experiência nem como vereador. Assim, quando chegou à Casa, ele queria ouvir, entender como funciona. E o mandato não é só falar na tribuna. Ele ajudou nos bastidores”.
O site da Assembleia registra 12 projetos de lei propostos por Almir. Vários voltados ao município de Anchieta, seu reduto eleitoral: “Declara o Município de Anchieta Capital do Turismo Religioso no Estado do Espirito Santo”; “Institui os ‘Passos de Anchieta’ como Patrimônio Turístico e Histórico do Estado do Espírito Santo” e “Institui o ‘Santuário São José de Anchieta’ como Patrimônio Turístico, Histórico e Religioso do Estado do Espírito Santo”. Teve também o que pretendia isentar os doadores de sangue de cobrança em estacionamentos, que acabou vetado pelo governador Paulo Hartung. A proposta foi considerada inconstitucional, uma vez que o assunto é de competência exclusiva da União.
Essa trajetória de proposições – que inclui ainda concessão de títulos de cidadão espírito-santense – chegou ao fim na última sexta-feira com a oficialização da perda do mandato de Almir. Ontem, foi a posse da suplente Cláudia Lemos, do PRB, que pode dar origem a outro imbróglio jurídico-eleitoral, mas essa é outra história.
A saída do deputado do PRP e a chegada de reforço na bancada do PRB não altera muito a correlação de forças em relação ao Palácio Anchieta. Ambas as siglas são palacianas. O líder do governo na Assembleia, Rodrigo Coelho, disse que o então deputado “demonstrou solidariedade e comprometimento com as pautas do governo e integrava as comissões de Finanças e Saúde, sempre foi muito presente”. “O Almir é humilde, cortês e, enquanto parlamentar, foi um dos mais discretos que tivemos nesta legislatura”, resume o oposicionista Josias da Vitória.
Dary Pagung acha que Almir não vai mais querer voltar à vida pública. Pelos próximos oito anos, nem que quisesse. Está inelegível. O ex-deputado anda sumido. Nem se despediu oficialmente. “Ele está em um sítio em Alfredo Chaves e sem prazo para sair de lá”, conta Dary.
Contraponto
A eleição na OAB-ES será realizada em novembro, mas a pré-campanha está pegando fogo. André Moreira, que não é candidato à presidência da entidade, mas apoia José Carlos Rizk Filho, faz um contraponto ao atual presidente, Homero Mafra. “Há uma incompatibilidade entre as posições dele e as da Ordem”, afirma Moreira, que perdeu duas disputas contra Homero, em 2009 e 2012.
Naufrágio e Hilário
“Em 2009, ele era candidato e conselheiro da Ordem. A grande pauta era a Operação Naufrágio e ele assumiu a defesa de indiciados na Naufrágio. Depois, assumiu que a atuação da OAB no desastre de Mariana deixou a desejar. E teve o caso de Milena Gottardi (Homero defendeu, por um tempo, o acusado de mandar matar a médica, Hilário Frasson). A Ordem tem posicionamento contra o feminicídio e tinha um provimento pelo acompanhamento do caso”, diz Moreira.
Equívoco
Homero rebate: “A defesa criminal – se o candidato do PSOL não sabe – é do fato. Não se confunde a defesa de uma pessoa com a defesa de um tipo penal. Se for assim, aquele que defende um acusado de furto, defende o furto. É um equívoco”. André Moreira é pré-candidato ao governo do Estado pelo PSOL. Homero apoia Ricardo Brum na disputa pela OAB.
Sem replay
O pré-candidato à Presidência da República Eymael discursou nesta segunda, ao vivo, da tribuna da Assembleia. Mais uma sessão que não poderá ser reprisada pela TV Assembleia, seguindo orientação do Ministério Público Eleitoral, para evitar conotação de uso eleitoral da emissora.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.